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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Fumo negro

Daniel Oliveira, 23.04.05
ATÉ esta semana, estava à frente da Congregação para a Doutrina e Fé, herdeira do Santo Ofício. E fez jus à sua história. Perseguiu todos os teólogos desalinhados. Na sua lista de vítimas está Hans Kung, Eugen Drewermann, Edward Schillebeeckx ou Leonardo Boff. Porque «o cristão é uma pessoa simples» e «os bispos devem defender esta gente sincera dos intelectuais». Salvem-nos os iluminados.

Do seu passado liberal de defesa do Concílio Vaticano II e de crítica feroz à congregação que agora dirigia, não ficou nada. Bastou uma nomeação para cardeal, em 1977, para que lhe passassem os devaneios de juventude. Ele que há muito se achava predestinado para chegar ao topo da escalada no poder da Igreja.

Sempre desconfiou do diálogo inter-religioso e do ecumenismo de João Paulo II: «Não há salvação fora da Igreja Católica». Bem pode Bento XVI corrigir o «cardeal Panzer». O seu percurso na Igreja vale mais do que mil juras de conversão à tolerância.

É contra a homossexualidade, é explicitamente contra a igualdade de género, é contra o divórcio, é contra a Turquia na União Europeia, é contra o comunismo e o capitalismo. Nem a música rock escapa ao seu dedo censório, acusando-a de ser um veículo de mensagens satânicas. Mas não se pense que Ratzinger é contra tudo. Nos seus escritos mostrou uma comovente compreensão para com a pena de morte. Desde que não seja antes da concepção, claro.

Ao escolher o «pastor alemão» como seu novo «ayatollah», o conclave escolheu o pior do anterior Papa: a intransigência moral sem a fraternidade social. A partir desta semana o rosto da Igreja é o rosto da intolerância e do dogmatismo de Ratzinger. João Paulo II confessou: «Tenho medo dele». Garantem que estava a brincar. Não vejo onde está a graça.