Quarta-feira, 28 de Junho de 2006
por Daniel Oliveira



A ministra da Educação considera “escandaloso” número de docentes com funções sindicais. Talvez tenha razão. Mas gostava de saber se a ministra não acha «escandaloso» o número de professores que trabalham, requisitados, no seu Ministério, em funções não docentes.

Não defendo, nunca defendi aqui nem em qualquer lado, a corporação dos professores. Acho que os sindicatos dos professores têm, demasiadas vezes, posições conservadoras e pouco solidárias com alunos e pais. Acho que o discurso sindical tem substituído, à esquerda, o discurso sobre a escola. Sobretudo sobre a escola pública, que é o que me interessa. O discurso sindical é legítimo, mas nada tem a ver com a política de educação. Nem a substitui. Se para melhorar a escola pública os professores tiverem de perder alguma coisa a posição justa da esquerda é bater-se, antes de mais, pela escola pública.

Mas este estilo da ministra, que procura sempre nos outros as responsabilidades pela situação actual do ensino, começa já a ser um pouco cansativo e demasiado parecido com o de ministros do passado que nada deixaram de relevante. Começa a cheirar desculpa. O problema da política da educação tem sido falta de política. O resto é acessório e vem por arrasto.

E esta ministra, tem uma política de educação? Que soluções tem para a estabilização do corpo docente e para a situação intolerável de escolas que mudam todos os anos de professores? Que soluções tem para a deficiente formação pedagógica dos professores? Que soluções tem para a má qualidade dos programas curriculares? Que soluções tem para o preço inacreditável dos manuais escolares? Que soluções tem para o abandono escolar? Que soluções tem para o desperdício financeiro no seu ministério?

Também esta ministra se parece cada vez com uma ministra dos professores, mesmo que seja contra eles, e cada vez menos com uma ministra da Educação.


por Daniel Oliveira
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5 comentários:
a senhora ministra não acha escandaloso o aumento dos salários dos ministros. Depois de congelar os ordenados. Assim como, a quantidade de professores que trabalha no ministerio. Essas medidas abusivas e escandaloso e o ministro dizer que vai abrir 3.200 mil postos de trabalho na função pública, quando tenta roubar aos professores e noutros sectores da função pública.

deixado a 25/10/06 às 14:01
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Mário Tomé
«Se para melhorar a escola pública os professores tiverem de perder alguma coisa a posição justa da esquerda é bater-se, antes de mais, pela escola pública.» dizes tu,meu caro Daniel. Mas por que raio de razão a melhoria da Escola Pública exige, como parece querer a ministra, que os os professores tenham de perder alguma coisa? A não ser que o que têm seja ilegítimo ou privilégio... Eu não vou por aí. Acho que a melhoria da Escola Pública implica a melhoria da política de ensino, a melhoria da relação com os encarregados de educação e a melhoria da qualidade das condições da trabalho seja em tempo, seja moral, seja remuneratória, seja contribuindo para a estabilidade, elevação e dignificação da carreira dos professores.
Melhoria do ensino para os alunos e as alunas, significa proporcionar-lhes saber, desenvolver pensamento crítico, curiosidade científica e capacidades e qualificações, não só para o mercado de trabalho, mas também para a sua formação integral como ser humano. Mas a Ministra tolhida pelos superiores objectivos de garantir mão de obra qualificada e se possível barata (repararam como o ainda recente discurso de que as vantagens competitivas não podem assentar na mão de obra baratar já mudou de há uma semana para cá, todos à uma, para "é preciso cortar nos salários"? - é ler os suplementos económicos!)e depois arranjar uma porta estreita para aqueles a quem calhe - por privilégio de nascimento, por sorte na vida ainda curta, por especial capacidade gerada no período de desenvolvimento intelectual e físico, por relação partidária dos progenitores ou por marca esotérica na nádega direita - o talento ou a ferramenta para por ela passar, garantindo a reprodução de uma elite que assegure o domínio do poder financeiro - é ver quanto ganham os administradores das 10 maiores empresas.
A boa Escola Pública fará melhores alunos, melhores professores e melhores pais já e no futuro.
E, com este tipo de governações, precisa de bons sindicatos intervenientes e activos, batendo-se pelas melhores condições de trabalho dos seus associados que estão mais interessados numa boa Escola Pública do que os ministros da educação têm mostrado, pois têm feito boa cama para o ensino privado, a começar pelo Cavaco quando era primeiro ministro: está nos jornais da altura a massa que ele deu para financiar as Universidade privadas que inventou para os lentes da elite terem onde se aconchegar deixando o público para os intervalos, e como tal, associado ao númerus clausus, fez com que quem tem dinheiro e boa cota social possa pôr os rebentos na pública, e os rurais e menos abonados, por razões conhecidas de qualidade de pedigree, tenham de largar os olhos da cara par pôr os putos na universidade.
Há que fritá-la, a esta pescadinha de rabo na boca, caindo eu nas proximidades das tristes "metáforas" usadas pelo rapaz Ruas de Viseu e da Associação Nacional de Municípios.

deixado a 28/6/06 às 17:53
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Kaiser
Confessando, desde já, a minha ignorância na matéria, pergunto se as vagas deixadas pelos professores requisitados para o Ministério serão ocupadas por outros que não possam gozar de tamanho privilégio?

deixado a 28/6/06 às 17:38
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Vê-se claramente que há um desconforto em relação à actividade sindical, isto porque ela é capaz de juntar uma massa heterogénea de insatisfeitos que tem isso mesmo em comum: a insatisfação.

No entanto, Daniel, se estiveres atento reparas que o discurso fugiu da escola para as questões laborais porque assim foi feito de forma ardilosa pela ministra. Repare-se que a ministra propôs aulas de substituição, tudo bem mas os sindicatos e com razão reclamaram que essas aulas contassem como horas de trabalho lectivo e, como tal, pagas (como prevê o estatuto vigente), a ministra deu a volta ao texto e inseriu esse tempo no tempo não lectivo e subjogou as aulas de substituição a tempo lúdico de "babysitting".
De seguida o esquema de avaliação que claramente pretende poupar umas coroas, isto porque se atribui uma limitação ao excelentes com o argumento de em termos relativos não poderão ser todos excelentes (parece o argumento bacoco de Cavaco em relação à pobreza absoluta e relativa). Argumento bacoco porque até em termos relativos podemos ter muitos mais excelentes do que aqueles que estão previstos.
Ora na sequência destes desenvolvimentos é claro que os sindicatos tinham de lutar por esses mesmos direitos e claro que o debate ficou condicionado a isso e não à escola, mas isso é a coisa mais natural porque as políticas desta ministra são muito mais afectas a questões laborais do que a qualquer tipo de reformalação ou aperfeiçoamento da entidade escola.

Em relação às perguntas que ficaram no ar gostava de dizer que:
Uma das soluções que esta ministra implementou para a estabilziação do corpo docente foi que os concursos seriam para 3 anos, já não é mau.
Onde existem mais falhas ao nível do formação pedagócica é no ensino superior e aí, vá se lá saber porquê, não se mexe.

Em todo caso devo dizer que não acho que os vários sectores da sociedade devem fazer esforços de contenção, só que o governo não o fez para os sectores que mais devem à sociedade, logo quando começam o assalto aos professores tem de vir com desculpas reformistas, não vá o otário do Tuga desconfiar...

deixado a 28/6/06 às 16:01
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Esta ministra nada tem a ver com a educação, tem com a preocupação de pagar pouco.

deixado a 28/6/06 às 15:26
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