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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Parvo é quem não vê

Miguel Cardina, 01.02.11

 

Não tive a sorte de assistir ao concerto que na semana passada os Deolinda deram no Coliseu do Porto. Mas basta ver o vídeo para nos apercebermos que algo de significativo aconteceu. A dado momento, Ana Bacalhau anuncia que vai cantar uma música nova e não foi preciso chegarmos ao fim da canção para termos a certeza que nascera um hino. A comunhão entre a banda e o público mostrava que aquelas eram as palavras de uma inteira geração. De uma geração que estudou mas que não tem perspectivas, de uma geração que anseia por estabilidade familiar mas que vive enredada na precariedade, de uma geração que já não tem grandes cartilhas ideológicas mas que não permanecerá para sempre no desânimo e na apatia.

 

Houve quem dissesse que renascera a canção de intervenção. Talvez. No fundo, ela verdadeiramente nunca morreu. O campo musical português está cheio de exemplos de letras combativas, e não é preciso sequer remetermo-nos para o domínio do hip-hop. Veja-se por exemplo a poética artesanal cultivada por Pedro e Diana. Mas o que ali aconteceu foi diferente: a insatisfação de uma parte considerável da sociedade tinha encontrado maneira de se dizer. E se isso também não é novo - há quanto tempo andamos a falar de precariado, de falsos recibos verdes, de geração bloqueada? - aquele momento trouxe alguma coisa que faltava: uma linguagem simples para falar de experiências comuns.

 

A política não se confunde com uma canção, mas os sentimentos de pertença colectiva constroem-se de várias maneiras. E o que os Deolinda fizeram foi dar voz a esse sentimento. De repente, a vida adiada de cada um e de cada uma tornou-se parte de um todo. O reconhecimento desse "mundo tão parvo em que para ser escravo é preciso estudar" exorcizou um pouco a realidade. Chega? Não chega. Mas naquela noite a impotência morreu um bocadinho mais.

Led Zeppelin/Immigrant Song

Sérgio Lavos, 30.10.10


Há quem goste, nestes dias cinzentos, de ouvir música melancólica, sentado no sofá, a olhar para a chuva lá fora. Certamente haverá bandas-sonoras perfeitas para este estado de espírito. E admito já ter caído uma ou duas vezes nesse erro. Mas quando estamos limitados a um espaço reduzido e não queremos, de modo algum, cedermos a uma peregrinação ao centro comercial, juntando-nos ao desfile de zombies de fim-de-semana que não encontram nada de melhor para fazer do que olhar para as montras repletas de produtos que não podem comprar, o melhor é, no intervalo de um ou outro filme idiota que os canais nacionais nos costumam oferecer nestes dias, ouvir os clássicos.

Os clássicos, não aqueles discos do nosso crescimento - não queremos que a nostalgia dê cabo de um prazer único. Clássicos, os álbuns intemporais que chegaram até nós depois de gerações inteiras terem-nos fixados no cânone do rock. Não sinto qualquer vergonha em afirmar que apenas muito recentemente compreendi o fascínio de muitos perante os Led Zeppelin. Não terá acontecido antes por nunca ter prestado a atenção devida à melhor série de quatro álbuns da história (se excluirmos da contagem os Beatles a partir de Rubber Soul). Confesso que parte da razão da minha teimosia se funda num acidente biográfico: conheci em tempos um fanático da banda por quem não nutria muito respeito, e o preconceito sentido em relação à personagem acabou por se estender à música. Mas depois de algumas audições avulsas, admito que todo este tempo estava errado.

Immigrant Song é essencial não apenas por ser percursora do heavy-metal. Independentemente deste som ter definido um estilo musical, esta é um grande canção pela que será melhor combinação bateria/baixo/guitarra de sempre. Ao riff perfeito de Jimmy Page junta-se a bateria genial de John Bonham e o baixo acelerado de John Paul Jones. A voz de Plant confere um toque demoníaco ao conjunto; dando razão aos pais e aos avós que em tempos achavam ser o rock a música do diabo. Valha-nos deus por isso.

Os clássicos num dia de chuva. Valhalla, I am coming!

(Para uma versão ao vivo, impossível de incorporar no post, ir aqui.)

Nirvana/Lithium

Sérgio Lavos, 27.09.10

Agora que já tenho idade, e portanto juízo, suficiente para julgar os Nirvana pela qualidade musical, e valorizar esse lado da banda mais do que a simbologia que lhe está associada, lembro-me de um tempo em que a música pouco tinha a ver com grandes músicos, refrões marcantes ou riffs de bateria irrepreensíveis. Quando gostava de música sem saber muito bem porquê, sem conhecer o suficiente nem ter lido uns quantos livros sobre a razão de gostar. Nirvana foi música em estado puro, sem racionalização absurda ou relativizações imbecis e redutoras. Tenho saudade disso. Da pureza e da descoberta, a sequência perfeita desse meio termo romântico entre o fim da adolescência e o princípio da idade adulta. Espero que os putos de agora ainda saibam sentir isso.  Acima de tudo, procurar.

