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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Manufactering Consent

Miguel Cardina, 13.07.11

 

Hoje, no Telejornal da RTP, foi possível assistir a uma detalhada reportagem sobre uma dupla de meliantes que tentou assaltar sem sucesso uma turista na praia. Logo de seguida, uma notícia sobre "insegurança" dava conta de um aumento imediato do dispositivo policial, anunciado pela voz grave do nosso novel Ministro da Administração Interna. Se coincidência não é, o que chamar a isto?

Ui, mais um concorrente; que medo...

Sérgio Lavos, 29.06.11

Belo exemplo do capitalismo que temos: um empreendedor de loga data (e uma das figuras fundadoras deste regime), Pinto Balsemão, tremendo com a concorrência que poderá ter se a RTP for privatizada. Sabemos porquê: apesar da privatização de muitas empresas públicas que asseguravam a prestação do serviço público em sectores fundamentais da nossa economia - falo da Galp e da Petrogal, da PT e da EDP -, as leis do mercado e da concorrência nunca funcionaram. Continua a haver concertação de preços na área dos combustíveis e das comunicações e somos dos países da UE onde os consumidores mais pagam pela electricidade - e não esqueçamos que a EDP é, na prática, uma empresa privada que existe em regime de monopólio. Mas a televisão, lamentavelmente para Balsemão, é diferente: precisa da publicidade para dar lucro; o mercado, no meio audiovisual, funciona mesmo. São estes os empresários que temos, a nossa elite económica que domina indirectamente o poder político: saudosistas do Portugal corporativista que durante quarenta anos Salazar foi construindo.

 

*A questão em si, da privatização da RTP, é outra história; parece-me que o mais racional será privatizar apenas um dos canais, neste caso a RTP1, que não é carne, nem é peixe, não é serviço público nem dá lucro.

O mundo é um palco

Sérgio Lavos, 18.09.10


Escrevo este post sabendo que fará parte do circuito iniciado em 2008, quando um alucinado Joaquin Phoenix apareceu no programa de David Letterman dizendo que abandonava o cinema e iria dedicar-se a uma carreira de rapper. Isso foi o início. O que se seguiu - as imagens de concertos no You Tube, reacções de blogues e comentadores de jornais, opiniões de toda a gente, de críticos a fãs do actor - foi o que Phoenix esperava: a sociedade do espectáculo a funcionar, em todo o seu esplendor, assistindo à encenação da vida de uma celebridade, da sua ascensão (a nomeação para o Oscar em Walk the Line) à queda, até à redenção, que seria a aparição no festival de cinema de Veneza na estreia do suposto documentário, realizado por Casey Affleck (também ele actor, para além de ser seu cunhado). O suspense manteve-se durante todo este tempo, mas já poucos acreditavam na farsa ensaiada por Phoenix e Affleck. Finalmente, o realizador do falso filme revelou a verdade, reafirmando a pureza de intenções - uma reflexão, em forma de mock documentary, no estilo das performances de Sacha Baron Cohen ou de Andy Kaufman. Tudo muito bem, claro, mas podemos divagar um pouco sobre o acto: a novidade é impossível, tudo já foi tentado antes. Claro, a encenação de dois anos cai nesta categoria. E a suposta reflexão sobre o star system tem pouca razão de ser; todas as celebridades parecem representar um papel que se aproxima de uma persona real: Britney Spears brincou à menina inocente tornada rebelde pela força das circunstâncias, Lindsay Lohan parece adequar-se ao seu papel de fora-da-lei rica e mimada, Pete Doherty é o heroin chic do momento (distante da verosimilhança de um Kurt Cobain, por exemplo), Amy Winehouse simula gostar de cambalear em palco tornando-se vítima da sua própria encenação. O mundo é um palco, mas Joaquin Phoenix e Casey Affleck, pese embora os eventuais méritos que o mockumentary possa ter, limitam-se a recuar um pouco mais a câmara, mostrando o backstage da encenação, descobrindo as costuras do fato. Nada de novo, portanto, tudo de igual na frente ocidental, e até a verdadeira morte do irmão de Joaquin, River Phoenix, de outra doença das celebridades, overdose, retira seriedade ao projecto. E, para cúmulo, a minha opinião sobre o assunto deverá ter sido repetida, pela Internet fora, milhares de vezes. Original? Nunca, a impossibilidade prática.

