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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Um eleitor indeciso

Daniel Oliveira, 27.09.13

 

Tenho por hábito falar de forma transparente do meu voto. A simulação de neutralidade de comentadores politicamente alinhados (como é natural que sejam os comentadores) sempre me irritou. Nada me obriga a dizer em quem voto. Mas prefiro assim. Tudo claro.

 

Fosse do Porto e a minha decisão estava tomada. Votaria, com toda a certeza, em José Soeiro e na lista do Bloco de Esquerda. Porque há ali uma forma diferente de olhar para a política e para o papel dos partidos na vida local. Fosse de Coimbra e faria mais do que votar: estaria seguramente envolvido na lista Cidadãos por Coimbra, onde se criou uma alternativa consistente à extraordinária mediocridade que uma cidade que produz inteligência tem tido como classe dirigente. Se fosse de Braga votaria na lista cidadãos e, acima de tudo, contribuiria para tirar da Câmara uma das mais vergonhosas gestões autárquicas do País, apadrinhada com afinco pelo Partido Socialista. Fosse de Loures e votaria no Bernardino Soares e na CDU, com uma candidatura sólida e capaz provocar uma mudança num dos mais maltratados concelhos limítrofes de Lisboa. Enquanto em Almada estaria provavelmente a votar contra a mesma CDU, que, do urbanismo à política fiscal, mais não faz do repetir os piores vícios da pior gestão autárquica. Muitas vezes com a conivência complexada da vereadora do Bloco de Esquerda. O que deixaria os dois partidos de fora da minha escolha. Já em Cascais, contribuiria, com o meu voto, para não permitir que o presidente da Associação Nacional de Farmácias, candidato do PS, levasse os seus negócios para a autarquia. Em Oeiras, onde quase todos parecem ter dificuldades em apresentar alternativas credíveis à trupe de Isaltino, votaria no Bloco e no seu candidato ecologista. E no Funchal, cidade com a qual tenho uma ligação emocional, votaria na candidatura liderada pelos socialistas, que junta grande parte da oposição madeirense e que pode retirar ao PSD a capital da Região Autónoma. E esgotaram-se aqui os concelhos sobre os quais tenho informação suficiente para imaginar como votaria. Só que não voto em nenhum deles e por isso a minha opinião vale muito pouco, podendo até estar a cometer algumas injustiças. Nasci, cresci, vivo, trabalho e voto em Lisboa. E conheço muito bem a minha cidade.

 

Serviu todo este exercício para tentar explicar, com exemplos práticos, o meu critério de voto. Nunca me abstenho. Raramente voto em branco ou nulo, porque me custa aceitar que, perante tantos candidatos, nenhum me mereça sequer o benefício da dúvida. A não ser numa situação absolutamente extraordinária, não voto em partidos contrários às minhas convicções políticas gerais. No atual contexto, com este governo, não votaria com toda a certeza. Bem sei que as eleições são autárquicas. Mas seria idiota ignorar as suas repercussões nacionais. Fora estas condições, e já não sendo eu militante de um partido, o meu voto decide-se tendo em conta a realidade local. Nem todas as listas independentes são livres, nem todos os candidatos da CDU são competentes, nem todos os candidatos do BE são inovadores, nem todos os candidatos do PS são uma opção aceitável. E sim, as pessoas, e não apenas os seus programas e as siglas partidárias que os apoiam, também contam.

 

Tal como aconteceu há quatro anos, decidi não participar em nenhuma campanha para a Câmara Municipal de Lisboa. Nada teve a ver com qualquer tipo de autolimitação imposta, por ser comentador. Considero isso um absurdo. Não sou nem nunca quis ser ou parecer neutral. Por isso até participei na campanha dos Cidadãos por Coimbra e numa outra, o Move Alcântara, um movimento de cidadãos a uma freguesia lisboeta. Correspondem as duas ao que entendo que devem ser as listas independentes. Tenho três votos e dois já estão destinados. É para a Câmara e para a sua presidência que não me decidi. Acho que, em toda a minha vida, é a segunda vez que me encontro, tão próximo das eleições, nesse limbo deprimente onde habitam os indecisos (a outra foi na reeleição de Soares).

 

Como o voto no autarca profissional itinerante não é uma possibilidade e, nos pequenos partidos, não vislumbro nada com qualquer interesse, sobram três candidatos: João Ferreira, da CDU, João Semedo, do Bloco de Esquerda, e António Costa, do PS. Desculpem falar dos candidatos, mas as câmaras tem uma estrutura fortemente presidencialista. Ignorar os candidatos a presidentes é absurdo.

