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Arrastão: Os suspeitos do costume.

De Alepo olhando para o Líbano

Daniel Oliveira, 25.07.06


Souq de Aleppo


Escrevo de Alepo, no norte da Síria. A poucos quilómetros a sul, um país é destruido, num acto de selvajaria consentido pelo Mundo. Mais de 150 mil libaneses estão na Síria, esperando o dia do regresso que pode ser daqui a umas semanas ou meses. A maioria em Damasco. Muitos aqui em Alepo. Os sirios e todos os árabes vivem suspensos no que se passa no Líbano. Mas sem espanto. Há cerca de oito mil anos que o espaço que hoje é ocupado por Alepo é habitado, sem interrupções. Há milénios que é conquistado, reconsquistado, atacado e reconstruido. Aqui sente-se a história toda, em camadas, nas igrejas e nas mesquitas, nos bairros cristãos e muçulmanos. A história nunca passou. Repete-se sempre hoje. E todos os disparates simplistas que por ai se vão escrevendo sobre o Islão, lidos daqui, deixam de irritar. Fazem pena, como faz toda a ignorancia. E ver, ao olhar para os jornais portugueses na Internet, que não falta por aí quem defenda o que está a ser feito no Líbano deixa-me de sem palavras. E ver que não falta quem fale da história recente do Líbano sem falar da sua guerra civil, da anterior ocupacão israelita, de Sabra e Shatila, revela-me como o revisionismo historico tem as mais insuspeitas das faces.

Daqui, de Alepo, na Síria, sente-se a história. O Mundo não vai chegar ao fim. São apenas os árabes - essa nova encarnação do mal, como outrora foram os judeus - que se sentirão cada vez menos deste tempo. A sua decadência faz-se com gritos, mas é uma decadência sem retorno. Perderam. E por isso, aqui cresce a raiva de quem já não tem mais nada para perder. Aqui, escrevendo de Alepo, terra de árabes e turcos e arménios e muçulmanos e cristãos de todo o tipo, sinto-me libanes. O Libano que, ao contrario de Israel, é um Estado multi-confessional e que não conta com uma ponta de ajuda de um Ocidente que se diz laico para o continuar a ser. O Libano reconstruido agora mesmo e de novo arrasado pela estupidez e pela arrogancia absolutas. Um Libano entregue por Israel as maos do Hezbolah. Daqui de Alepo, milénios de historia contam-me da esperança e da barbárie. E agora, mais a sul, so se ve barbárie sem qualquer esperança.

Regresso daqui a uma semana, com muitas fotos e algumas histórias de um pais deslumbrante. Desculpem a demora na aprovação de comentários e desculpem erros de escrita. O teclado árabe não facilita.

PS: Alguem que esteja mais perto e com um bom teclado que explique a Helena Matos o significado de "anti-semitismo" e, já agora, que lhe diga que quem confunde a oposição a politica do governo israelita com nazismo não é diferente de qualquer fundamentalista religioso. Também para o Hezbolah e para o Hamas não há diferença entre judeus e governo de Israel. Quem baralha religião com politica, estados com grupos religiosos, para diminuir aqueles dos quais discorda, baralha-se com quem diz combater.

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