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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Fotoviagem pela Síria

Daniel Oliveira, 02.08.06






Fotografias minhas e da Sofia

Para que a página não fique tão pesada a fotoviagem passou a estar no link em baixo.



Damasco




O trânsito. Só depois de chegar a Damasco e tentar atravessar uma rua sabemos o significado exacto da palavra “caos”. E sabemos o que pôr a vida em risco todos os dias. Os sinais de trânsito são, na melhor das hipóteses, uma mera sugestão. A presença regular de polícias de trânsito é completamente irrelevante. Os carros estacionam em rotundas, mesmo ao lado do senhor agente, sem que isso provoque grande escândalo. As chamadas de atenção e as multas dos polícias são uma lotaria sem lógica aparente. Nunca vi uma ditadura onde a autoridade fosse de tal forma desrespeitada. A verdade é que ela é usada com outra eficácia noutros domínios da vida. O toque de buzina é um tique nervoso nacional. Os peões passam quando der e sempre depois de uma estridente buzinadela de quem não lhe compreende tamanha desfaçatez. Ao fim de uns dias habituamo-nos. Ao fim dos dias habituamo-nos a tudo.




Tanto tempo. Tirando na estrada, os árabes têm sempre tempo. Tempo para fumar narguillet e beber chá. Acima de tudo, tempo para conversar. A cultura árabe é a cultura da palavra. Das conversas intermináveis, das frases poéticas e das discussões inflamadas. Tempo para passear no souq. Tempo para a família. Muito tempo para a família que os acompanha sempre em grande manadas em restaurantes, cafés e viagens. E tempo para receber. Perguntar. Contar histórias. Nunca conheci povo tão curioso e, acima de tudo, tão amistoso. Em cada lugar onde se entra oferecem-nos qualquer coisa, da sua comida, do seu chá e sempre sempre sempre do seu inesgotável tempo.






As roupas. Há de tudo. As mulheres absolutamente tapadas. Para quem esteve no Iémen, como eu, nem dá por elas. Mas quem esteve na Síria há dois, três e quatro anos, diz que são muito mais. Aumentaram ao longo dos dias pela chegada de mais xiitas vindas do Líbano. O mais habitual é o uso do véu, grande parte das vezes com roupa ocidental. Mas as mais ricas, as mais cosmopolitas e as muitas cristãs que vivem em Damasco e Alepo usam roupas ocidentais, tão ousadas como as de qualquer europeia. Arranjam-se de forma mais espampanante do que por cá. A recusa da indumentária conservadora é mesmo uma forma de distinção social, como se pode ver nas revistas de cor de rosa. Quando vão sair à noite as mulheres mais ricas vão geralmente de carro para não se exporem aos olhares sempre indiscretos dos árabes. Mesmo o tipo de imigração recente que existe no Líbano não altera grande coisa este estilo. Sobretudo iraquianos (cerca de um milhão de refugiados), palestinianos (quase meio milhão) e libaneses (já perto dos 200 mil). São os três povos com maior tradição laica da região. Tal como vira no Iémen, o que a roupa esconde não pode o homem contar. Lingerie escandalosa, no ocidente apenas disponível em sex-shops, está à venda em cada canto do souq.






