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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Ao soldado desconhecido

Daniel Oliveira, 29.09.06



Mentir é feio. E eu menti. Disse que não ia ver o filme de Oliver Stone sobre o 11 de Setembro e fui. Confesso que me surpreendeu. Esperava o pior. Tive ainda pior. Lamechas, básico, patrioteiro, fácil. Nem Nicolas Cage, provavelmente o meu actor preferido no activo, salva aquela estopada. Para desenhar o cartão postal da América, Stone não gastou um neurónio. Está lá tudo: as mulheres chorosas esperando os seus valorosos esposos, a diversidade racial medida ao milímetro, a solidariedade entre os homens que nuca falham, um louco ex-fuzileiro que no fim até salva os protagonistas e diz ao telemóvel “vamos precisar dos melhores para vingar isto”. Alista-se para servir na guerra do Iraque. Ou seja: uma mão amiga e compreensiva aos mais fanáticos, pintando-os como patriotas perturbados mas bem intencionados.

Mas, mais importante que tudo isto, um filme mau, com diálogos idiotas e uma realização absolutamente desinteressante. O Oliver Stone de “Nascido a 4 de Julho” – um filme igualmente fraco e cheio de lugares comuns, mas de sentido inverso a este – voltou a atacar. Mas este retrato idílico da América acossada (que soa a senilidade artística e ideológica), aplaudido pelos mesmos conservadores que se insurgiram por ser Stone o primeiro a retratar o 11 de Setembro no cinema, não é apenas uma «história simples», como disse o realizador, mas uma simplificação da tragédia. A tragédia, o sofrimento e a morte nunca são simples. Nelas se revelam o pior e o melhor da natureza humana. Pois ali só há heróis.

Stone parece pedir autorização para ser o autor do hino ao "americano". E é de um hino que se trata. Nada contra o “americano” a que o filme ergue uma estátua. Ao contrário do que pensam, aprecio muito do que essa personagem contraditória do conquistador do Novo Mundo significa. A confiança absoluta no individuo, a capacidade surpreendente de realizar feitos impossíveis, o espírito o combativo, a clareza no confronto e a ingenuidade nos valores, inversa ao cinismo europeu. Tenho medo de tudo isto porque tudo isto pode, como se tem visto, ser perigoso. Mas tudo isto me toca. Só tenho tudo contra os hinos e as estátuas. Sobretudo as estátuas ao soldado desconhecido, sem alma nem história. Não são arte, apenas isso. São sempre estúpidas.

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