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Arrastão: Os suspeitos do costume.

O novo Relvas

Daniel Oliveira, 31.07.13

 

Não entro no passa-culpas entre PS e PSD. Os contratos especulativos swap têm a assinatura do bloco central. Encontramos neles as assinaturas de presidentes de conselhos de administração de empresas públicas nomeados por Guterres, Durão Barroso e Sócrates e que fizeram estes contratos quando Durão Barroso, Santana Lopes e Sócrates e eram primeiros-ministros. As responsabilidades por este tipo de contratos não são exclusivamente do governo anterior, mas também dos que o antecederam, num padrão de gestão negligente que tem pelo menos 15 anos, como o próprio Vítor Gaspar acabou por reconhecer ontem no Parlamento.

 

Se assentarmos nisto, podemos passar para o ponto seguinte: Maria Luís Albuquerque sabia o que se passava e poderia ter travado o descalabro a tempo de não ver as perdas potenciais duplicarem? Ela foi dizendo que não. Primeiro a ministra começou por dizer que o Governo não sabia de nada. Era mentira. Depois era apenas ela que não sabia. Também era mentira. Depois não havia nada pasta de transição. Por fim, a informação transmitida não era "relevante". Ainda veremos se é agora que finalmente diz uma verdade.

 

As versões de Albuquerque já são tantas que espero não me estar a baralhar. Quando se soube que recebeu a informação, passou a dizer que começou a trabalhar logo no tema, apesar de, na primeira versão, nada saber sobre ele. Diz quecomeçou do zero, porque a informação era escassa. Aquela que, na sua primeira versão, nem sequer existia. Era, portanto, escassamente inexistente.

 

Foram outros (todos os outros) que bloquearam decisões. Um deles foi o ex-presidente do IGCP, que esteve no lugar até março do ano passado. "Esteve parado", "não dava andamento ao processo" e atrasava a renegociação dos contratos swap, disse a ministra. Ele disse, na comissão parlamentar, que nunca lhe foi pedido que agisse. Para o desmentir, Albuquerque explicou ontem que o IGCP até produziu informações sobre possíveis soluções que foram remetidas pelo seu presidente, tendo sido determinantes na estratégia a seguir. Ou seja, o homem que esteve parado produziu soluções que foram seguidas. Tal como há informações inexistentes que são insuficientes, há pessoas paradas que trabalham em soluções que ainda por cima são aplicadas. Por fim, era tudo tão complexo que demorou dois anos a chegar a uma conclusão. Porque há que ser ponderado nestas coisas. Sorte a dos bancos de não terem o mesmo tratamento expedito que foi dado pelo Ministério das Finanças a reformados, funcionários públicos e contribuintes.

 

Como até Maria Luís Albuquerque se perde no seu labirinto, tentou ontem voltar ao princípio e insistiu que nunca mentiu. Porque, de facto, não recebeu informação sobre os swap. Como assim? Há os mails. Há as reuniões. Há a palavra de Gaspar que diz que recebeu informação de Teixeira dos Santos e lhe passou a ela (ela diz que nada havia para reportar, o que quer dizer que até já Gaspar é, para a nova ministra, mentiroso). Há o mesmo Gaspar a dizer que Albuquerque conhecia muito bem a situação dos swap. Há todas as provas testemunhais e documentais... Não recebeu informação porque só a terá recebido quando a pediu. Ou seja, no mundo de Albuquerque uma informação deixa de o ser quando resulta de uma solicitação. Se fui eu que a pedi, é como se não a tivesse recebido. Assim, se eu disse que não a tinha, apesar de a ter recebido quando a solicitei, não menti. A minha cabeça rodopia com os jogos de palavras de Albuquerque.

 

Repito o que escrevi a 1 de julho, no dia em que Passos escolheu Maria Luís Albuquerque para ministra das finanças: "Antes de saber da demissão de Gaspar tinha escrito, para hoje, um texto em que explicava que Maria Luís Albuquerque, com tudo o que já se sabe sobre dossiê dos swap, não tinha condições para continuar a ocupar o lugar de secretaria de Estado. O meu texto ficou desatualizado. A senhora foi promovida a ministra. O que prova que até eu continuo a subvalorizar a infinita estupidez de Pedro Passos Coelho. Swaps. Vai ser esse o assunto dos próximos meses. Deixando a nova ministra a ferver em lume brando, de revelação em revelação até à revelação final. Não espanta que Passos não o perceba. Afinal de contas, este é o homem que levou Miguel Relvas, que toda a gente sabia quem era, para o governo."  Não cometerei o pecado da soberba ao dizer que avisei. Avisei eu e avisou toda a gente. Até Paulo Portas avisou. Já todos tinham percebido de que massa era feita esta senhora.

 

Maria Luís Albuquerque estava enterrada até ás orelhas no caso dos contratos swap, que ela própria, como diretora financeira da REFER, tinha assinado. Durante dois anos, deixou o problema engordar, sem nada fazer. Há até sinais de que travou qualquer tipo de reação atempada. Quando a coisa lhe explodiu nas mãos, dirigiu uma purga no governo, humilhando publicamente colegas que tiveram o mesmo comportamento que ela na gestão financeira das empresas que dirigiam. E tratou de garantir que a sua própria gestão não era investigada.

 

A comissão parlamentar criada pela maioria para atirar culpas para o governo anterior (que as teve, e não foram poucas) acabou por se transformar no grelhador da nova ministra. Apanhada em todas as esquinas, Albuquerque enredou-se numa sucessão de mentiras que tinham como único objetivo esconder a sua incapacidade política e técnica de travar um problema que, quando ela chegou ao governo, tinha metade da dimensão que hoje tem. E como uma criança apanhada, já não consegue sair delas.

 

Por razões diferentes, Maria Luís Albuquerque será o novo Miguel Relvas de Passos. Uma bomba relógio ambulante, paralisada pela percepção pública das suas falhas de carácter. Se Passos a demite, um mês depois de a nomear e de com isso ter causado a maior crise política deste governo, morre de doença súbita. Se a mantem, morre de doença prolongada. É o destino de políticos impreparados que escolhem ministros em função das suas proximidades pessoais.

 

Esta coluna regressa a 2 de Setembro. Até lá, escreverei na edição impressa do "Expresso".


Publicado no Expresso Online

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