O regime. A Síria é, como a Coreia do Norte e, ao que parece, de Cuba, uma república monárquica. Ao pai Hafez al-Assad sucedeu o filho, Bashar al-Assad. Os dois têm o carisma de uma anémona. Mas, mesmo assim, não hesitam em levar o culto da personalidade até ao enjoo. As fotografias de pai e filho são omnipresentes. Todos os cafés, lojas, restaurantes e bares, queiram ou não queiram – e duvido muito que algum queira –, são obrigados a ostentar as carinhas dos dois senhores. Nas fotos de propaganda do regime ao pai e ao filho junta-se o Espírito Santo. O filho predilecto de Hafez, Basil al-Assad, era o candidato ao trono, mas morreu prematuramente num acidente de aviação. Ficou o filho Bashar, o mais ocidentalizado, que chegou a dar sinais de abertura nunca concretizados. Basil aperece como herói, montado em cavalos. Ao que parece praticava hipismo e conseguiu um segundo prémio para a Síria. Sendo da dinastia Assad, isso chega para ser um novo Saladino. As imagens estilizadas do defunto estão estampadas nos carros. A Síria é, como praticamente todos os regimes árabes, uma ditadura repressiva. Esta calhou ter estado do lado de lá do Muro – ou seja, do lado dos derrotados. Mas falar de socialismo aqui seria no mínimo exagerado. A intervenção do Estado na economia é maior do que nos países vizinhos. A repressão política também. A religiosa, pelo contrário, é mais baixa. Trata-se de uma ditadura laica que da mesma forma que prende e mata os opositores políticos, mantém controlados os movimentos de qualquer tipo de fundamentalismo religioso que nunca quereriam nada com a dinastia Assad. A ligação ao Irão é táctica, não religiosa, já que a esmagadora maioria da população é sunita. Recentemente, à cara dos dois Assad veio juntar-se a de Hassan Nasrallah, assim como é costume em todos os edifícios oficiais ver a bandeira síria e a palestiniana. O discurso pan-árabe é a base ideológica desta ditadura. Todos os árabes têm, supostamente, os mesmos direitos que os sírios quando ali residam. O país é pobre e o governo, para alem de repressivo, é visivelmente incompetente.








As bandeiras do Hezbollah. Foi em crescendo. Chegámos à Síria dois dias depois da guerra começar. Aqui e ali apareciam umas bandeiras amarelas e umas carinhas do Nasrallah. Depois começaram a ser vendidas no souq e nas lojas. Em poucos dias, Damasco e Alepo estavam repletas. Lembram-se do Mundial de futebol? Igual. Todo o tipo de gente, de todas as classes sociais. Dos mais cosmopolitas aos mais religiosos. Dos mais velhos aos mais novos, ter a bandeirinha amarela era um orgulho. Sempre que tirava uma foto exibiam-na. Como já disse, não é a religião que os une. Há uma ligação próxima entre a Síria e o Líbano. Política, militar e geográfica, obviamente. Pode haver neste apoio popular ao Hezbollah um lado de vingança do orgulho ferido. Mas é sobretudo a ideia de que há, entre os regimes fracos, corruptos e ditatoriais árabes, quem resista. Este é aliás o drama dos Mundo árabe. A escolha é esta: de um lado, lideres corruptos que alimentam elites incompetentes e as suas famílias, do outro a pureza do fanatismo religioso. O Hezbollah, digo este crime, é mais do que isso. Há um lado nacionalista na organização que escapa à nossa leitura colonial, sempre pronta a arrumar os outros em tribos e seitas. Mas é uma organização religiosa. Só que basta ver o último estudo de opinião no Líbano – publicado no “The Daily Star” - para atirar por terra os disparates que por cá se têm dito, copiados de cartilhas escritas por analfabetos. 70% dos libaneses apoia a captura dos soldados israelitas (73% nos sunitas, 96% nos xiitas, 55% nos cristãos e apenas nos drusos se fica pelos 45%). 87% apoia a “resistência” do Hezbollah (89% nos sunitas, 96% nos xiitas, 80% nos drusos e nos cristãos). Apenas 8% acreditam que os Estados Unidos são um moderador imparcial. 64% não acredita que o governo libanês esteja a fazer o suficiente para resistir à ofensiva israelita, sendo esta resposta maioritária em todos os grupos religiosos. Ou seja, o apoio ao Hezbollah está longe, em muita gente, de ser um apoio com motivações religiosas. É assim que o Hamas e outros grupos de inspiração fundamentalista têm crescido no Mundo Árabe. A arrogância israelita, o apoio que recebe do Ocidente e a incompetência e corrupção das ditaduras árabes – incluindo as que se disfarçam de democracias e são apoiadas pelo Ocidente (que são a maioria) – tem sido a lenha que nos irá queimar.
No centro da cidade velha, na zona dos cybercafés, dos restaurantes e dos bares, onde à noite os jovens se passeiam, estava, no chão, uma bandeira de Israel. A ideia era que os transeuntes a pisassem, a suprema ofensa em todo o Mundo e especialmente nestas paragens. Consegui, com grande malabarismo, evitar. Não porque ligue especialmente a qualquer bandeira – seja a de quem for, incluindo a do meu país. Mas porque, no meio dela, está o símbolo de um povo que respeito e admiro. Um símbolo que nos conta a história do povo mais oprimido, perseguido e violentado da humanidade. Um símbolo que os governos de Israel não têm sabido preservar.
A febre das bandeiras amarelas tem sido aproveitada pelo regime, que mandou, nos últimos dias que tive na Síria, pôr outdoors com a cara de Hassan Nasrallah.




