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Arrastão: Os suspeitos do costume.

No DNA da democracia

Daniel Oliveira, 18.06.05
AS mortes de Álvaro Cunhal e de Vasco Gonçalves serviram, nestes dias, para um ajuste de contas com a história. E ele foi especialmente excitado nos que vivem com a má consciência do seu papel antes do 25 de Abril. Dizem que a liberdade teria nascido a 25 de Novembro. Mas a verdade é que o PREC está no DNA da nossa democracia.

Já nem relembro que as primeiras eleições livres foram antes de Novembro. Já nem relembro que a censura acabou ali mesmo, com a revolução. Vou mais longe do que isso. A democracia social, sem a qual a democracia política não sobrevive, foi conquistada nesses meses quentes. O divórcio, uma mais justa redistribuição da riqueza, os direitos no trabalho, a greve, a adaptação (violenta) de um tecido empresarial intimamente ligado ao antigo regime a uma sociedade democrática, o acesso generalizado ao ensino, uma segurança social digna desse nome, o serviço nacional de saúde, tudo precisou desse período para se impor. Foi o salto histórico português. E por ter acontecido na rua teve muitos actores. Contraditórios e muitas vezes irresponsáveis. Mas foram tantos que demasiados sentiram como seu aquele momento. Por isso é tão difícil voltar atrás.

Tivesse sido a nossa revolução uma suave transição e a sociedade portuguesa seria muito diferente. Teríamos ficado economicamente mais saudáveis, até posso conceder. Mas guardaríamos muito mais do provincianismo, atraso e rigidez social que nos dominaram durante meio século. Ao contrário do que muitos pensam à direita e à esquerda, a revolução nunca foi derrotada. Foi o que tinha de ser. Antes e depois de Novembro.