 

Quanto a João Ferreira, sei que foi eurodeputado e, ao que parece, razoavelmente competente. Mas desconheço em absoluto o seu pensamento sobre Lisboa. Ao ler as entrevistas que deu fiquei a achar que não sou o único. E com a leve sensação que a sua candidatura tem como único objetivo dar-lhe a notoriedade suficiente para que ele encabece a lista da CDU às próximas eleições europeias. Seja como for, não tenho ouvido da CDU, em Lisboa, um discurso alternativo consistente. A maior campanha que a coligação fez foi contra a redução de freguesias em Lisboa, assunto sem qualquer eco nas aspirações dos lisboetas (que me parece que até acharam muito bem, tendo em conta a absurda quantidade de freguesias na capital e o facto da Câmara se ter antecipado a burocráticas imposições externas) e que tinha como principais destinatários os próprios eleitos da CDU. De resto, concordando com várias críticas que fez à gestão de António Costa, a oposição foi permanente e sem critério, sem que, ao fazê-lo, se tenha demarcado do PSD e do CDS. Daqui a quatro anos logo se verá o que mudou e se estou a ser injusto na minha avaliação. A minha dúvida está, por isso, entre António Costa e João Semedo (para a Assembleia Municipal já reservei o meu voto para a Ana Drago).

 

Confesso que o meu voto em António Costa seria o natural. Foi, genericamente, um bom presidente de Câmara. Foi seguramente, com Jorge Sampaio, o melhor que Lisboa conheceu (tarefa relativamente facilitada). O seu trabalho é desigual e, em áreas como o urbanismo, deixa a desejar. Como nunca votei em candidatos perfeitos, o facto de ter resolvido os problemas financeiros da autarquia (o buraco de Santana e Carmona foi colossal) sem reduzir drasticamente serviços, mantendo a cidade a funcionar e até avançado com novos projetos, não despedindo trabalhadores e ainda integrando os que estavam a recibos verdes, seria mais do que suficiente para o meu voto. Em tempo de crise, António Costa mostrou que há formas de a contornar. E, quando tudo no País está pior, o que não depende do poder central em Lisboa está genericamente melhor. A esmagadora votação que as sondagens preveem e o apoio alargadíssimo que Costa conquistou, da direita à esquerda, resultam disso mesmo.

 

Teria boas razões para não votar no Bloco de Esquerda. Não me esqueço do seu comportamento no processo Sá Fernandes. Sou alfacinha apaixonado, daqueles que acham que ter nascido em Lisboa é uma sorte comparável a ganhar o totoloto. A política local diz-me muito. Foi aí que começaram as minhas divergências mais profundas com o Bloco. E que se confirmaram pelo comportamento dos eleitos na Assembleia Municipal, que, nos assuntos mais inacreditáveis, se puseram ao lado do PSD. Mas também não desconheço que a escolha de João Semedo (assim como a de Ana Drago) corresponde a um virar de página. E que o próprio já assumiu a vontade de ter o Bloco a participar no executivo, com pelouro. Uma mudança na política local pela qual batalhei, sem sucesso, durante anos. E que tem, nestas eleições, os protagonistas certos.

 

Felizmente, a minha indecisão não nasce da falta de escolha. É entre um presidente que merece o meu voto e um candidato que eu gostaria de ver como vereador, pelas enormes qualidades que lhe reconheço e para desembruxar de uma vez as convergências que se podem fazer à esquerda sem que ninguém seja obrigado a violentar-se. Dum lado, o que é justo, tendo em conta o passado: um bom presidente e um comportamento errático do Bloco. Do outro, o que posso esperar do futuro: uma maioria absoluta esmagadora que se pode tornar autista e um vereador capaz de assumir responsabilidades. É entre o que sei e o que espero que me decidirei. Sem nenhum apelo ao voto que não seja este: tudo menos Seara. Nem precisam de mais: passeiem por Sintra e vejam como se pode governar durante tanto tempo um concelho sem fazer seja o que for. Lisboa dispensa o regresso à mediocridade.

 

Publicado no Expresso Online

7 comentários

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    José Peralta 28.09.2013

    JgMenos

    Então dê lá a sua lambidela no PSD e no CDS !

    Ou eles não merecem ?

    Aqui tem a "minha" ! Mas por interposta pessoa...

    (...) "Estas eleições foram eleições livres da troika, para a asneira e para a coisa boa, capazes de ainda manter algum espaço saudável em que o garrote vil das "inevitabilidades" não entra. Foram eleições em que o PSD e o CDS prometeram pontes e calçadas, túneis e aquedutos, livros gratuitos e medicamentos para todos, óscares de Hollywood e prémios internacionais de arquitectura, ou seja, foram eleições que ocorreram nos bons e velhos idos do esbanjamento no seu máximo esplendor. Sócrates devia sentir-se em casa, no meio dos cartazes autárquicos, Passos Coelho devia pintar a cara de preto por não conseguir convencer os seus méritos de empobrecer. Mas, bem pelo contrário, andou nas arruadas soterrado por círculos de guarda-costas e de polícias. Estranho, não é ?" (...)
     