O Souq de Damasco. Quem já esteve num souq sabe do que estou a falar. O de Damasco é enorme. Parte, a rua principal, é coberta. A cobertura está cheia de buracos feitos pelos franceses a tiro nos anos 20. A ideia não era decorar o espaço mas o efeito é magnífico. Parece que estamos debaixo de um céu estrelado. A confusão é absoluta. Milhares de pessoas compram e vendem. Compram e vendem fruta, especiarias, carne, roupa. Lingerie, tecidos, brinquedos, utensílios de cozinha… Tudo o que lhe passar pela cabeça. As lojas são ultra-especializadas mas não há nada que não se encontre. Foram os árabes que inventaram os centros comerciais. Andando pelo souq, e sabendo que pouco mudou, percebemos que aqui está o berço de muito do que consideramos hoje a nossa civilização. A civilização do comércio. E, no entanto, não foi aqui que o capitalismo floresceu. Porque a acumulação não se faz, distribui-se pela família alargada, numa segurança social caseira, diz-me um amigo e a tese parece-se fazer sentido. São necessários muitos dias para conhecer o souq de Damasco. Os cantos, as galerias, os pátios. Os cheiros misturam-se intensos e o barulho é infernal. Mais de 40 graus e eu por duas vezes fui salvo pela simpatia árabe com um chá e uma maravilhosa limonada gelada. Adoro isto.

Palmira










Palmira. Os sírios chamam-lhe Tadmor, mas o mundo conhece-a por Palmira. É uma das mais imponentes ruínas do Mundo. Há séculos que este era um local obrigatório para as caravanas de comércio. Foi chamada de Palmira por causa das palmeiras no meio de um deserto agreste. Habitada muito antes dos romanos fazerem dela uma das mais importantes cidades do oriente. Em 170 o Imperador Adriano declarou Palmira Cidade Livre e permitiu-lhe cobrar os seus próprios impostos. Os seus cidadãos tinham iguais direitos aos de qualquer romano. Depois de derrotar as tropas romanas, de conquistar a Síria, a Palestina e parte do Egipto, no século III a ambiciosa Zenóbia autoproclamou-se rainha do reino de Palmira. Dizia-se descendente de Cleópatra e conta quem a viu que não lhe ficava atrás em beleza e astúcia. Em 272 o imperador romano Aurélio capturou a senhora e expôs a sua presa nas ruas de Roma. Foi o declínio de Palmira que se manteve, ainda assim, como entreposto comercial. Até ao princípio do século passado o povo beduíno de Palmira vivia dentro das muralhas de onde foi expulso pelos franceses. Desde então, os seus tesouros são uma das maiores atracções turísticas da Síria. Mas não há bela sem senão. Palmira é de perder a respiração. Um lugar onde tenciono voltar com alguém que perceba realmente de história. Mas é um teste à paciência de qualquer turista. O massacre é absoluto. Para levar-nos de táxi por dez metros, arranjar um hotel mesmo que já estejamos noutro, vender tâmaras, antiguidades, jantar de almoçar, mostrar o pôr-do-sol na fortaleza, mostrar as magníficas torres tumulares. Tudo. E a tudo se vai dizendo sempre que não. Ou deve dizer-se. Infelizmente, uma das vezes esqueci-me de o fazer…




