Quinta-feira, 2 de Janeiro de 2014
por Miguel Cardina
A curva do ano é o local onde se encontram analistas e profetas. Os primeiros observam episódios e esmiúçam o sentido do ocorrido. Os segundos perscrutam o horizonte em busca dos sinais do tempo que virá. Uns e outros encarregam-se nestes dias - nas televisões e nos jornais, nos blogues e no facebook - de desenhar sínteses sobre o ano que passou e o ano que virá.

Em 2013 o governo tremeu mas não caiu. Foi ano de manifestações importantes, da saída de Relvas e Gaspar, da invenção de um novo sentido para a palavra “irrevogável”. Aprofundou-se a política de austeridade, empresas públicas rentáveis entraram em processo de privatização, atacou-se o Estado Social. Apercebemo-nos também que, neste momento, ocorre um fluxo emigratório só comparável ao que aconteceu na década de 1960, num contexto em que existia fome, ditadura e guerra colonial.

Em 2014 teremos eleições – europeias, certamente; legislativas, provavelmente. O resgate sofrerá uma mutação mas, com o predomínio dos mesmos, teremos as mesmas políticas. E o ano será também marcado pelas comemorações dos 40 anos do 25 de Abril. Não é preciso ser um visionário encartado para prever que as forças políticas e sociais vão disputar bastante – como nunca se disputou – esse momento simbólico.

Basta lembrar-nos do que aconteceu em 2004 - com o famoso “Abril é evolução” - para percebermos como o governo e as forças que o suportam não terão pejo de reler o momento à luz das suas necessidades políticas. Mesmo que distante do espírito de Abril, a direita portuguesa irá encontrar formas de o comemorar, retirando-lhe toda a carga conflitual e emancipatória e inventando um palavreado oco sobre o “país”, a “mudança”, a “democracia” e o “Abril que é de todos”.

Será preciso recordar-lhes que o país mudou apesar da direita. E que as conquistas democráticas alcançadas – não só de natureza política, mas também social e económica – foram feitas contra o poder ancestral dos interesses que esta direita hoje representa. Na verdade, as políticas de austeridade em curso – privatizações, destruição das funções sociais do Estado, empobrecimento – são uma espécie de programa histórico da direita portuguesa, aplicado sob assistência. O entendimento do Tribunal Constitucional como uma “força de bloqueio” mostra bem como este programa histórico tem aspetos de revanche objetiva contra o processo de construção democrática do país.

Sabe-se que a memória de Abril é plural: condensa a queda da ditadura e a conquista da liberdade; o fim da guerra colonial e a independência das ex-colónias; disputas agudas pelo poder e o surgimento de lutas sociais que alargaram a “dimensão do possível” e envolveram segmentos da população que até então tinham permanecido silenciados. Quarenta anos depois, devemos lançar um olhar analítico sobre esse passado e os seus lastros. Também por isso, fazê-lo implica recusar os discursos que, por rotina mole ou interesse cínico, pretenderão liofilizar Abril.

por Miguel Cardina
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13 comentários:
Ricardo
Eu gostava de saber como é que, na sua visão infantil da realidade, se explica que os maus (direita) tenham esmagado eleitoralmente os bons (esquerdalhada) e com isso ganhado a legitimidade democrática para realizar as políticas em curso.


É que a legitimidade democrática de realizar políticas que não são compatíveis com as utopias infantis da esquerda também são uma conquista de Abril. 

deixado a 3/1/14 às 07:54
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Cravo
Muito Bem

deixado a 3/1/14 às 11:03
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JgMenos
Abril não é dos abrilescos.
Aquele lírico General Spinola foi a África fazer a guerra e sonhar um Portugal que nada tinha a ver com a comunada que de apropriou de Abril e acabou por ser salva pelo 25Nov75.
São 40 anos a sacudir a canga de doutrinas de esquerdalhos, que mais que tudo são um hino à idiotice e ao irrealismo.
Há que libertar Abril! Sempre!

deixado a 3/1/14 às 13:50
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Rui
Há uma pobreza enorme de cultura e depois são disparates a torto e a direito. Infelizmente ler estes comentários é de perguntar: onde vivem estes comentadores que não se aperceberam do que se tem passado neste país?


