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Arrastão: Os suspeitos do costume.

A minúscula

Daniel Oliveira, 18.08.06
Rúben de Carvalho escreveu hoje sobre o tema. Acrescento aqui a carta que enviei, como leitor, ao Provedor do Leitor do "Público".

«Caro provedor,

Na edição do PÚBLICO de 13 de Agosto, no fim do seu texto, Isabel do Carmo escreve: «E de tanto se querer confundir anti-sionista com anti-semita, pretende-se prender as consciências do horror do holocausto e tolhê-las no combate aos senhores da guerra de Israel?» Em nenhuma parte do texto a autora diminui a importância do Holocausto e muito menos o nega. No entanto, o jornal sentiu-se na obrigação de escrever a seguinte nota: «O PÚBLICO não alterou a grafia deste texto, designadamente o facto da autora escrever Holocausto com caixa baixa.»

Primeiro as duvidas: o jornal perguntou à autora do texto se queria mudar a grafia? Se sim, ela recusou? Se recusou, porque não fomos informados da recusa? Se não perguntou, porque optou por uma nota de redacção em vez de o fazer? Por fim: quantas vezes na sua história o “Público” (ou outro jornal português) acrescentou notas de redacção a textos de opinião?

Devo esclarecer que discordo de grande parte das opiniões que Isabel do Carmo produziu durante a guerra do Líbano. Que acho que se envolveu num debate estéril e armadilhado. Mas esta nota representa uma absoluta falta de respeito pela autora e, mais importante, pelos leitores.

É a primeira vez que vejo uma nota de redacção incluída num texto de opinião. Das duas uma: ou o jornal não publicava o texto como estava por não cumprir as suas estritas regras gráficas ou, publicando-o, não se dava ao direito de lhe acrescentar qualquer observação. Ou o espaço é da articulista ou não o é de todo. Mais: a nota parece ser mal intencionada. A irrelevância do problema não parece justificar o acto excepcional de acrescentar a nota. Isabel do Carmo, ao falar do «horror do holocausto», deixa clara a sua posição e dificilmente se poderia inferir da utilização da minúscula qualquer posição negacionista. Caso assim fosse, a nota continuaria a não ter qualquer cabimento. O jornal teria melhor solução: não publicar o texto, liberdade que lhe assiste. Mas o que a nota parece pretender é dar relevância ao pormenor influenciando a leitura do texto e as conclusões que dele se tirem. A nota, pela sua desproporção, só pode ser lida como uma insinuação.

Não está aqui em debate se Holocausto se escreve com minúscula ou maiúscula. Eu escrevo com maiúscula e não faço disso grande manifesto político. Não está aqui em causa se o jornal deve impor as suas regras gráficas a colunistas convidados. Debato apenas esta questão: é legitimo usar o espaço de opinião (não me refiro a cartas ao director, apesar de haver muito a dizer sobre isso) de pessoas externas a um jornal para acrescentar notas e fazer reparos ao próprio texto? Não me parece. Mais a mais quando as notas em causa parecem carregadas de suspeição.

Se a questão é apenas a grafia do jornal, um reparo pessoal à articulista parecia mais sensato e educado. Se a questão, como me parece, não é a grafia do jornal, estamos perante um caso muito mais grave. Substituímos a censura pelo comentario, em simultâneo, a textos de opinião dos quais se diverge, usando como subterfúgio pormenores técnicos. E, quando falamos de assuntos tão chocantes e sensíveis como o Holocausto e de insinuações tão graves como as do negacionismo, um assunto que parece minúsculo ganha maiúscula importância.»

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