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Arrastão: Os suspeitos do costume.

A mentira como modo de vida

Sérgio Lavos, 25.10.13

 

Sendo a mentira uma segunda pele para quem anda na política, a verdade é que, com este Governo, esse miserável defeito foi elevado à categoria de arte. Para quem tiver oportunidade, aconselho a ler o artigo hoje escrito por António Guerreiro para o Ipsilon, no qual ele distingue entre a normal mentira do político, comum a todos os que enveredam por tal ofício das trevas, e aquela que é a verdadeira natureza deste Governo, uma forma de estar na vida que inverte completamente os valores pelos quais se rege qualquer ser humano decente, uma mentira que vive da reapropriação da linguagem, recorrendo a uma novilíngua que pretende normalizar o discurso quotidiano e que acaba por ser assimilada pelos media que a propagam.

 

Com Passos Coelho, Maria Luís Albuquerque, Miguel Relvas ou Paulo Portas, ultrapassámos a ténue barreira que distingue a realidade da ficção. Respirar para eles será tão natural como mentir, e por isso muitas vezes são apanhados a mentir sobre as mentiras que disseram antes, pateticamente assumindo que quem assiste a tal espectáculo não está a entender o que vê. O mecanismo não só multiplica as mentiras ad nauseam como ofusca e confunde, resultado directo da mediatização da vida pública e da encenação a que essa mediatização obriga.

 

Como toda a gente já percebeu, se há matéria em que o desempenho do Governo ultrapassa largamente o mínimo expectável é na manipulação da opinião pública. E não é de agora. Passos Coelho conseguiu subir dentro do seu partido urdindo na sombra uma campanha contra Manuela Ferreira Leite (com a prestimosa ajuda de Miguel Relvas), plantando ao longo dos anos apoiantes por tudo quanto era espaço mediático. Jornais (os famosos dez jornalistas do DN que saíram para o executivo), televisões (os Catrogas e os Arnauts deste mundo) e blogosfera (31 da Armada, Blasfémias) foram alcatifando o caminho até ao pote poder, pacientemente apostando em duas vertentes: desgastar Sócrates, através da produção de boatos mentirosos, notícias falsas e ataques directos ao homem; e plantar na opinião pública a ideia de que Manuela Ferreira Leite, representante de uma social-democracia em vias de extinção, teria de ser substituída pelo homem novo, produto directo das jotas e redentor da nossa bela pátria.

 

Toda a estratégia assentava em dois pilares fundamentais, quando chegássemos a eleições: a ocultação das verdadeiras ideias para o país e a mentira pura, em directo para as televisões. Como os desmentidos têm sempre um efeito mais reduzido do que a mentira, não faria mal prometer coisas que não se poderiam cumprir, mentir absurdamente para ganhar votos, mentir prometendo acabar com a austeridade dos PEC's sabendo perfeitamente que, de acordo com o memorando assinado, a austeridade teria de ser muito pior do que a que tinha sido aplicada antes. Resultou. Com a mão no pote, Passos Coelho, com a ajuda de Portas - um veterano da dissimulação e do fingimento -, tratou de implementar um programa que não só não foi sufragado como, em muitos pontos, é o preciso oposto do que foi prometido. Pelo caminho, foram arregimentados mais uns quantos mentirosos, ministros que faltam à verdade no parlamento e ocultam passagens pelo BPN no currículo, governantes sem valores nem honra.

 

Outro ponto alto desta saga foi o processo dos "swaps". Para proteger uma ministra das Finanças atolada até ao pescoço na questão, foram demitidos vários secretários de Estado e manipuladas avaliações feitas pelo IGCP, de modo a que os contratos "swap" feitos pela ministra quando era administradora da Refer permanecessem acima de qualquer suspeita. A própria ministra, de cada vez que vai ao parlamente prestar contas sobre o processo, mente e contradiz-se, sem qualquer pudor e com uma frieza assinalável. Pelo meio, desmentidos formais da mentira e indignações várias - outra das características da mentira patológica é a negação e a acusação ofendida feita a quem revela essa mentira. Os mentirosos são sempre pessoas sérias. Se alguém quisesse ser mais sério do que um dos nossos mentirosos, "teria de nascer duas vezes".

 

Passos Coelho nunca foi confrontado em público com as promessas incumpridas. No entanto, o regresso de Sócrates à ribalta trouxe o primeiro choque com um passado de falsidades e jogos duplos. O antigo primeiro-ministro, numa das entrevistas dadas na última semana, revelou ter convidado "duas ou três vezes" o actual primeiro-ministro para o seu Governo. Passos Coelho, quando questionado sobre isso, negou, refugiando-se num formalismo que não é mais do que uma fuga à pergunta. O seu antigo padrinho em várias empresas, Ângelo Correia, já veio confirmar a sondagem feita e a reunião mantida entre Passos Coelho e Sócrates para, presume-se, o convite ser formalizado. Poder-se-á pensar que esta é uma questão menor. Na realidade, não é. Porque prova que este Governo já está tão além de qualquer pudor que Passos Coelho pode mentir abertamente na televisão, imaginando talvez que as pessoas já não querem saber disso (embora na realidade ele tenha atingido este nível de inimputabilidade porque sabe que Cavaco nunca o irá demitir). Esta mentira, embora sendo menos grave quando comparada com aquelas que o levaram ao pote poder, demonstra até que ponto fomos transportados para outro nível. Não sabemos já o que pensar, e achamos aceitável o que na realidade é, para a maioria, inaceitável. Suspendemos o nosso julgamento moral - ou pelo menos sentimos uma impotência perante a impunidade de quem mente. Como num regime totalitário, a verdade passa a ter outro valor e a mentira deixa de o ser se for o poder político a praticá-la. Quando este período finalmente terminar, poderemos meditar nas razões pelas quais deixámos as coisas chegar a este ponto. Tudo é, de facto, possível.

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