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Arrastão: Os suspeitos do costume.

O inventão

Daniel Oliveira, 25.06.05
OS QUINHENTOS não eram afinal mais do que trinta ou quarenta. Os roubos afinal aconteceram depois de uma rixa e no meio da confusão. Na verdade, em Carcavelos, só houve três assaltos declarados. E nada disto aconteceu pela primeira vez. O «arrastão» nem «arrastinho» foi. Qualquer semelhança com o que nos foi descrito naquele dia é pura coincidência. Se fossem quinhentos, se tudo fosse planeado, estaríamos perante um fenómeno de organização criminosa descomunal. E, já agora, perante um fenómeno de estupidez inaudita. Quem tem capacidade para organizar quinhentos assaltantes não vai para uma praia de pelintras palmar carteiras.

Mas o arrastão tinha de existir. Havia boas fotos, a história era boa. Para quê estragar as potencialidades narrativas deste furo? E quem achou estranho foi logo acusado de querer meter a cabeça na areia. Só que serem quinhentos ou trinta, ser planeado ou não, ter havido uma limpeza geral ou três assaltos diz-nos coisas diferentes sobre a realidade. E eu julgava que era disso que os jornalistas tratavam. Mas não.

O que os jornalistas fizeram, em vez de investigar a origem de tamanha efabulação, em que a polícia local parece ter tido um papel activo, foi dar corda à história. Um dia depois, a SIC transmitiu imagens de assaltos em comboios. Porque gostam de dar às pessoas o que elas querem. E as pessoas precisam de se entregar, de vez enquanto, à histeria colectiva. A maioria dos jornalistas não tem agenda, não faz agenda, não olha sequer para nenhuma agenda. E não investiga nada. São apenas artistas de variedades, prontos para entreter o público com aquilo que o público quer. Mas se o «arrastão» existiu nos jornais e nas televisões, nas conversas de café e de autocarro, quem sou eu para o negar? Vou na onda: isto vai de mal a pior, já nem se pode sair à rua.