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Arrastão: Os suspeitos do costume.

A coragem de quem não trabalhou

Daniel Oliveira, 28.06.13

 

Tudo jogava contra a greve geral. O forte desemprego cria ansiedade e medo de perder o posto de trabalho. As enormes perdas salariais e aumentos de impostos, no público e no privado, não deixam margem para a perda de um dia de salário. Nas pequenas empresas, a situação económica difícil que se vive e o risco de falência tornam mais complicada a decisão de fazer uma greve que não tem como alvo o patrão.

Mesmo na Administração Pública vive-se o pior momento de sempre. As listas de quem vai para a mobilidade (ou ser requalificado, para quem tenha ainda mais dificuldade em pronunciar a palavra "despedimento") já começam a correr. E em muitas empresas do Estado, sobretudo as que se preparam para processos de privatização ou "reestruturações" (outro eufemismo para "despedimento"), os boys do governo há muito espalharam o medo entre os funcionários. A verdade é que já nem no sector público há qualquer sensação de segurança.

 

Passos Coelho reagiu à greve geral como reage a tudo: com frases feitas que acabam por funcionar contra si. Ao repetir a bolorenta frase de que "o país precisa de trabalho, não de greves", deu espaço para que todos se recordassem que, se há alguém que não pode falar do trabalho que o país precisa, é precisamente o primeiro-ministro que mais postos de trabalho destruiu na nossa história recente. E que se prepara, agora na função pública, para engrossar a enorme massa de desempregados que está proibida de contribuir para o crescimento económico do País. É precisamente porque o País precisa de trabalho que Passos Coelho está a mais no lugar que ocupa, responderam, naturalmente, os sindicatos.

 

Nuno Crato deu um fortíssimo argumento à CGTP e à UGT. Quis mostrar a sua força com a greve dos professores e isolá-los. Perdeu. E acabou por ser obrigado a ceder em toda a linha em vésperas de greve geral. Ou seja, toda a gente percebeu que, ao contrário da ideia que se gosta de passar, as greves podem mesmo servir para qualquer coisa. Asdeclarações das três confederações patronais, dizendo que compreendiam esta greve, também foram a demonstração do total isolamento de Pedro Passos Coelho.

 

Claro que a greve foi, por todas as razões que referi (a que se juntam outras, mais antigas, como a crescente precarização das relações laborais e a consequente perda de poder dos sindicatos), muito superior no sector público. E nesse, como se esperava, foi de enormes dimensões. Apesar do spining manhoso da REN, tentando medir a adesão à greve pela comparação do consumo de eletricidade com um feriado em grande parte do País (e não com um dia normal, porque aí a coisa não seria tão boa para o governo), várias grandes empresas de laboração contínua (aquelas onde uma interrupção da produção resulta em maiores prejuízos), como a Autoeuropa e as empresas do seu complexo industrial (responsável por um décimo das nossas exportações), pararam a produção. Adesões superiores a 60% também se verificaram na Central Termoeléctrica de Sines (EDP), Centralcer, Estaleiros Navais de Viana do Castelo, Browning, Lisnave, Amarsul, Eurosinas (Sonae), STEF, Portalex, Unitrato, Renoldy, Visteon, Cobert Telhas, Cerdomus, Sakhit, Tudor, só para pegar em alguns exemplos do que terá, apesar de todas as dificuldades, sido uma das maiores greves gerais no sector privado. Sendo certo que as greves são quase sempre muito fracas no pequeno comércio e serviços, é nas grandes unidades industriais que os seus efeitos económicos são mais significativos.

 

Resumindo: a greve foi enorme no sector público (como se esperava, muito superior ao privado) mas esteve longe de ser uma greve da Função Pública. Segundo a UGT, a greve terá mobilizado mais de metade dos trabalhadores no ativo (em números globais de greve geral não me meto, porque são muito mais do que falíveis, mas foi seguramente superior às duas greves conjuntas anteriores). Isto, apesar de nunca ter sido, no privado e no público, necessária tanta coragem para fazer uma greve.

