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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Deixar obra

Daniel Oliveira, 13.08.05
SE OLHARMOS para as colunas de citações dos jornais, as frases apocalípticas sobre Portugal sucedem-se de forma quase delirante. Somos uma choldra, uma miséria, um atraso de vida, um lugar mal frequentado e sem futuro. Neste país com uma certa tendência para o melodrama, salta-se da exaltação provinciana para a depressão colectiva a uma velocidade meteórica.

No mesmo país em que se enterrou muitos milhões em dez estádios de futebol, não falta quem se indigne agora com a construção de um novo aeroporto. Talvez seja melhor ser um pouco racional. A comprovar-se a impossibilidade da Portela acompanhar o crescimento previsível do movimento aeronáutico, um aeroporto na Ota com apenas uma pista, que custaria menos de metade do que está projectado, mantendo-se o aeroporto em Lisboa, seria, apesar de menos excitante, a solução mais avisada. Assim como me parece que, não podendo Portugal deixar de estar ligado à rede europeia de TGV, um investimento estratosférico para ligar o Porto a Lisboa em menos meia hora do que num pendular, apenas para que os portuenses não se sintam menorizados, é um disparate sem qualquer sentido. Gastar, sem depender de estados de alma, o menos possível para conseguir o melhor possível seria, para Portugal, uma autêntica revolução.

Cavaco, seguindo a tradição dos nossos autarcas, criou um novo barómetro de aferição da qualidade governativa: deixar obra. Deixou muita, e muita dela dispensável. É claro que o país ficou melhor. Mas só um cego não vê que, com o dinheiro que recebemos da Europa, estes foram anos perdidos. Anos em que se passou a andar mais depressa para lugar nenhum. Gostava, um dia, de ter um governo que me prometesse uma coisa: «Se pudermos, não deixaremos obra nenhuma».