JgMenos
És seguramente culto de cultivares o 'politicamente correcto' que consiste em filtrar a realidade pelo gargalo de uma ideologia de líricos idiotas, para quem o mundo vai do Minho ao Algarve e o dinheiro cai da Europa ao ritmo do que é justo e necessário!

deixado a 6/1/14 às 17:57
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:P
" Evolução na continuidade " - era bastante jovem na altura mas, se bem me lembro, era este o mantra de Marcelo Caetano. Estes últimos 40 anos foram apenas um (infeliz) hiato para o Portugal eterno - o das "famílias de bem" que agora vêm reposta a ordem natural das coisas. A propósito, ainda existem os chás dançantes do Colégio Militar e da CVP?

deixado a 3/1/14 às 15:53
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Não.
Mas uma corporação de bombeiros do Porto ressuscitou um baile desse tipo com grande destaque numa televisão perto de si e grande apoio popular.
E quanto à CVP foi substituída pela AMI onde um senhor toma conta daquilo com a ajuda de toda a família.
Como vê, e nem quero falar no clã Soares, há famílias para todos os gostos.
Até o Jerónimo de Sousa se afirma como o filho eleito daquele cujo nome só pode ser dito com extrema reverência.
E claro, fado, futebol e Fátima, estão aí com toda a força.
O 25 de Abril foi bom, mas esqueceram-se de mudar o povo.
Azar.

deixado a 3/1/14 às 20:57
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O país neste momento está a viver com um governo de direita, uma maioria de direita e um Presidente de direita.
É bom.
Só seria mau se o senhor Miguel Cardina me ensinasse um país que tendo vivido sob a direita melhorou ao ser governado pela esquerda.
Espero que este comentário apareça antes do Natal, mesmo que seja o do Maduro.

deixado a 3/1/14 às 18:21
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Anónimo
que engraçado. ja o li a afirmar que nem o governo nem o presidente sao de direita e que se sentiu defraudado. em que ficamos?


Pois claro que não são.
São do centro, mas como aqui pela terrinha só se sabe dizer ou direita ou esquerda, ou antifascistas ou fascistas teve que sair assim.
Podia era ter aproveitado, uma vez que o senhor Miguel Cardina ainda está a estudar o assunto, tirar-me aquela dúvida.


Anónimo
pois, e irrevogavel, afinal é revogavel, e tal. Belos zigues e melhores zagues.

deixado a 3/1/14 às 23:39
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Rui
Do centro? Sejamos razoáveis. Estes senhores não sabem governar, nem nunca souberam por isso o país chegou à triste realidade em que se encontra. Tem medo da esquerda? Os chineses são comunistas e todos fazem negócios com eles, sem qualquer problema. Aliás as lojas chineses"comunistas" proliferam como cogumelos.

deixado a 6/1/14 às 20:08
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VASCO
Quarenta anos passados após o 25 de Abril: três intervenções do FMI e uma pré bancarota, mais de um milhão de dempregados, dois milhões de pobres, uma classe média destruida, ausencia de valores, desconhecimento cultural e histórico, uma justiça incompetente, roubos, homicídios, gangs à solta, degradação urbana, descrença social, uma classe política na sua totalidade incapaz e ignorante, um país profundamente decadente e sem soberania quase à beira da sua inexistência, uma economia de rastos e falida! E ainda esta gente vem fazer comparações!
Quarenta anos esteve o SALAZAR no poder! Quarenta anos tem já esta democraciaImage (#), curiosamente. 
Recomendo a leitura deste texto: http://novoadamastor.blogspot.pt/2013/12/deitamo-nos-na-linha-do-comboio-ou-como.html (http://novoadamastor.blogspot.pt/2013/12/deitamo-nos-na-linha-do-comboio-ou-como.html)

deixado a 5/1/14 às 04:02
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