Credibilidade

Sérgio Lavos, 02.02.10
A credibilidade de Mário Crespo enquanto jornalista e/ou figura hipoteticamente próxima do PSD será o ponto onde se irá jogar o caso do almoço das calhandreiras. Ora, isso deveria ser o que menos interessa neste caso; seria mais construtivo tentar saber se as fontes do jornalista são credíveis e, partindo daí, tentar perceber de que modo se equivale este caso a outras anteriores polémicas com os media, deste e sobretudo de anteriores governos. Por exemplo, haver notícias de supostas pressões para despedir uma figura política e/ou mediática de um espaço de comentário na televisão é suficientemente grave para a descredibilização de um governo, ao ponto de levar a uma intervenção presidencial? E, a ser verdade o que Mário Crespo conta, quem é o executivo de televisão que escutava atentamente o Primeiro-Ministro, o Ministro de Estado e o Ministro da Presidência em dia de apresentação ao Parlamento do Orçamento de Estado?

Talvez na resposta a esta última pergunta resida a única falha formal do artigo de opinião de Mário Crespo. Tudo o resto me parece claro como água, ainda por cima quando Crespo garante que confirmou com mais do que uma fonte os factos relatados. Não se pode continuar a sacudir a água do capote e a desculpar tudo por razões de proximidade ideológica - é de aproveitar, quando alguém é tão directo como Mário Crespo foi.

A investigação em directo

Sérgio Lavos, 26.01.10
Ontem, foi chumbada no Conselho Europeu a proposta para discutir a questão do conflito de interesses de membros da Organização Mundial de Saúde, em concreto a proximidade que alguns têm à indústria farmacêutica que lucrou com a declaração de pandemia da gripe A. Julgo que não se ficará por aqui o esforço dos parlamentares que querem saber as razões que levaram a que dezenas de países gastassem milhões em vacinas e medicamentos anti-virais (em tempos de crise) que acabaram por não ser utilizados.

Mas a questão que temos de colocar é esta: abrirão um dia os telejornais com a notícia da investigação à actuação da OMS neste caso da pseudo-pandemia? Dormiremos mais descansados, então?

(Já agora, será que é possível algum órgão de informação investigar e divulgar o número de pessoas que morreram em Portugal em consequência da gripe sazonal, a partir do momento em que foi declarada a pandemia de gripe A? Não é para isso que também serve o jornalismo?)

Olhar o sofrimento dos outros

Sérgio Lavos, 14.01.10
A história repete-se, a cada caso "dramático", a cada "tragédia humana". Começa por ser apenas uma notícia, o relatar dos factos, os números, as opiniões, o que verdadeiramente interessa. Mas, passados alguns minutos de outras notícias à volta do caso, a redundância começa a instalar-se: são entrevistadas personagens que nada têm que ver com o caso, jornalistas entram em directo do local sem ter nada para dizer, convida-se "especialistas", comentadores, figuras mais ou menos públicas, e passa-se da redundância à exploração de uma notícia, ao sensacionalismo, tal como ele pode ser definido. Ao fim de quinze, vinte minutos, chegamos à caricatura de jornalismo: "populares" que nada viram mas são agressivamente questionados pelo jornalista no local, câmaras a rodopiar em estúdio fazendo reportagem sobre o trabalho dos jornalistas, conferências oportunistas de membros do governo em directo para as televisões. Tudo volta uma vez mais a acontecer: o Jornal da Tarde da RTP 1 de hoje foi um exemplo típico, como o será o Telejornal da noite. A determinada altura, houve um directo numa sala das instalações da RTP onde uma jornalista (?) falou do trabalho de colegas que cobriam os acontecimentos pós-terramoto. Depois, a conferência de imprensa do Ministro da Administração Interna, Rui Pereira, a explicar que Portugal irá enviar donativos ao povo que sofre, mantendo um hábito cultivado pelos políticos, o de explorar a miséria humana em proveito próprio. Não seria suficiente um comunicado, o pudor, o respeito, em vez do espalhafato do directo para os telejornais? E depois, a cereja no topo, o regresso à tal sala e entrevista aos trabalhadores que acompanham nos bastidores da notícia. Foi no Haiti, a tragédia, e foi apenas a repetição de um hábito; e todas as televisões se repetem, até à náusea, até a única opção possível ser desviar o olhar e não pensar no sofrimento do Outro. A hiper-mediatização da realidade funcionando em todo o seu esplendor - admirável mundo novo.

