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Arrastão: Os suspeitos do costume.

A mentira na mentira

Daniel Oliveira, 05.08.06
José Manuel Fernandes indignou-se ontem (link para assinantes) por os jornais não terem dado suficiente destaque ao facto das crianças mortas em Qana terem sido “apenas” 17 (13 corpos ainda estão por descobrir, mas Fernandes já os dá como vivos). No 11 de Setembro chegou a falar-se de cinco mil mortos. Foram três mil. O que se diria de alguém que escrevesse um editorial sobre esta diferença para desculpar o atentado?

Mas falemos de rigor e imparcialidade. José Manuel Fernandes fala-nos de um e-mail de um membro das forças da ONU no Líbano. Escreve Fernandes: «pouco antes de o ataque que vitimou quatro soldados das Nações Unidas, um destes tinha enviado um e-mail a um seu superior a dizer que estavam a ser utilizados como “escudos humanos” pelo Hezbollah». Nesse e-mail, escrito a um ex-superior (e não a um “superior”) uma semana antes (e não um «pouco antes») da morte dos membros da ONU, o major Paeta Hess-von Kruedener disse apenas que há fortes bombardeamentos na zona onde as forças da UNIFIL se encontravam e que esses bombardeamentos «não são deliberados mas têm acontecido devido a necessidades tácticas». Apenas isto.

A afirmação de que a UNIFIL era usada como escudo humano pura e simplesmente não vem no e-mail. É uma interpretação – bem livre, por sinal – feita numa entrevista à estação canadiana CBC pelo militar canadiano na reserva General Lewis Mackenzie. Aliás, a entrevista a este militar, que já foi candidato pelo Partido Conservador, foi pedida pelo facto dele ser orador numa manifestação de apoio a Israel e contra o cessar-fogo. A interpretação deste activista foi desmentida pelas declarações da ONU, que garantiu que «ao contrário do que acontece noutras bases, o Hezbollah não estava a disparar nas imediações da base de Kiam». A mulher do major Paeta Hess-von Kruedener deu uma conferência de imprensa a responsabilizar o exército israelita pela presumível morte do seu marido. No editorial de José Manuel Fernandes uma interpretação sem confirmação de um partidário israelita passa, por milagre, a ser conteúdo da própria mensagem. Aliás, a manipulação não é original. Foi feita pela Fox News que é, por sinal, o modelo de jornalismo de José Manuel Fernandes.

Por fim, para provar como Israel é muito civilizado, Fernandes lembra, neste seu brilhante texto, que o exército tem sempre a amabilidade de ligar a alguém uns minutos antes das bombas lhes caírem em casa. Como se isto não fizesse exactamente parte de uma estratégia de terror sobre as populações civis para que deixem o sul do país deserto. A ETA, antes dos seus atentados, costumava telefonar para a polícia ou para um jornal julgando-se assim desculpada dos seus crimes.

Conclusão: o que incomoda José Manuel Fernandes não são os métodos dos terroristas. São as causas de cada terrorista. O que incomoda José Manuel Fernandes nas notícias dos jornais – incluindo o seu – não é a serrem pouco rigorosos. É não usarem do exemplar rigor da Fox News.

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