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Arrastão: Os suspeitos do costume.

E tu, que trabalhas para o Balsemão, quantos empregos já criaste?

Daniel Oliveira, 13.12.13

Quando já não há mais argumentos, sobretudo quando critico algum empresário, recebo, muitas vezes, a mesma magna pergunta: mas quantos empregos criou o senhor? A pergunta vem geralmente de assalariados ou prestadores de serviços como eu que, aparentemente, se veem a si mesmos numa posição subalterna e devedores dum qualquer favor a quem os emprega. Lamento a minha soberba: se achasse que devia o meu trabalho a alguém teria de me considerar um inútil. Mas a questão também já me foi posta por grandes e pequenos empresários, que estão mesmo convencidos que devem ser vistos como beneméritos. Para quem se dedica ao negócio, dizer que se contratam trabalhadores por serviço à comunidade talvez não seja a melhor credencial.

 

Vou finalmente responder: porque quem cria empregos é a economia, criei tantos postos de trabalho como qualquer trabalhador, consumidor ou empresário. A começar pelo meu. Tentarei ser ainda mais claro e recorrer, por facilidade, ao meu exemplo, aqui neste jornal. Eu escrevo no "Expresso" e em mais alguns lugares, como saberão. Vamos partir do princípio que tenho leitores (e que é por isso, e não por qualquer simpatia ou vontade de criar um emprego, que escrevo para o "Expresso" há quase 10 anos). Que há quem venha aqui e quem compre o "Expresso" para, entre outras coisas, me ler. Incluindo alguns que me detestam. Para o negócio vai dar ao mesmo. Só com leitores e coisas que eles queiram ler esta página tem publicidade. Só com leitores e coisas que eles queiram ler o jornal vende nas bancas e tem publicidade. Quando vende e angaria publicidade a empresa detentora do "Expresso" consegue não apenas o suficiente para me pagar a mim, a todos os trabalhadores, colaboradores externos e fornecedores, como ainda sobrará, como sobra, dinheiro para se expandir o negócio e, quem sabe, contratar ainda mais pessoas. O que estou a dizer sobre mim aplica-se obviamente e de igual forma a todas as pessoas que trabalham nesta empresa, sejam do seu quadro, sejam colaboradores externos, sejam jornalistas, administrativos, estafetas ou quadros superiores. E o que estou a dizer sobre o "Expresso" aplica-se a todas as empresas que vendem produtos ou serviços.

 

Quem cria então emprego aqui e em qualquer outra empresa? Antes de mais, quem consome os seus produtos. Neste caso, o meu caro leitor. Depois, quem os produz. Por fim, quem, olhando para a necessidade dos consumidores e a disponibilidade para produzir, contrata as pessoas que precisa e arranja o capital necessário para montar o negócio. Correndo o risco de perder o capital empatado, tem a possibilidade de ter uma vida bem mais confortável do que aqueles que, com ele, levaram o negócio a prosperar. Essa é a diferença substancial em relação aos demais atores deste filme: o empresário ou investidor corre o risco e tem o lucro ou o prejuízo. Tem um interesse comum a quem com ele trabalha: que o negócio corra bem. E, quanto toca a dividir o dinheiro disponível ou os sacrifícios, os interesses são contraditórios. Não tem muita ciência.

 

Resumindo: eu, como qualquer pessoa que produz e consome bens materiais ou imateriais, crio empregos. Nem mais nem menos do que qualquer empresário. Um empresário que cria empregos onde não há nem quem consuma o que pode ser produzido, nem quem produza o que pode ser consumido, rapidamente os descria. Falindo. Isto é tão básico, até para o mais empedernido dos liberais, que nem sequer deveria ser explicado. Só que o atual fascínio por empresários, vistos como oráculos da Nação e santos criadores de empregos, obriga-nos a voltar ao princípio.

 

Mas, sejamos justos, esta confusão não vem apenas de pessoas supostamente de direita (para facilitar). Também algumas pessoas supostamente de esquerda (também para facilitar) me acusam de "trabalhar para o Balsemão", pessoa por quem, apesar de todo respeito pessoal que me merece, está-me politicamente muito distante. Na realidade, cometem exatamente o mesmo erro dos primeiros. Da mesma forma que não foi o fundador da Impresa que criou o meu emprego, mas, antes de tudo, os leitores, eu não trabalho para os acionistas da Impresa, trabalho para quem me lê. Eu escrevo textos para quem me paga. E quem me paga, duma forma ou de outra, são os leitores. Ou seja, eu trabalho para quem consome o que eu produzo. E isto vale para a Impresa, para a Mota-Engil, para a Microsoft, para a Jerónimo Martins ou para a oficina da minha rua. No dia em que eu escrever para o dono da empresa, no dia em que eu trabalhar para ele, serei inútil como colunista e como trabalhador. E, sendo inútil como colunista e como trabalhador, passarei a ser inútil para o negócio da empresa. Aí sim, podem dizer que o meu "emprego" foi criado por quem me contratou. Porque, fora esse, ninguém quererá o que eu produzo.

 

Publicado no Expresso Online

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