Mad Men

Sérgio Lavos, 10.01.10

Há um filão que parece não se esgotar na produção televisiva americana - e a única maneira que temos de beneficiar desta época de ouro é ver as séries, tarde e a más horas, em canais por cabo ou em DVD. Não vale a pena lamentar os enchidos de novelas ao serão em vez de produtos acima de qualquer suspeita; na cabeça dos programadores das televisões nacionais o lucro é sinónimo de oferecer ao povo aquilo que este pensa que quer - velha história. A verdade é que estas séries passam nos E.UA. em prime time, sendo sinónimo de audiência garantida para os canais nacionais americanos - e falamos "apenas" de House, Perdidos ou Flashforward, por exemplo. Não lamentemos, então, e saboreemos em doses mais ou menos homeopáticas o que vai sendo importado.

A RTP 2, lembrando-se de que também tem uma função de serviço público, vai passando diariamente, depois do seu serviço noticioso, uma amostra desta produção. Actualmente, destaca-se
Mad Men, às sextas-feiras. A série retrata as vidas de um conjunto de publicitários americanos na transição dos anos 50 para os 60. Os optimistas 50 terminavam, os revoltosos 60 começavam, e tudo estava prestes a mudar. O que é extraordinário é o ponto de partida da série: a estrutura folhetinesca, que por vezes até faz lembrar uma qualquer novela, é de uma simplicidade aparente: os diálogos são inteligentes, a fotografia e os cenários exemplares, reconstituindo a época de acordo com a imagem que temos dela (a imagem criada, é certo) e o trabalho de câmara tem quase sempre uma qualidade cinematográfica - como alguém já escreveu algures, Mad Men é melhor do que 90% dos filmes que são produzidos nos E.U.A. Está lá tudo: os hábitos que agora são considerados politicamente incorrectos - fumar, bater nos filhos, sujar os espaços públicos; o lugar da mulher na sociedade, muito distante do que entretanto já foi conquistado; os conflitos raciais; o aparecimento de uma nova classe burguesa, que precede em duas décadas o predomínio dos yuppies.
Precisamos de conhecer o passado para entender e aceitar o presente. Em apenas quarenta anos, o mundo ficou completamente diferente; os valores não são perenes, como já devia saber quem luta contra a mudança, principalmente quando a mudança pode levar a mais igualdade e justiça. Mad Men é a série ideal para se perceber esta ideia.

Quem vê TV sofre mais do que no WC

Daniel Oliveira, 05.06.08
Acho inacreditável que as televisões ainda não tenham feito reportagens aprofundadas sobre as actividades fisiológicas dos jogadores da selecção. Já tudo foi motivo de aturada análise e reflexão. Como podemos ficar na completa ignorância em relação às idas dos jogadores, seleccionador e equipa técnica à casa de banho? Qual a frequência? Vão de manhã ou mais à noite? Qual a cor? E a consistência? Neste país o que é realmente importante é sempre tratado pela rama.

Do hábito da lamúria à verdade dos números

Daniel Oliveira, 28.05.08
Principais queixas: a RTP beneficia o governo; o Bloco de Esquerda é levado ao colo.
Principais conclusões da ERC em relação ao ano de 2007: a SIC dá mais espaço ao PS e ao governo do que a RTP; com votações semelhantes ao CDS e ao PCP, o BE tem de três a cinco vezes menos notícias que o CDS e três vezes menos do que o PCP.