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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Um polvo chamado Lula

Daniel Oliveira, 06.08.05
A VITÓRIA de Lula representou, para toda a esquerda, uma enorme esperança. Porque era possível alguém de origens operárias, que não renegou o seu berço nem escolheu o populismo fácil, chegar ao poder. Porque um programa de esquerda parecia viável num país que é um continente. Porque Lula, ao contrário de Chaves, representava um movimento social implantado e, ao contrário de Fidel, estava comprometido com a democracia. Lula sabia que não poderia contar com a ajuda interna ou externa de ninguém, a não ser dos seus eleitores. Que ganhar eleições era o mais fácil.

Cedo começou a desilusão. As alianças sem nenhum sentido estratégico, um programa financeiro e social que faria as delícias de Fernando Henrique Cardoso e as expulsões num partido que parecia viver bem com a divergência interna deram o sinal. A imagem de honestidade, que foi bandeira do PT num país habituado à mais descarada das corrupções, parecia ser o ganho que sobrevivia à desilusão geral. Só que ninguém pode ser o que não é. Se a cedência é intrínseca à política, a cedência absoluta só pode acabar em degradação ética. Perdido por cem, perdido por mil, parece ter sido esta a divisa petista. O deslumbramento pelo poder é a maior tentação para quem nunca o teve. Ou se tem um programa sólido e uma base social de apoio firme ou a bebedeira é certa.

Hoje, Lula e escândalo são sinónimos. A exibição do luxo, a compra de deputados e a confusão entre o partido e o Estado são a imagem da decadência de um poder que não mudou nada de fundamental. A conclusão conveniente já estava escrita ainda antes dos homens do PT chegarem ao Planalto: nem Lula podia fazer diferente. Ainda assim, fosse eu brasileiro, não me arrependeria de ter votado nele. Porque só não se desilude quem não tenta. E, na política, como no resto, tudo acaba sempre por correr mal. Mas é quando se pensa que pode correr bem que alguma coisa, pequena que seja, muda. Às vezes.