Sexta-feira, 3 de Janeiro de 2014
por Sérgio Lavos

 

Aproveitando o trabalho do David Crisóstomo e a sua exaustiva lista dos termos de novilíngua que este Governo tem utilizado, deste modo enriquecendo, se não o léxico, pelo menos a semântica da língua portuguesa, elaboro um pouco sobre o que poderá estar por detrás deste esforço linguístico do executivo.

 

Segundo George Orwell, novilíngua é uma forma de controlo social, através do qual o Estado se apropria de palavras correntes, atribuindo-lhes um sentido diferente, sempre difuso, muitas vezes o oposto do sentido original. A ideia é simples: quem controla a linguagem, controla a comunicação, e quem controla a comunicação, controla a informação, o que o público sabe, o que as pessoas conhecem do Estado. A linguagem é um meio de perpetuar o poder, e a novilíngua o instrumento que permite a manutenção de um discurso público que legitima a sua existência.

 

Começa exactamente aqui, na ideia de Governo. Analisando o discurso recente do Presidente da República, encontramos talvez o principal elemento legitimador deste Governo: a emergência nacional. Como disse o Presidente, o esforço de consenso não deverá ser "partidário, mas sim nacional". A ideia do pensamento único em todo o seu esplendor. Eliminado a possibilidade de diferença, de oposição, sob a ameaça do anti-patriotismo, apenas um caminho será possível, o caminho do poder, o caminho do Governo. A subtil distorção dos termos em uso - "consenso" em vez de negociação, "emergência nacional" quando esta figura jurídica não se aplica de todo à actual situação, "salvação nacional", conceito que coloca de fora todos os que não concordam com este pensamento único -, cria um novo campo semântico, que por sua vez irá ser propagado pelos meios de comunicação até à exaustão, até que o discurso público esqueça o sentido original das palavras, repetindo acriticamente o novo significado, inventado pelo poder que o difunde. Ao contrário do que acontece em ditadura, interessa ao poder que esta informação repleta de termos deturpados, expurgados do seu primeiro sentido, seja apreendida pelo público e se generalize, e que o novo significado se torne funcional, pleno, viral.

 

A substituição de palavras fortes por outras de sentido oposto, mas de tom mais suave, torna também aceitável o que poderá ser, em princípio, inaceitável. Exemplos: "desemprego" é substituído por "requalificação" (dos funcionários públicos); "despedimento" por "reestruturação" (do privado); "programa de resgate" por "programa cautelar". Este último exemplo é, aliás, sintomático de uma gradação variável, ao sabor das circunstâncias. Quando o Governo ascendeu ao poder, convinha que um pânico se instalasse entre a população, que uma sensação de desastre iminente fosse rapidamente assimilada, de maneira a que a política de choque que se seguiu fosse mais facilmente aceite. A palavra "resgate" serviu o propósito na perfeição. A entrada da troika em Portugal foi vista como uma narrativa épica, e as entidades que a compõem era consideradas como salvadoras de um país à beira do abismo. Os apoiantes do Governo não se cansaram de repetir esta ideia: Portugal esteve a um passo de deixar de existir, e apenas a presença da troika, possibilitada pela salvífica manobra de Passos Coelho que apeou do poder o anterior Governo, evitou a catástrofe. Mas, ao longo destes três anos, o que antes era visto como tendo uma conotação positiva passou subtilmente a ter um significado cada vez mais próximo do oposto do significado inicial. Os propagandistas ao serviço do poder difundem agora a ideia de que a presença da troika é nefasta e que a salvação do país está na expulsão destes elementos que, recorde-se, há três anos nos "salvaram". A haver novo programa, nunca poderia ser de resgate, dado que isso significaria que o Governo teria falhado na sua missão de salvação do país. O campo semântico da palavra "cautelar" serve na perfeição o objectivo do poder: "cautela" indica ponderação, serenidade, certeza. Passámos do choque e do caos a um mar de calmaria no qual navegamos conduzidos por um Governo que sabe o está a fazer. Mesmo que na prática o país esteja muito pior do que antes do resgate e que a austeridade não vá terminar - 2014 é o ano em que os cortes serão mais acentuados.

 

Para além destes exemplos de manipulação deliberada do discurso - contando sempre com a colaboração activa dos meios de comunicação, na difusão e na selecção dos termos a serem usados - temos também vindo a assitir a uma progressiva introdução de estrangeirismos, quase sempre resgatados ao jargão do marketing e da gestão, um fenómeno provinciano que transforma génios em idiotas, como é o caso do ministro Poiares Maduro, senhor de um currículo académico invejável que, mal se viu alçado ao poder, se tornou num mero espantalho de uma língua de pau decididamente miserável. São exemplo disto o "empreendedorismo", o "briefing", o "modelar" (tantas vezes pronunciado como "modular"), o "recalibrar"- que já tinha sido usado em tempos por Passos Coelho e agora foi retomado por Marques Guedes, usado com um sentido ligeiramente diferente, não só do original, mas também da primeira deturpação, ensaiada pelo primeiro-ministro -, passando a significar "aumentar o número de pessoas abrangido por um corte" -, o "reestruturar". O uso de estrangeirismos é não só resultado da caldo cultural em que as novas gerações de políticos foram criadas mas é também deliberado, "pour épater les bourgeois", impressionar a opinião pública.