Fim de tarde em Palmira. Ao fim da tarde, levado pela carrinha do hotel, do restaurante onde se bebeu um chá ou de um dos milhares de taxistas, vai-se ver o pôr-do-sol na fortaleza. Tive azar e o sol não se pôs como devia. Perdi o que todos dizem ser um espectáculo deslumbrante. Mas vi, lá em baixo, as ruínas de Palmira. E isso basta. Conhecemos um casal de um palestiniano e uma inglesa. Jantámos com eles. Ela calada e ele falador. Ele vestia roupa mais árabe do que qualquer árabe apesar de ter nascido em Londres. Muito viajado. Tentámos falar da situação no Líbano e ele começou a explicar porque é que o 11 de Setembro era obra da CIA. Mudámos de assunto. Depois vi nos blogues portugueses a teoria de que o massacre de Qana era obra do Hezbollah e percebi que há paranóicos em todo lado.








Os camelos. Como disse, esqueci-me de dizer que não. Passeávamos pelas ruínas, numa tarde estupidamente quente – seguramente acima dos 45 graus – e uma sombra e um homem com um chá foram demasiado tentadores. Dono dos seus camelos, propôs-nos passeio nos ditos, na manhã seguinte. Manhã, por aquelas bandas, é lá para as cinco. Que não, que preferíamos a pé. Que talvez, logo se via. Que estava bem, iríamos. Até amanhã então. Nunca mais pensámos no assunto. Mas a autonomia de um turista em Palmira é coisa desconhecida. Cinco da manhã, lá estava um empresário beduíno e os seus dois camelos à porta do nosso hotel. Tivemos de descer. De jejum e a dormir montámos os cabelos sem qualquer vontade. Mas o espectáculo da luz amarela nas pedras, mas os magníficos túmulos, mas o filho do beduíno que trepava as colunas e saltava entre ruínas, mas aquele espectáculo que nos deixa sem fala, fizeram esquecer a contrariedade. Às nove, depois de um longo passeio, estávamos a tomar pequeno-almoço na “farm” do homem. A tentar esquecer que aquilo era tudo o que não queríamos na Síria e tudo o que, melhor ou pior, fomos conseguindo evitar. Mas que se dane, um dia não são dias…

Eufrates




Deir Ez-Zur. Tivemos apenas um dia em Palmira. Fugimos o mais depressa que podemos da enchente de turistas e de caça-turistas. Ao que parece, as coisas em Palmira estavam mais insuportáveis do que o costume. A guerra no Líbano fizera os turistas fugir e os que lá foram pagaram pela escassez. Fomos para o oposto. A ideia era subir do deserto para o Eufrates e fazer o caminho até Alepo, já próximo da costa e no Norte. Chegámos à cidade mais importante da região, Deir Ex-Zur. Como quase sempre, tentaram-nos enganar no preço do táxi da estação de autocarros para o centro. Quer dizer: quiseram enganar-nos mais do que o costume. Salvou-nos o dono de um hotel sem elevador. Salvou-nos do roubo, mas não nos salvou do quarto andar e do ar condicionado que se avariou no princípio da noite. Almoçámos num restaurante que devia ser frequentado apenas por árabes. Conhecemos um sírio que trabalhava para a ONU na tentativa de apoio à criação de pequenas empresas na Síria. Como a esmagadora maioria dos árabes, que não são taxistas e não vivem em Palmira, a sua simpatia e generosidade saltava aos olhos. Os árabes que não nos querem vender nada não são apenas calorosos. Nunca são intrusivos. Simpáticos e orgulhosos. Ao fim da tarde, um passeio pela zona de lazer. Na ponte que passa sobre o Eufrates e nos leva às piscinas públicas e a uns agradáveis restaurantes, os locais fazem os passeios que se fazem em todas as cidades de província. Os turistas não abundam aqui e fomos sendo observados. Acabámos a jantar num restaurante à beira rio, «com álcool», o que é sempre uma sensação. No fim, desespero. Não havia café. Nem expresso, claro, nem turco. Apenas melancia.








