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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Lá fora

Daniel Oliveira, 16.04.05
INSEGURO e deprimido com o seu desempenho, é fora de casa que Portugal procura a confirmação da sua virilidade. O elogio fácil chega-lhe. Uma atençãozinha. Um piropo.

Lá fora é onde tudo o que aqui falha se resolve. Num país civilizado, diz-se, nada do que aqui se passa acontece. Lá fora não há burocracia. Lá fora não é esta balbúrdia. Lá fora as pessoas com valor são tidas em conta. Lá fora é toda uma outra existência. Lá fora é a Utopia. E, por isso, quando somos bons lá fora, confirmamos que, não fosse o triste karma que nos acompanha, seríamos bons cá dentro. Mas não somos. Porque cá dentro é a «piolheira». Um atraso de vida. Salvam-nos os estrangeirados que, tendo ido lá para fora, nos trazem a boa-nova.

Quando Portugal ganhava os «Jogos Sem Fronteiras», o país vibrava. Quando fizemos a Expo e o Euro e os estrangeiros viram «do que somos capazes», rejubilámos. Quando Durão foi para presidente da Comissão, deixando o país num caos, mostrámos patriotismo e fomos a retaguarda, pronta a sofrer pelo reconhecimento de um dos nossos. Quando se fala de um Papa português, ficamos ébrios. Quando querem Guterres Alto Comissário para os Refugiados até lhe chamamos um Figo. O que é o Alto Comissário para os Refugiados? O que é que isso interessa? É lá fora e pode ser nosso. Venha a taça. Portugal existe para ser visto.

Continuamos a viver o sonho do imigrante: sair desta desgraça, andar lá fora a lutar pela vida, voltar com o reconhecimento dos que aqui ficaram. Das elites ao povo de baixo, é o que todos esperam: que corra bem, lá fora.