 

A mais banal degradação da língua ocorre por fim quando as palavras perdem todo a força do seu sentido original. Quando Paulo Portas se demitiu, em Junho, usou os termos "irrevogável" para classificar a sua decisão e "dissimulado" como o que ele seria caso voltasse atrás nela. E depois, assistimos a uma inacreditável farsa. Saímos do território da baixa política, no qual vale pouco ou nada a palavra de um político, para uma inimaginável distorção de todos os valores pelos quais se rege uma sociedade. O "irrevogável" passou a ser facilmente revogável e o regresso ao Governo, que tinha sido classificado pelo próprio autor da brincadeira como uma "dissimulação", tornou-se inevitável. De certa maneira, Paulo Portas abriu caminho, assumindo que a palavra de um político, mesmo quando escrita, não tem qualquer valor. A honra e a dignidade também não importam nada. Paulo Portas assumiu-se como símbolo máximo da actual política, apresentando-se abertamente como o dissimulado colado ao poder, o irrevogável que deixou de o ser quando viu o lugar no partido a que pertence ameaçado. Como Berlusconi em Itália, Portas (e Passos Coelho) passou a personificar toda a sujidade da política, a sua face mais podre, destituída dos mais básicos valores humanos.

 

Trabalhar a linguagem, transformá-la, usá-la como instrumento de poder, sempre foi marca de qualquer poder. Este Governo, sustentado por uma máquina de comunicação composta por centenas de assessores e apoiado por agências de comunicação especialistas em manipulação da opinião pública, tem sido perito neste campo, talvez aquele em que a sua competência menos pode ser beliscada. Parecem imparáveis, porque perderam toda a vergonha e limitam-se a continuar, a manter-se no poder, é essa a sua única preocupação - com o objectivo de implementação de um programa ideológico de empobrecimento e de aprofundamento das desigualdades sociais. A linguagem pavimenta o caminho para as próximas eleições, e tudo será dito, e o seu contrário, para a reconquista do poder e a manutenção do status quo. Servir o povo, o ideal da democracia, é apenas um pormenor da História. Uma chatice.

 


por Sérgio Lavos
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JgMenos
Eis um tema interessante e que tem muitas leituras.
O 'nacional' é excluído pela esquerda para adoptar o 'patriótico' que há-de querer dizer o que bem lhes convenha.
A 'emergência' passa a 'pacto de agressão' para dizer que outros terão de pagar a desbunda assistencialista.
A 'igualdade' abandona o critério de o ser perante a lei para ser uma amálgama que aparenta tornar igual o que é irremediavelmente diferente, semeando a luxúria entre invejosos e frustrados.
A 'liberdade'´esquece o indivíduo para se converter em adesão a um qualquer 'caminho de liberdade' que outros definirão.
E por aí fora...
Uma palavra a favor de 'reestruturar', 'requalificar', 'recalibrar' e afins; MUDAR é a palavra implícita, e por isso exalta os ânimos aos reaccionários avessos a encararem a merda em que nos meteram!

deixado a 4/1/14 às 15:25
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Nightwish
É pena os juízes terem que saber alguma coisa de direito nacional e teoria do direito, senão os JgMenos deste país podiam decidir acabar de uma vez com os salários em troca de umas sopinhas quando os trabalhadores forem bem comportados.

deixado a 5/1/14 às 02:19
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JgMenos
Como qualquer reaccionário abrilesco, à menor contrariedade gritas «aqu'd'el Estado que sou um coitadinho a quem querem tirar 'direitos'».

Acoitaram tudo que era correligionário e alimentaram as estatísticas em cima de emprego e acção pública sustentada em dívida, e agora declaram-se vítimas?
Vai carpir para outro lado...

deixado a 5/1/14 às 18:12
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what?
essa história da carochinha defende os pretensos direitos dos bancos que lucraram a nível record a fomentar essa divida. Agora pagamos todos a solvência dessas entidades privadas que não podem ir à falência... sugeria também que se quiseres ser verdadeiramente ofensivo poderias variar um bocado o vocabulário. Abrilesco é tão ofensivo aqui como chamar-te facho...

deixado a 5/1/14 às 21:10
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JgMenos
Se os bancos - accionistas, banqueiros e bancários - comeram à tripa forra foi porque os políticos abrilescos lhe deram de comer:
- Financiamentos ao estado e às empresas públicas
- Financiamento à habitação porque não tinham tomates para mexer na lei das rendas e por isso não havia casas para alugar.
- Financiamento ao consumo, porque cada ano havia mais para distribuir...

E todo o tropel abrilesco aplaudia a 'prosperidade e progresso social'!!!!

Vão agora de acusar os bancos....que por seu lado tanto premiaram os gestores, tantos políticos empregaram e financiaram, que agora estão falidos!

E sabes porque é que os credores impõem o financiamento dos bancos?
Porque mais confiam neles do que nos políticos sujeitos ao vozeirio abrilesco para quem tudo foi obra de demónios capitalistas e que só por isso é que o regabofe não pode continuar.

deixado a 6/1/14 às 00:25
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what?
pensava que os bancos eram os credores... deve ser uma realidade alternativa...

deixado a 6/1/14 às 16:26
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JgMenos
Se não sabes que o papel dos bancos é pedirem emprestado (endividarem-se) para emprestar (ficarem credores) lucrando no processo, sabes pouco.
Mas como tens dois calhaus nos olhos, se te falam em bancos logo imaginas um capitalista a acender charutos com notas!

deixado a 6/1/14 às 18:14
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Nightwish
Até cubanos acendem, mas dizem mal do país e apoiam boicotes.
Não há economia moderna sem crédito. Ponto final, parágrafo. Quem não entende isto é quem faz que a estagnação e os seus efeitos sejam muito piores do que na grande deperssão.

deixado a 7/1/14 às 00:12
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