 

Disse o ministro Marques Guedes que respeita muito quem foi trabalhar. Eu respeito, obviamente, a escolha de todos. Apesar de imaginar que não lhes há de ter sido agradável ser comparados ao governo ("estão a trabalhar como o governo também está", disse o ministro da Presidência). Mas hoje fica aqui o meu respeito para os que, com todos os sacrifícios que estão a viver, com o risco real do desemprego (ou da "requalificação"), perderam um dia de salário e aborreceram os seus patrões e chefes, não indo trabalhar. O País precisa de trabalho, claro está. Mas precisa ainda mais de gente com coragem. Ficou ontem claro que, apesar do discurso das inevitabilidades e do medo, que apelam ao silêncio e à resignação, ainda há muita gente dessa por cá. Resta, por isso, alguma esperança.


PS: Sobre o "não episódio" que envolveu umas poucas dezenas de pessoas nos acessos à Ponte 25 de Abril e que não teve qualquer relevância na greve de ontem, que envolveu centenas de milhares de pessoas, nem perderei tempo. Concorde-se ou discorde-se dela, a greve tem e terá efeitos e leituras políticas (a que voltarei na edição impressa do Expresso). O "não acontecimento" que abriu todos telejornais não sobreviverá na memória de ninguém mais do que umas horas. Deixo, por isso, para as televisões e seus jornalistas a nobre tarefa de hierarquizar as notícias de pernas para o ar, tendo como único critério o que possa dar umas boas imagens de ação (e nem isso deu).


Publicado no Expresso Online

7 comentários

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    Anonimo 28.06.2013


    "Ou seja, são greves politicas. Julgo até saber que esse tipo de greves são proibidas em alguns países democráticos."

    Quais? também ha religiosas? tudo na vida é politica.
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    Pedro Santos 28.06.2013

    Nem tudo na vida é politica. Por exemplo este Governo é acusado de ter uma "Agenda Poilitica" e de ter Ideologia, coisa que a Oposição de Extrema Esquerda, que costuma fazer aquela acusação, é óbvio que não tem. Ou se tem, esconde-a muito bem.
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    Anonimo 28.06.2013

    Não fui isso que eu perguntei, foi acerca da sua afirmação, de países que proíbem as greves políticas.  


     


     


    Quanto a não ser tudo na vida política, é. Até você  na sua vida faz política a outro nível, faz escolhas,( escolhe isto e não aquilo). Na greve quando se fala de patrão também assume um caráter político, se  um grupo social  decide suspender os trabalhos em greve  é em si, uma conduta política dos  trabalhadores frente ao empregador.


     


     


     Os trabalhadores podem fazer greves reivindicativas, para melhorar as condições do trabalho, “greves políticas", para conseguir as transformações económicas e sociais, o que é que fazia o solidariedade na polônia?  e quanto a mim nenhuma lei em países democráticos as pode proibir,  se conhece diga-me.

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    Pedro Santos 28.06.2013

    "Estados Unidos da América - 

                A Public Law 330 impôs severas penas a grevistas no serviço público federal(multa e prisão). Todo servidor deve fazer uma declaração em que renuncia ao direito de greve ao ingressar no serviço público.
                No âmbito estadual a grande maioria proíbe a greve no serviço público, salvo Alaska, Minesota, Montana,Oregon, Pensilvânia e Winsconsin."
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    Anonimo 29.06.2013

    Quer dizer que pelos exemplos dos paises que citou uma greve é proibida por ser politica quando é feita pelos funcionarios publicos pois estes parece que expressamente estão abrangidos

    Por exemplo na Alemanha a sua legalidade pode ser condicionada/averiguada até pelos tribunais, na America(EUA) é decidida pelo sindicato com maior representatividade, no tempo do reagan foi feita uma greve, o presidente aplicou a lei da sanção e substituiu os trabalhadores por militares porque neste caso podia fazer isso devido a similitude de funçoes, mas ja não podia por exemplo se fosse no sector da saude ou outro em que não podia substituir os medicos por outros funcionarios, depois ha uma lista de paises onde mais ou menos ha condicionantes a greve, nos temos os militares por exemplo.

