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Arrastão: Os suspeitos do costume.

O linchamento

Daniel Oliveira, 19.08.06
Sobre a polémica em torno de Gunter Grass escrevi o que queria escrever hoje, no “Expresso”. Aí a minha posição fica clara. Aqui, vai apenas uma nota sobre o editorial de ontem de José Manuel Fernandes. Seria de esperar. Quando um génio vai a linchamento os medíocres chegam-se logo à frente. Mas José Manuel Fernandes devia ter um pouco de vergonha. Escreve: «Como pode alguém que não soube conviver com o seu passado impor a todos o dever de memória?»

Não leio eu de José Manuel Fernandes permanentes acusações ao passado da esquerda e à sua recusa em reconhecer a sua história de crime? E de José Manuel Fernandes, alguma vez li uma linha que fosse sobre a sua quota parte de culpa? Sobre o seu próprio passado estalinista?

Grass já há muito fez o mea-culpa. E esta nova revelação, feita por vontade própria, é a continuação da difícil relação que mantém com a sua própria história. José Manuel Fernandes terá culpas bem menores do que ele e ninguém lhe exige que se ande a penitenciar. Não tem de o fazer. E não é por ter apoiado as mais abjectas ditaduras que perde direito à opinião. Eu, pela minha parte, que apoiei a União Soviética no inicio da minha adolescência sinto-me livre de atacar o passado do comunismo. Mas não ando a atirar pedras a quem se enganou e reconheceu o seu erro. Por isso, esperaria o mínimo de decoro de Fernandes. Até porque nunca lhe ouvi dizer sequer «sou um ex-estalinista». Fernandes ataca o passado da extrema-esquerda de que fez parte como se nunca fosse nada com ele. Não comparo o apoio à Albânia, num país ocidental, ao passado de um simpatizante nazi na Alemanha., Mas, demasiadas vezes, José Manuel Fernandes aproxima-se dessa comparação. E, no entanto, é como se ele próprio não tivesse passado. Por isso pergunto agora eu: Como pode alguém que não sabe conviver com o seu passado impor a outro o dever de memória? Que antes de ser o primeiro a gritar "mata" aprenda qualquer coisa com a coragem de Gunter Grass.

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