    (...) "A coisa está tão negra e tão confusa, tão desesperançada, que nem o ministro da propaganda Maduro, está com força anímica para inventar mentiras eficazes." (...)
     
    José Pacheco Pereira (in "Público-28-9-2013)

    (Sublinhados meus !)

     
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    JgMenos 28.09.2013

    O espírito do 'lambedor' não é estruturalmente diferente do espírito do 'detractor'.
    Ambos enfermam duma disfunção de carácter que se revela pela exclusiva exaltação da parte que lhe satisfaz um qualquer mesquinho interesse ou sentimento.
    O Pacheco Pereira vive um grave ataque de mesquinhez, tanto mais ridículo quanto mais revela os pastos marxistas em que por tanto tempo ruminou.
    Frustado o seu projecto de ser o alter ego de um 'Príncipe' reage a tudo que se lhe apresente como Poder.
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    José Peralta 28.09.2013

    JgMenos

    Deve ser o mesmo espírito "de...tractor", a mesma disfunção de caracter, que têm Manuela Ferreira Leite, António Capucho, Bagão Felix, entre outros, pela simples razão de que não têm capacidades, vida profissional, experiência política.

    Sim, porque nenhumas outras razões lhes assistem, para tomarem as posições que agora tomam !

    Partido-dependentes, "arredados" das benesses, das prebendas e mordomias que o "quebrado" dá aos que se lhe mantêm  "fiéis", só falam por despeito, vingança, "disfunção de caracter" !

    (Parece ainda não ter reparado, mas você não descola desse "argumento" ! Difícil arranjar outros, mais "argumentativos" e...convincentes, não é ? Lança-se um labéu...e pode ser que pegue ! Nem sequer é original).

    Não sabendo fazer mais nada na vida, sendo "viciados" nessas mordomias que lhes mantinham o "status", enveredam agora pela maledicência, pela intolerância, pela raiva contra quem lhes "fez (nos faz !) tanto bem"...

    Não renego as opiniões que, num passado recente, eu tive sobre Ferreira Leite e Pacheco Pereira. Mas é-me impossível não estar de acordo com o que eles e muitos outros, da área dos dois partidos, agora dizem. Só que eles, têm a inegável coragem de o dizer públicamente !  

    Já "putas" isentas, que "não enfermam de uma disfunção de caracter, que lhes satisfaça quaisquer mesquinhos interesses e sentimentos", são os que se mantêm caninamente fiéis à "voz do dono", qualquer ela seja. 

    E que "bom exemplo" entre outros, é um tal josé luís arnaut, que se mantém fiel "ao seu presidente", sejam  Durão Barroso, Santana Lopes, Manuela Ferreira Leite, agora o coelho, e ao que se seguirá !

    É este, em suma, o caracter, verticalidade, coluna vertebral, peculiares a estes lambedores "políticozecos de aviário"...e de cartão de "sócios" ao peito, a agarrarem-se como lapas, porque não sabem fazer mais nada !

    Iguais aos muitos coelhos que defecam na "coelheira"... 

    E agora : Pacheco Pereira falando sobre o "estado a que isto chegou", na universidade de Verão (Loulé-Setembro de 2013)

    A audiência, pouca e de idosos ! Os putos e a gentalha, devem ter ido para a praia ou para o casino, para não engolirem os sapos...
     
    http://www.youtube.com/watch?v=JsCqDkLVv5U (http://www.youtube.com/watch?v=JsCqDkLVv5U)

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    JgMenos 28.09.2013

    Estou com pressa - por agora lembro-lhe que há um 'dono': troika...
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    José Peralta 29.09.2013

    A troika, tem as costas largas...


    Não a posso ver nem pintada, mas tem servido de alibi à escumalha, para ir muito além dela !


    Lembro (lembro-lhe) o gaspar, que teve a desfaçatez de, quando a Irlanda propôs um alargamento de quinze meses para resolução da dívida, esse fantoche disse que para Portugal, bastavam sete meses...e ainda veio gabar-se disso !


    É só um exemplo entre muitos...




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    JgMenos 29.09.2013

    Quem tem dívidas e precisa de empréstimos entrega-se aos credores.

    Aparentemente construiu uma qualquer expectativa de que o maná lhe é devido.
    É uma fé como outra qualquer!
    Quanto ao PPereira, depois de 6 minutos de explicação do como ia e não ia falar do que uns chamam a 'realidade' mas que não é toda a realidade, mas sim duas para trás e uma para a frente, tudo isto sem querer ser instrumental nem ontológico, recolhi-me a um sentido voto de compaixão pela 3ª idade de Loulé, e desisti! 
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