    Sendo para mim tudo politica, se a greve for em relação ao patrão como ja expliquei ou se o patrão for o estado. O senhor faz diferenças neste tratamento, então quando é que uma greve é politica para si, e devia ser proibida se for o funcionalismo publico a faze-la devia ser proibido.
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    Pedro Santos 29.06.2013

    As greves foram feitas para que os trabalhadores de uma empresa ou sector possam pressionar o patronato a melhorar-lhes as condições laborais. Depois, há negociações e chega-se ou não a acordo. Foi nesses pressupostos que elas foram criadas e legalizadas no sec XIX.

    Uma greve é política quando os trabalhadores de uma empresa ou de um sector a fazem não para melhorar as suas condições laborais (com as quais até podem estar satisfeitos), mas para, por exemplo, tentar derrubar um governo Democráticamente Eleito, geralmente sob a voz de comando de um qualquer partido que perdeu as eleições.

    Espero que o senhor compreenda que um Governo Eleito Democráticamente por uma maioria, mais ou menos significativa de cidadãos, não pode, de forma alguma, ser derrubado na rua, ou por boicotes, por um grupo restrito de cidadãos com motivações politicas, e que abusam da Lei da Greve para fazer golpes de estado.  É por isso que há eleições a intervalos de tempo regulares, para que TODOS os cidadãos e não sómente alguns se possam pronunciar sobre a continuidade ou não do governo.

    Por exemplo, o senhor Daniel Oliveira anda sempre a defender, nos meios de comunicação social, nas manifs, e nads greves que ele tanto aprecia, a queda deste governo. Acontece que eu, que sou tão cidadão como o senhor Daniel Oliveira (ou os tipos da CGTP, e essa malta toda), a mim, ninguém me pediu a opinião. E eu sou totalmente a favor da continuidade deste governo até às próximas eleições. Acha que é a opinião do senhor Dainel Oliveira e das pessoas com uma ideologia próxima da dele, que deve vingar?  O senhor tem forma de determinar que eles são a maioria ?

    A Legitimidade de um Governo só pode ser aferida com exactidão em Eleições DEmocráticas, não é porque alguns opinólogos e opinógrafos, com lugares garantidos nos Media repetem até à exaustão que este ou qualquer governo perdeu a Legitimidade.

    Quanto ao Direito à Greve ser um Direito Absoluto que se sobrepõe a todos os outros, como acontece cá em Portugal, sou totalmente contra. Sempre fui. Há situações em que uma greve deve, pura e simplesmente ser terminada. Olhe, a dos professores por exemplo.

    Olhe, greves no sector público da Saúde deviam ser proibidas, por exemplo. Não se admite que uma pessoa esteja meses há espera de uma consulta, ela seja marcada para um dia de greve, e o Direito dos Grevistas se sobreponha ao Direito à Saúde (tão apregoada por essa gente) desse cidadão.

    Em caso de greves gerais, o sector dos transportes devia de ÓBRIGATÓRIAMENTE, ter Serviços Mínimos, mas Serviços Mínimos dignos desse nome, para os que querem exercer o Direito a irem trabalhar o possam exercer, com o mesmo Direito que aqueles que querem fazere Greve.

    É que fazer Greves Gerais, em que meia dúzia de gatos, que conduzem os transportes, os param na totalidade, a mando de sindicalistas que toda a gente sabe que são Comisários Politicos de certos partidos, é muito fácil. E é Jogo Sujo.

    Como vê há paises democráticos (há muito mais tempo que nós) em que o Direito à Greve é fortemente condicionado. Não vejo porque não possa acontecer o mesmo cá. Ou isso é mais um Dogma ?
     


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