Let's Go Surfing/The Drums

Sérgio Lavos, 31.07.10


Nunca se deve menosprezar o poder do assobio (esqueçamos os Scorpions) numa música pop, principalmente quando ela fala de praia, sol e miúdas. Os coros uma oitava acima e as harmonias vocais também costumam resultar - os Beach Boys deixaram uma lição valiosa. Junte-se a estes pressupostos a natureza passageira do Verão e já se pode ter uma boa canção. E se houver uma fixação pelos sons da new wave, versão anos 80, principalmente a facção Joy Division/New Order, sendo que aos primeiros pode-se ir buscar a bateria minimalista e a guitarra limitada de Bernard Sumner (os Cure também andam por aqui) e aos segundos a leveza vocal que estava ausente dos primeiros (a morte de Ian Curtis permitiu essa evolução), temos material mais do que suficiente para um feel good hit of the summer. Há uns anos foram os Peter, Bjorn and John (imediatamente seguidos de David Fonseca), agora há The Drums, com um álbum (Summertime! é o EP de 2009 que também inclui esta faixa) entre a nostalgia urbano-depressiva e a euforia do som de Brooklyn, versão Vampire Weekend e LCD Soundsystem, com passagem pela pop dos 80 (a minha década preferida), de Housemartins a Jesus and Mary Chain. E os Beach Boys sempre a espreitar. Combinação que primeiro se estranha, mas depois entranha-se, e bem. Durará o que durar esta estação. E já é muito.

No One Knows/Queens of the Stone Age

Sérgio Lavos, 11.07.10


Muitas vezes, a música pop é feita de transições na vida de uma banda que incluem saída e entrada de músicos, acasos que redefinem o som e muitas vezes a própria história da música.

Em 2002, os Queens of the Stone Age já tinham dois bons álbuns publicados, Rated R e o primeiro, homónimo. Os Foo Fighters eram uma das grandes bandas rock de época. Certamente que o êxito não seria suficiente para David Grohl, vocalista e guitarrista do projecto que sempre foi mais dele do que dos outros músicos que foram aparecendo nos álbuns e nos concertos, a ponto de no primeiro álbum ter tocado todos os instrumentos. Por um destes acasos, Grohl interessou-se pelos QOTSA e juntou-se a Josh Homme (que já nos anos 90 tinha estado numa banda marcante, os Kyuss, e a Mark Lannegan, antigo membro de outro projecto dos anos 90 que definiu o som da época, os Screaming Trees. O resultado desta cadeia de acasos foi um dos mais poderosos álbuns rock da história, Songs for the Deaf.

Aos riffs ácidos da guitarra de Homme juntou-se o baixo speedado de Nick Oliveri (membro fundador da banda) e a guitarra melódica de Lannegan. Já seria muito bom, este line up, mas o ingrediente que elevou o álbum a níveis estratoféricos foi a bateria de Grohl. Há quem fale de John Bonham como eventual competidor de Grohl. Eu acrescentaria também Keith Moon e Reni (Stone Roses) e não deixaria de gostar bastante do minimalismo de Stephen Morris (nos Joy Division). Mas sem dúvida (e talvez por ter crescido a ouvir Grohl nos Nirvana) que o duvidoso frontman de uma banda que nada de novo trouxe à música rock (os Foo Fighters) está neste Olimpo por mérito próprio, e muito à conta do seu trabalho neste magnífico álbum dos Queens of the Stone Age. Os riffs são certeiros e deslumbrantes e os solos são estonteantes - e todos os outros instrumentos vão atrás do trabalho do baterista. É claro que as melodias vocais de Homme e Lannegan, contrastantes com o som cru das guitarras, procuram, sobretudo nos dois singles mais conhecidos (No One Knows e Go With the Flow), a perfeição pop e a consequente consagração das tabelas. Mas o segredo do álbum (que não voltou a ser repetido nos que se seguiram) é a secção rítmica liderada pelo génio de Grohl. Passávamos bem sem um Grohl vocalista e guitarrista, mas se são os Foo Fighters que temos de suportar para ouvirmos estas aventuras de vez em quando, menos mal.

She Bangs the Drums/The Stone Roses

Sérgio Lavos, 01.07.10


Os Stone Roses levaram anos a criar a obra-prima; e demoraram alguns mais a produzir uns dos segundos álbuns mais aguardados de sempre - ou assim me parecia, julgando pela histeria da imprensa inglesa que eu na altura lia, as manchetes do New Musical Express e do Melody Maker em pleno período de euforia britpop. O segundo álbum, Second Coming, deu cabo da reputação da banda e esta acabaria por se separar pouco tempo depois deste ser publicado (1994), em 1996, em consequência da saída do guitarrista John Squire e do baterista Reni. Pelo meio, Slash ofereceu-se para substituir Squire mas Ian Brown recusou - e continuo a imaginar o que poderia ser o som Stone Roses cortado com a guitarra hard-rock dos ex-guitarrista dos Guns'n'Roses.