Eufrates. No dia seguinte, arranjámos um taxista que nos levasse pelo rio Eufrates até Raqqa, onde apanharíamos o autocarro para Alepo, com paragens nas ruínas Halabiyya e Zalabiyya, que defendiam a passagem pelo Eufrates de leste para este. As ruas estavam desertas e o souq local encerrado. Em alguns cafés as pessoas comiam e jogavam. Era meio-dia e meia de sexta-feira, momento da principal oração da semana, A maioria estava nas mesquitas. Conseguimos sem dificuldade um táxi e seguimos imediatamente pela estrada que se desenha na divisão exacta entre o verde cultivado das margens do Eufrates e o amarelo poeirento do deserto. Os camponeses que aos dias de semana enchem as ruas de Deir Ez-Zur vivem neste caminho. Vimos Halabiyya e ficamos impressionados. Para chegar Zalabiyya tivemos de passar por uma ponte militar improvisada e dar explicações aos guardas que quando estão mais à vontade nem farda usam. De lá de cima vimos o Eufrates em toda a sua imponência. Acabámos por tomar banho nele na companhia de mosquitos que nos deixaram marcas para o resto da viagem.




Raqqa. Raqqa era apenas ponto de passagem. Ali dormimos num hotel que há muito não via turistas. Acabámos num restaurante com um simpático jardim mas que estava fechado. O que não foi – nunca é – um problema. Por lá, nunca dizem que não é possível. O dono, que preparava a noite do que parecida ser o mais concorrido lugar do burgo, não nos deixou desistir do almoço tardio. Meia hora depois, ali estavam todos os nossos desejos: saladas maravilhosas, um kebab acabado de fazer, sumos frescos de manga. O souq da cidade era o souq normal de qualquer pequena cidade, ou seja, agitado. Raqqa chegou a ser uma cidade importante e foi a casa de Verão do Califa ar-Rashid onde se passam as 1001 noites. Partimos cedo para Alepo.

Alepo




Chegada a Alepo. Chegámos a Alepo de autocarro. Fomos alternando nesta viagem entre hotéis baratos para estudantes e hotéis mais caros e lindos. Caros, na Síria, é o preço médio de um hotel português. Baratos, é dados. Em Alepo a reconstrução da cidade velha está a ser feita por alemães. Os hotéis e os restaurantes de charme, com pátios magníficos, são a pontapé. Alepo é mais rico que Damasco, menos populoso (ainda assim mais de 4 milhões de pessoas) e mais organizado. É das cidades árabes mais importante, a que fica mais a norte, já a aproximar-se da fronteira com a Turquia.






A fé. Se em Damasco a diversidade religiosa se sente, em Alepo ela é muito presente. Alepo diz-se o mais antigo local habitado do Mundo e a sua história é uma história de conquistas, reconquistas, ocupações e guerras. Mas também de convivência. O hotel em que ficámos é no bairro arménio, maioritariamente cristão. Um bairro semelhante existe na cidade velha de Damasco (uma das fotos em cima é de Damasco). No domingo, fui assistir à missa dos maronitas. Podia ser em qualquer cidade europeia, mas eram árabes que ali estavam. Nos bairros cristãos de Damasco e Alepo os símbolos religiosos (crucifixos e imagens de Cristo) são tão visíveis como os símbolos islâmicos no resto da cidade. Nos anos sessenta houve tensões com os cristãos (arménios, ortodoxos gregos, maronitas e católicos latinos) mas os problemas não são visíveis para um visitante. Há ainda drusos, xiitas e alawitas, para alem da maioria sunita. Quando cheguei ainda eram visíveis as sequelas da polémica dos cartoons, com cartazes, em algumas lojas, a apelar ao boicote aos produtos dos pobres dinamarqueses, que nunca fizeram mal a ninguém.








O Souq de Alepo. O melhor desta viagem estava ainda para vir: o souq de Alepo. Milenar, grande parte dele coberto por maravilhosos tectos de granito, com focos de luz fortíssimos a vir da superfície. Sentimo-nos a passear pela Idade Média. Ao contrário de outras cidades árabes, tudo é mesmo comprado no souq. A sensação de passar um dia numa cidade subterrânea, repleta de lojas, é inesquecível. O calor por vezes torna-se insuportável, mas há sempre um oásis num pátio aberto, onde menos se espera. O labirinto de ruas e galerias e pátios torna quase impossível a orientação. Mas vale a pena perdermo-nos ali.




