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Arrastão: Os suspeitos do costume.

O Papa do poder

Daniel Oliveira, 09.04.05
A MORTE de Karol Wojtyla transformou, de súbito, um Papa controverso numa figura inatacável. E, no entanto, este pontificado significou, em muitos aspectos, o maior retrocesso da Igreja desde a esperança do Concílio Vaticano II.

Há coisas que não são novas: a exclusão das mulheres do sacerdócio, o desprezo pelos homossexuais, a recusa da pluralidade de organizações familiares, a repulsa pelo prazer sexual. Enfim, o medo da liberdade. Ele é a condição para a manutenção do poder da Igreja Católica sobre a organização das nossas sociedades e, mais importante, das nossas cabeças.

O principal objectivo do pontificado de João Paulo II foi, em grande parte, conseguido: reforçar o papel político da Igreja. Passando à ofensiva contra a laicidade em Estados maioritariamente católicos. Tentando recuperar para o Vaticano o papel de árbitro na paz e na guerra. Legitimando moralmente o seu poder, através de um discurso social antiliberal e contra a modernidade - mais do que contra o capitalismo -, ao mesmo tempo que, dentro da Igreja, dava força a movimentos próximos do poder económico. Ajudando o clero que, em países comunistas, lutavam contra a ditadura, mas perseguindo os que, na América Latina, se associavam a movimentos sociais e políticos contra regimes opressores.

É verdade que pôs em causa o passado da Igreja, mas não deixou que outros, na Igreja, pusessem em causa o seu presente. Calou-os. Foi um dos maiores defensores do diálogo com outras Igrejas e um dos maiores opositores ao diálogo dentro da Igreja.

Foi o Papa das multidões e da televisão. Foi o mais eficaz dos papas. Mas nem ele pôde travar o definhamento da Igreja nos países mais desenvolvidos. Nos países onde, não havendo escassez, a liberdade individual é condição de felicidade. Um Papa muda a Igreja. Mas não muda o mundo. Felizmente.