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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Por 5.000 dólares

Daniel Oliveira, 13.08.05
MOHAMED Mazuz é marroquino. Estudou e trabalhou na Rússia e em Inglaterra. Em Londres, conheceu uma paquistanesa. Para oficializar o casamento foi ao Paquistão. Quando lá estava, dá-se o 11 de Setembro. A polícia paquistanesa caça-o nas ruas de Karachi. Depois de um interrogatório de cinco dias acompanhado de espancamento, a história deste árabe serve às mil maravilhas. Tiram-lhe os objectos de valor e segue viagem para Kandahar, no Afeganistão, onde fica vários meses. A polícia vendeu-o por cinco mil dólares. Um bom negócio. Em Junho de 2002 segue rumo a Guantánamo. Chegado à base naval, a tortura é mais sofisticada. É isolado, interrogado durante horas, exposto a um frio insuportável e a um calor sufocante, alternadamente. Tudo com assistência médica, que chegou ao mundo civilizado. A humilhação religiosa é recorrente.

Dois anos depois, Mazuz, que nunca teve nada a ver nem com terroristas nem com fundamentalistas, é finalmente libertado. Antes de ser vendido como gado e tratado como animal, gostava dos americanos. Escusado será dizer que hoje nem pode ouvir falar deles. «Hoje», diz ele, «sei que a realidade americana está no Iraque e no Afeganistão». A história vem contada na primeira pessoa no «Courrier Internacional» e foi publicada no semanário marroquino «Le Journal Hebdomadaire».

Sabemos que o Reino Unido acabou de aprovar medidas mais expeditas de combate ao terrorismo. Se é dos que acreditam que viverá mais seguro diminuindo os direitos dos outros, talvez seja melhor conhecer estes relatos. E depois pensar que um dia pode chegar a vez dos «inimigos internos». É sempre assim que começa: para o nosso bem.