Mesquita e madrassa. Quer em Alepo quer em Damasco a mesquita principal é aberta a todos. É um lugar de descanso e da família, antes de ser lugar de oração. Mas a isso irei mais tarde. Depois de estarmos na mesquita (uma irmã mais pequena da deslumbrante Mesquita Omíada de Damasco) entramos, quase sem querer, numa antiga madrassa (escola). O director “civil” da mesquita estava lá e recebeu-nos. Ali já houve uma Igreja cristã que sobreviveu à hegemonia islâmica. Depois dos cruzados e da violência acabou por ser arrasada. A versão de Mustafah é mais benigna para os muçulmanos do que a que conheço. Seja como for, recebeu-nos e conversámos. Almoçámos ali, com ele e outros amigos. Deu-nos do seu almoço, como é normal por lá. Conversámos sobre religião e ele, julgando-me cristão, tentou explicar como o Islão e o Cristianismo são parentes próximos. Mas o assunto principal foi, claro, o de sempre: a situação no Líbano. E o que ele queria compreender era o silêncio da Europa. Não lhe dei nenhuma explicação satisfatória. Mustafah foi, provavelmente, das pessoas mais simpáticas que conheci na Síria. A madrassa onde almoçámos já não está em funcionamento.






Os khan. No Souq há os khan. Eram espaços de estadia para os viajantes e para as delegações e embaixadas estrangeiras. Uma espécie de hotéis. Hoje, funcionam como galerias comerciais. São muitos. Uns magníficos, outros já com construção no meio a esconder o seu encanto. E há as oficinas. Oficinas de tudo. A cidade árabe não pára. Trabalha-se sempre, conversa-se sempre, vende-se sempre, come-se sempre. A qualquer hora Alepo oferece animação. No meio das nossas viagens perdidas pelo Souq encontrámos uma gigantesca lavandaria/tinturaria. Tirámos fotos com autorização e, como sempre, não se fizeram rogados em pousar para a fotografia.




Cristiano Ronaldo, Figo. A pergunta é sempre a mesma: de onde somos? Quando respondemos, a reacção é sempre um sorriso largo. «Figo, Cristiano Ronaldo». De facto, devo render-me, Portugal só existe na bola e, no caso dos árabes, no nome que dão às laranjas.




Saber vender. Todos os árabes sabem vender e adoram negociar. Pelam-se por uma negociação e não acham grande graça a clientes que não dão luta. Percebe-se a cara de gozo enquanto jogam o jogo do sobe e desce. Também gosto. Apenas o dispensava nos táxis. Mas não se limitam a negociar. Sabem expor e mostrar o que têm para vender. Uma das coisas que se nota em quase todos os restaurantes, lojas e hotéis é o brio que põem no que fazem. Mesmo quando há pouco para oferecer. Mas não é o caso do souq. Aí há de tudo. E para os turistas que são menos do que Alepo merece esmeram-se a sério. Oferecem cafés e chás para prender o cliente e dizer que não nem sempre é fácil. Um até nos fez uma visita guiada a um velhíssimo hospital em reconstrução (fotos em cima) e há mesmo quem escreva em todas as línguas uma piada. A ideia é, com tanta oferta, chamar à atenção. Fazer parar. E, depois de parar, está tudo perdido. Ou ganho, dependendo da perspectiva.




A cidadela. A cidadela de Alepo domina a cidade no alto de uma colina. Isolada do resto, resistiu a invasões e ocupações. Tem uma pequena cidade lá dentro, com os seus banhos, os seus templos e as suas casas. Com construções do Século X antes de Cristo, a sua fortaleza foi construída no século III A.C. As ruínas da cidadela estão em reconstrução lenta e espera-se que venha a ser um importante ponto de atracção turística. A vista sobre Alepo é total.

(Continua)

Post corrigido, já com um pouco mais de tempo.

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