De um som inspirado nos Who e nos Jam ao groove do primeiro álbum, homónimo, - o resultado desses anos passados. O sussurro de Brown para disfarçar a fragilidade da voz, uma secção rítmica do outro mundo (Reni e Mani), a guitarra entre o blues e o swing de John Squire. E um talento invulgar da banda para tornar cada música num épico, com mudanças de ritmo, crescendos emocionais, variações melódicas e apontamentos psicadélicos de guitarra resgatados à década de 60.

She Bangs the Drums é a perfeita música pop, uma de muitas naquele que é um dos melhores primeiros álbuns de sempre. Como dura apenas três minutos e quarenta e três segundos, só nos resta ouvir em repeat. E é sempre perfeita.

Álbum: The Stone Roses, Silvertone, 1989, produzido por John Leckie.

Mais quatro anos

Sérgio Lavos, 30.06.10


Lembrei-me desta música do Bob Dylan ontem à noite, quando pensava no que haveria de escrever sobre a derrota da selecção portuguesa, mas como não tinha qualquer obrigação, deixei para hoje, quando já deixou de ser assunto do dia. A música de Bob Dylan foi o hino informal da selecção de Scolari no Europeu de 2008 e aparecia num anúncio da Galp. Nunca cheguei a perceber por que razão Dylan acedeu a que a música fosse usada para tais fins, mas no fundo quem ficou a ganhar foi a equipa portuguesa - e acabaria por se ficar pelos quartos-de-final*, no fim de contas o nosso lugar natural.

Somos obrigados a ver as coisas de modo realista: uma selecção que joga contra a melhor equipa europeia com uma ala direita composta por Ricardo Costa e Simão está a brincar perigosamente com o destino, neste caso arriscando a eliminação na altura certa. Continuo a achar que tivemos três azares neste campeonato: a lesão de Bosingwa; a lesão de Nani; o carácter de Carlos Queiroz. Sinceramente, e arriscando uma espécie de futurologia retroactiva, não estou a ver Bosingwa a ser ultrapassado cerca de 150 vezes sem fazer uma falta que se visse, como ontem aconteceu com Costa. O rapaz não tem culpa, de resto, visto que nem Ronaldo nem Simão tiveram um treinador que os obrigasse a descer e a ajudar o defesa direito. Relembremos: Carlos Queiroz teve noventa minutos para fazer qualquer coisa em relação à permanente ameaça de um Villa encostado à esquerda. Duvido que tenha sequer percebido a natureza da ameaça. Um defesa apenas seria sempre insuficiente; um Ricardo Costa foi um convite à miséria. Não interessa que o árbitro fosse hispânico ou o ridículo que é comparar os dois pontas-de-lança que levámos (Hugo Almeida e Liedson) com os das outras equipas de topo (Villa, Torres, Higuain, Tevez, Milito, Aguero, Klose, Cacau, Luís Fabiano, Van Persie, Fórlan, Suarez), por muito que nos custe ver Almeida falhar um centro milimétrico de Meireles na primeira parte. As insuficiências individuais e o egoísmo desvairado de Ronaldo poderiam ter sido mitigados se Queiroz soubesse como aplicar de forma competente a lição de Mourinho perante o Barcelona. Já que jogámos à defesa, então era preciso ter sido levado a sério o empreendimento. Mourinho, quando hoje falou do empenhamento defensivo de Eto'o em comparação com o desacerto de Simão, disse tudo. Queiroz quis defender com jogadores que, ou não o sabem fazer, ou não estão para aí virados, até porque já se percebeu que não existe qualquer empatia entre o treinador e os homens que dirige. E, consequentemente, falhou. O que mais doeu foi ter falhado frente uma equipa que joga bem mas é entediadamente previsível, ainda mais do que o Barcelona. Podem ser campeões do mundo, há piores destinos, mas apenas se não apanharem a Alemanha pela frente. Não estou a ver o tiki-taka a não ser dominado pelo estilo atacante e imprevisível da Mannschaft.

Agora que chegámos ao campeonato a sério e os adeptos sazonais dos grandes campeonatos de selecções vão deixar de incomodar, desfrutemos do que resta como deveria sempre ser, sem qualquer tipo de ansiedade patriótica ou outra fraqueza do género; futebol sem espinhas.

*corrigido.

Drunk girls/LCD Soundsystem

Sérgio Lavos, 03.06.10


O novo álbum dos LCD Soundsystem saiu o mês passado. A receita de James Murphy não mudou, e ainda bem: This is Happening consegue ser tão excelente como os dois anteriores. Batidas electrónicas e bateria, sintetizadores analógicos e guitarra, baixo sintetizado e baixo tradicional. O crossover de instrumentos tem perfeita correspondência nos estilos: de Kraftwerk a Wire é apenas um pulinho, de Human League a Strokes também. E David Bowie é um convidado habitual, que agora regressa. A trepidação das músicas mais mexidas é temperada aqui e ali por algum baladismo de bom-gosto para acalmar o balanço, como os clássicos faziam. Ideal para o verão - e eles vêm cá, ao Optimus Alive*. Drunk Girls é o primeiro single e é mais um hino ao hedonismo e à noite nova-iorquina, tema que se repete nas letras de Murphy. E de cada vez que se ouve, soa melhor.

*Obrigado pela correcção, caro comentador Não Interessa.