Quinta-feira, 19 de Dezembro de 2013
por Sérgio Lavos

Um artigo de Valter Lemos, antigo secretário de Estado da Educação, sobre a derrota do anti-eduquês e a desonestidade intelectual do rigoroso Crato:

 

"O ministro Crato pertence a um grupo de pessoas que passou diversos anos a perorar contra o que chamaram de “eduquês”, afirmando que os alunos aprendiam cada vez menos nas escolas e que, quer as políticas de educação, quer os programas de ensino, quer os métodos pedagógicos, quer as práticas dos professores, estavam erradas e eram “facilitistas”.

 

Os expoentes deste pensamento até escreveram livros sobre o assunto. Curiosamente nunca apresentaram qualquer estudo ou dados que sustentassem o que diziam, ou seja, apesar de defenderem uma educação com “maior rigor” (o que quer que isso seja) não mostraram muito rigor na defesa da sua tese. Limitaram-se a explorar os sentimentos de incerteza da classe média face à democratização do acesso à escola e a fazer acusações indiscriminadas a políticos, professores, psicólogos, sociólogos, etc., assentes, somente, em meros preconceitos sem qualquer sustentação minimamente séria.

 

O simplismo da abordagem e a sua filiação conservadora e neoliberal não deixou de conquistar alguns políticos, de tal forma que o grupo conseguiu chegar onde queria: ter um ministro da Educação.

 

A partir daí foram só más notícias. Em vez da propalada destruição do ministério da educação, começou a constatar-se a destruição da educação ela-mesma, numa política de terra queimada, onde, à semelhança das conquistas medievais, se destroem as estruturas, se violam as pessoas e se queimam os livros. Foi rompido o acordo social sobre a escola pública em Portugal, que começou a construir-se com a reforma Veiga Simão e atravessou praticamente todos os governos constitucionais, sem grandes distinções, quer liderados pelo PSD, quer pelo PS. E o desprezo pelos professores, que aquela abordagem sempre conteve, lá acabou finalmente por vir à tona.

 

A divulgação recente dos resultados do PISA 2012 veio mostrar, com dados seguros, não só o primarismo daquela abordagem, como a sua falsidade. Afinal enquanto o “anti-eduquês” vociferava que os alunos estavam a aprender menos, eles aprendiam mais. De 2000 a 2012 os resultados dos alunos portugueses no PISA melhoraram em todas as matérias testadas! Face a tais dados veio o ministro, ou algum dos seus correligionários, explicar porque é que os dados mostravam o contrário do que os próprios haviam dito durante vários anos? Vieram dar uma explicação aos que neles haviam acreditado?

 

Não. Afinal venderam um produto avariado e esconderam-se quando isso começou a notar-se.

 

Quando se baseia uma política na crença e não no conhecimento, mais tarde ou mais cedo a realidade mostra os preconceitos subjacentes. Como se prova, uma vez mais. com a declaração do ministro Crato sobre as “dúvidas dos professores formados nas escolas superiores de educação”. Esperar-se-ia que uma afirmação destas, que ataca gravemente a imagem e o estatuto público desses largos milhares de professores, as escolas que os formaram, os seus professores e os seus responsáveis, fosse fundamentada em dados que permitissem sustentá-la. Mas tal não aconteceu. Aparentemente o Ministro da Educação ter-se-á pronunciado levianamente, assente somente nos seus preconceitos. Se assim foi, mostrou, mais uma vez, que as suas decisões são meramente voluntaristas e portanto não devem merecer a confiança dos cidadãos. Mas, mostrou também uma enorme irresponsabilidade.

 

Um governante não pode fazer acusações de tal gravidade e consequência sem dados absolutamente seguros e objetivos, como se fosse um mero comentador. Porque arrisca-se a que os visados o considerem ignorante ou charlatão e percam qualquer respeito pela personagem e pelas suas afirmações e decisões.

 

Espera-se, assim, que o ministro Crato apresente rapidamente os estudos que sustentam a sua afirmação, pois, numa democracia, os governantes devem merecer respeito.

 

E, já agora, que extinga a Agência Nacional de Acreditação do Ensino Superior, porque os seus preconceitos serão critério suficiente para avaliar os cursos."


por Sérgio Lavos
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9 comentários:
maria
O sr. Valter Lemos devia ter vergonha ao falar dos milhares de professores.Os professores não esquecem a humilhação a que foram sujeitos durante a sua passagem pelo MEC.

deixado a 19/12/13 às 20:59
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what?
realmente deviam ter cuidado em quem escolhem reproduzir... palavras não apagam acções...

deixado a 20/12/13 às 02:34
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JgMenos
Agência Nacional de Acreditação do Ensino Superior: seguramente mais um monte de papéis e de burocratas agarrados a papéis, todos muito colegas e nuito dados a consensos, boas intenções e postas orçamentais!

Exigência e provas dadas é tudo o que não se usa neste desgraçado país há décadas!


 

deixado a 20/12/13 às 01:16
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Anónimo
Rapazito, nao  sei quem és, nem quero saber. Mas a quantidade e o conteúdo dos teus comentários faz com que palavras como "exigência" e  "rigor" tenham em ti o mesmo valor que têm palavras como "moralidade" e "valores" quando proferidos por certos opus dei que, à socapa, lá vao às meninas...ou aos meninos.


JgMenos
O teu tom condescendente e o vulgar exemplo moralista deixa-me ciente da tua mediocridade, que espero se mantenha distante.


Anónimo
sou mediocre, sim. nao ganho a vida a comentar blogs.

deixado a 20/12/13 às 22:25
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Sérgio
Caramba homem. Não deve ser fácil ter de fazer essa figura pelas caixas de comentários. Se lhe pagam é de certeza pouco. :D


JgMenos
Não tem de ser, pois é puro voluntariado.
E se incomodar os Sérgios deste mundo, dou-me por bem pagp.


Sérgio
O meu amigo não incomoda nada, apenas diverte. Mas ainda bem que admite que é um troll. Enquanto for um troll divertido eu dou-lhe conversa.

"Exigência e provas dadas é tudo o que não se usa neste desgraçado país há décadas!"

Pois, pena que não peça isto também ao seu ministro. O Crato podia começar por dar alguma prova das atoardas que dispara.

deixado a 20/12/13 às 17:46
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