Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007
por Daniel Oliveira
«Não sei se é costume dedicar-se este prémio a alguém. mas vou dedicá-lo. A todos os jornalistas precários.

Passado um ano da publicação destas reportagens, após quase três anos de trabalho como jornalista, continuo a não ter qualquer contrato.

Não tenho rendimento fixo, nem direito a férias, nem protecção na doença, nem quaisquer direitos caso venha a ter filhos.

Se a minha situação fosse uma excepção, não seria grave. Mas como é generalizada – no jornalismo e em quase todas as áreas profissionais – o que está em causa é a democracia. E no caso específico do jornalismo está em risco a liberdade de imprensa.»

João Pacheco, quando recebeu prémio revelação de jornalismo, na presença do Presidente da República e do ministro Santos Silva
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por Daniel Oliveira
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23 comentários:
Sebastião Dias
Daniel, sinal dos tempos. Já foi tempo em que se procurava o emprego para a vida toda. A sociedade e as relações laborais têm vindo a evoluir, fruto da necessidade de qualificaç~ioes mais abrangentes, com experiências profissionais mais diversificadas, dando-se vantagem aos trabalhadores que tenham no seu curriculum diversas experiências profissionais e uma palette de qulificações que lhes permita ter uma maior versatilidade. São estes os sinais dos tempos. Em todos os países ditos evoluídos, dos quais destaco os países nórdicos, dos quais o Daniel tanto gosta de citar exemplos e enaltecer as suas virtudes democráticas de esquerda, a tendência é haver cada vez maior rotatividade no emprego, o que deixa, quer patrões quer empregados, mais satisfeitos, bem como favorece os empregados ao nível da qualificação.

Mas parece que a esquerda, e em particular o Daniel, teima ainda em travar lutas do início do século passado, sem ainda ter tomado cosnciêwncia de que o mundo evoluiu, as relações laborais alteraram-se, o tipo de qualificações que se exigem são diferentes.

Talvez o seu problema seja nunca ter dado trabalho a ninguém, nunca ter pago a um pai de familia um único salário, nunca ter a seu sustento um empregado incompetente ao mesmo tempo que lhe batem à porta cinquenta pessoas cheias de ganas para trabalhar e com sonhos ainda por concretizar.

Sem querer ter a ousadia de lhe dar alguma lição de vida, chamo-lhe apenas a de que as causas que o Daniel está a defender são apenas causas populistas, para dar a ganhar à esquerda retrógrada votos oriundos dos pobres de espírito que apenas ambicionam ter emprego garantido até ao fim da vida, tewimando em esquecer o tempo em que vivemos, do qual parece que o Daniel também parece estar completamente desfasado.

deixado a 28/9/07 às 18:42
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busilis
Joâo Pacheco,tudo isto que aqui escreves tinha ficado bem claro nas tuas declaraçoes,aquando da entrega do prèmio.Obrigado.

deixado a 27/9/07 às 20:19
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Daniel Oliveira
Sebastião Dias, a precariedade está a cescer em todos ois países, tenham a lei laboral que tenham. Como acha que sobrevivem as empresas de trabalho temporário? Não são portuguesas. Crescem em toda a Europa. Os empresários querem compromisso nenhum, sem qualquer limitação, como é normal. E seja qual for a lei é assim que tentarão, na maior parte dos casos, empregar. E isso é possível por causa do crescimento do desemprego: há mais gente disposta a trabalhar de qualquer forma.

Diga-me uma coisa: estão a dizer isso há anos. A lei foi mudando e no sentido mais favorável à sua posição (mesmo que não tenha chegado a ela). Porque raio, mesmo assim, a precariedade aumentou em vez de diminuir? As razões são outras e muito mais profundas e globais do que a lei laboral em vigor.

deixado a 27/9/07 às 16:54
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João Pacheco
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Aposto com quem quiser:
havia precários entre os jornalistas que fizeram a cobertura noticiosa da entrega dos prémios Gazeta.
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A precariedade está a alastrar por todas as áreas profissionais. E não acontece apenas aos trabalhadores mais jovens.
Já repararam que cada vez mais as empresas usam o termo “colaborador” em vez de “trabalhador”?
Dentro de pouco tempo, arriscamo-nos a ser todos “colaboradores” ou “desempregados”.
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O que disse esta terça-feira no Convento do Carmo não era uma queixa pessoal, antes um alerta para as consequências que este tipo de comportamento governamental e empresarial acabará por ter em toda a sociedade.
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Quando disse que estava em risco a liberdade de imprensa, referia-me ao facto de um jornalista precário (que não sabe se nem quanto vai receber ao fim do mês) ser um alvo muito fácil de pressões de todo o tipo.
E até um alvo fácil de corrupção.
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Sem imprensa livre não existe democracia.
E sem jornalistas profissionais dificilmente existirá jornalismo sério.
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Muitas das grandes reportagens (que exigem mais tempo) são hoje feitas graças a convites de empresas e de instituições públicas. Ou por jornalistas (mal) pagos à peça.
Tendo isso em conta, que tipo de jornalismo podemos pedir?
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Vou dispensar-me aqui de dar detalhes sórdidos sobre o que significa hoje em dia trabalhar à peça. Seja num jornal, revista ou em qualquer outra empresa.
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Há quem o faça por escolha, claro.
Mas a maior parte dos precários não tem outra opção. Excepto emigrar, opção que não quero tomar. Para mim o mais importante é tentar contribuir para resolver os problemas neste país. Mesmo que tenha que desistir do jornalismo.
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Mas apesar de tudo, posso garantir-vos que ainda há espaço para jornalismo sério em Portugal.
E que vale a pena lutarmos por esse espaço.
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obrigado pela vossa atenção,
João Pacheco
(jornalista precário)
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PS – cá vai um link para o último texto que publiquei,
acompanhado por uma foto-reportagem do repórter fotográfico José Caria: http://clix.visao.pt/default.asp?CpContentId=334400 (http://clix.visao.pt/default.asp?CpContentId=334400)

deixado a 27/9/07 às 16:43
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Sebastião Dias
«Repito: então porque é que isso nunca acontece? Dei-lhe o exemplo concreto.»

