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Arrastão: Os suspeitos do costume.

O modelo social chinês

Daniel Oliveira, 22.01.05
PODE Portugal sobreviver numa economia globalizada e bater-se, em simultâneo, por um modelo social próximo do que foi construído na Europa do pós-guerra? O consenso da inevitabilidade do sacrifício diz-nos que não. Que estamos condenados a viver mal em prol de amanhãs que cantam. Que o modelo social europeu é incompatível com a globalização dos mercados. Eu digo o contrário: só com menos sacrifícios temos futuro.

Como as coisas estão, com a falta de qualificação dos nossos trabalhadores e empresários, o nosso campeonato será o da mão-de-obra barata da China, da Tailândia ou da Formosa. E mesmo assim perdemos.

O dilema é este: ou estamos dispostos a viver com sete contos por mês e as empresas de trabalho intensivo não fogem, ou disputamos um mercado de trabalho mais exigente. Conseguir as duas coisas é procurar a quadratura do círculo. Não se tem os melhores quadros, os melhores técnicos e a melhor investigação a trabalhar 48 horas por semana, a ganhar 150 contos por mês e a gastar trocos com as universidades. A redução de custos na mão-de-obra só nos pode empurrar para o Terceiro Mundo.

Que, em Portugal, a generalidade dos empresários e dos gestores, habituados a fugir ao fisco e a pagar miseravelmente aos seus funcionários, a viver de expedientes, dos apoios do Estado e de fundos europeus, se recusem a vê-lo, não me espanta. A maioria dos empresários portugueses é parte do problema e não da solução. Muitos dos que opinam sobre o futuro da economia nacional, num país realmente competitivo, não passariam da porta das empresas que hoje dirigem. Estão chocados com o que escrevo? Não é nem metade do que tem sido dito, até à náusea, sobre os trabalhadores portugueses.