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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Apenas o princípio

Sérgio Lavos, 29.05.10


Hoje é dia de manifestação nacional contra o PEC, contra o actual estado de coisas, contra a crise perpétua que aflige os de sempre, os mais desprotegidos. Podemos repetir isto quantas vezes quisermos, nunca será demais. Porque, ao contrário do que afirmam os coveiros da desgraça nacional, a culpa não é nossa; sobretudo, não é de quem tinha um rendimento baixo e deixou de o ter porque perdeu o emprego ou poder de compra. A culpa não é nossa, mas é também de quem diariamente tenta convencer a opinião pública de que o país chegou a este ponto porque gastou aquilo que não tinha.

A crónica de Vasco Pulido Valente, ontem no Público, é mais do mesmo; desculpa a imoralidade do despesismo do Estado com mordomias que apenas favorecem uma elite, culpando quem entrou na onda de sobreconsumo que o país abraçou a partir do momento em que começaram a entrar os fundos estruturais no país. O problema é que a "normalização da economia", atribuída a cavaco por VPV, foi conseguida graças aos fundos estruturais na sequência da entrada na CEE, e apostando nas áreas da economia que nos levariam inevitavelmente à cauda da Europa: as obras públicas e os sectores entretanto tornados obsoletos em consequência de políticas irmanadas da comunidade. Simultaneamente, o incentivo ao crédito privado e ao endividamento das famílias tornou-se marca de um país a avançar no sentido errado. Não se pode ser ingénuo ao ponto de achar que os portugueses fizeram mal em acreditar nas promessas de riqueza a curto prazo; o país dependia da confiança ilimitada nas virtudes do capitalismo, que incluem, obrigatoriamente, a crença num sistema financeiro que, como viemos a descobrir, inundou o mercado durante anos de dinheiro virtual e, pior, tóxico. Não, os portugueses que compraram casa a crédito, mudaram de carro todos os anos e investiram as suas economia em produtos de risco vendidos por bancos como o BPN ou o BPP, não são os culpados da crise que vivemos; eles limitaram-se a acreditar na felicidade imediata, a ilusão de que o sistema capitalista depende para continuar a funcionar.

Para além destes, dos portugueses que Pulido Valente culpa, há aqueles que nunca acederam a estes simulacros de bem-estar e que, já se sabe, agora ainda vivem pior do que antes. Quem nunca conseguiu comprar uma casa a crédito mas ainda mantinha o seu emprego recebendo o ordenado mínimo e agora está no desemprego; quem andou a estudar, incentivado pelo desenvolvimento futuro, e agora está há anos a passar falsos recibos verdes; quem está a entrar no mercado de trabalho e encontra as entradas na Função Pública vedadas e vê os privados a aproveitarem-se da crise e a oferecerem ordenados muito abaixo do razoável e contratos a termo certo que nunca serão renovados; quem apenas consegue arranjar emprego através desse veneno do liberalismo económico que são as empresas de trabalho temporário, que não se importam de colocar precários com contratos mensais consecutivos em lugares que antes eram ocupados por gente entretanto despedida. Vasco Pulido Valente está à vontade para assumir a sua quota-parte da culpa na crise nacional, mas eu, e seguramente grande parte dos setecentos mil desempregados portugueses (registados) não posso aceitar que o bico do prego aponte sempre para os mesmos. A manifestação de hoje tem de ser apenas o princípio.

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