Nunca acontece porque para a lei do trabalho absurda que nós temos, em que um contrato de trabalho dificilmente poderá ser quebrado por parte do trabalhador, existe um mecanismo de compensação, que é o recibo verde. O empregador tem duas possibilidades: uma, que lhe confere responsabilidades exageradas e um compromisso quase inquebrável, outra sem qualquer compromisso e sem qualquer responsabilidade.
Os empresários óbviamente escolhem a segunda hipótese. Qual é a dificuldade em se entender isto?

O Daniel acha que os empresários portugueses são assim tão diferentes dos outros? Se desse aos outros as leis laborais que temos, o mercado de trabalho automáticamente se ajustaria a essas novas regras, óbviamente dando preferência a trabalhadores precários.

O mesmo se passa no seu jornal. Para quê empregar jornalistas com contrato assinado (e com todas as responsabilidades exageradas que isso implica), quando se pode apenas contratar precários a recibo verde, sem implicar responsabilidades por parte do empregador, sem férias, etc?

deixado a 27/9/07 às 13:54
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João Mesquita
Por lapso, não assinei o post acabado de enviar. Faço-o agora
João Mesquita

deixado a 27/9/07 às 12:44
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João Mesquita
Como desconheço outro meio para o fazer, aproveito este para felicitar o João Pacheco — cujo talento, para quem conhece o seu trabalho, é evidente — pelas justíssimas e oportunas palavras proferidas no Clube de Jornalistas. Houvesse muitos outros a dizer o que ele disse e a fazer o que ele faz, e outro galo cantaria, em matéria de relações laborais e de qualidade da comunicação social.
Ao Sebastião Dias, gostava de lembrar que alguém deu um contrato para assinar ao tal jornalista "incompetente", perguntando-lhe, de permeio, como se classifica essa pessoa e de que forma é ela responsabilizada pelo seu acto. Ao António Torgado, gostava de recordar que as coisas nem sempre foram assim (e não estou a recuar aos tempos do império romano), opinando, já agora, que não é inevitável que o sejam hoje. Finalmente, gostava de me congratular com o facto de a vida ter corrido bem ao Luís Moreira e de lhe dizer que compreendo bem o seu lamento sobre não ter menos 15 anos. Infelizmente, nem todos podem dizer o mesmo, sem que isso queira significar, necessariamente, que são menos dotados ou inconformados do que o Luís.

deixado a 27/9/07 às 12:33
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Mariana
Raios, que não há paciência para o discurso dos coitadinhos dos patrões que não podem despedir. Algumas informações:

- Um trabalhador que se revela repetidamente incompetente pode ser despedido com justa causa, sim. Inclui-se na justa causa de despedimento, face à lei, o desinteresse repetido pelo cumprimento, com a diligência devida, das obrigações inerentes ao exercício do cargo ou posto de trabalho que lhe esteja confiado. Agora, este desinteresse tem que ser documentado e comprovado, e o processo de despedimento ainda dá algum trabalho que as chefias deste país raramente querem ter.

- Um trabalhador a recibo verde NÃO TEM CONTRATO NENHUM. Recebe à tarefa, quando recebe, a entidade patronal não faz descontos por ele para a seg. social, não lhe paga subsídio de férias nem de Natal, não tem direito a protecção na maternidade e paternidade. Isto é muito diferente de um contrato de trabalho, mesmo que a termo (os tais 2/3/4 anos de que se falou aqui).

- A exploração dos mais jovens, que fazem o mesmo trabalho do que os outros sem nenhum direito, é hoje uma realidade em muitos sectores. No jornalismo, na ciência, com os bolseiros, na própria administração pública. E é má, em primeiro lugar porque é injusta e, em segundo, porque um dia os melhores fartam-se, vão-se embora e não voltam.

deixado a 27/9/07 às 12:28
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Luís Lavoura
Que solução é que o Daniel Oliveira sugere? Extinguir o regime de recibo verde? Há quem pense que era isso que deveria ser feito.

deixado a 27/9/07 às 09:53
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Daniel, isso não acontece porque o sistema que temos actualmente protege desmesuradamente uma parte da população que já está no "sistema" e consequentemente a restante população não é abosrvida pelo mercado porque o mercado entre ter trabalhadores precários, mesmo com os problemas que isso levanta, e não é só ao empregado como também ao empregador, e ter trabalhadores que são totalmente infléxiveis por lei prefere o primeiro. se a lei fosse bem mais fléxivel, acredite que a segurança no trabalho crescia! as empresas também preferem ter trabalhadores vinculados, e com que possam contar. simplesmente recusam-se é a ter de arcar com eles para toda a vida.
a mesma coisa exactamente para a lei do arrendamento! em vez de se ter uma lei fléxivel e livre entre partes, protege-se de uma maneira absurda quem já está no mercado. resultado? ou se compra casa, ou se aluga a preços altíssimos com contrato ou mais normais mas sem qualquer contrato.
como disse sebastião dias a protecção social é o papel do estado. protecção não ao "emprego" mas sim à pessoa. enquanto se insistir em proteger "empregos" apenas se prejudica as pessoas reais e mais especificamente os jovens.

deixado a 27/9/07 às 08:58
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