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Arrastão: Os suspeitos do costume.

O outro Apartheid

Daniel Oliveira, 20.05.08


Os mesmos que viveram debaixo do abjecto Apartheid atacam agora imigrantes de Moçambique e do Zimbabwe, culpando-os pela sua pobreza. O racismo vive da estupidez e do egoísmo. Aqui ou na África do Sul. E não escolhe cores. Escolhe sempre os mais miseráveis entre os miseráveis. Os mais fracos entre os mais fracos. E, mesmo quando os agressores são pobres, não merece desculpa. Nem aqui nem na África do Sul. Porque quem escolhe o mais fraco para descarregar a sua revolta é tão opressor como o que o oprime. E igualmente cobarde. Não merece desculpa.

É à confiança

Daniel Oliveira, 11.02.08

Inquérito

Daniel Oliveira, 26.12.07
À pergunta "Concorda com a alteração da Lei Eleitoral Autárquica nos moldes que estão a ser negociados entre o PS e o PSD?" 225 leitores (73%) responderam que "não" e 82 (27%) disseram que "sim".

Novo inquérito na coluna da direita: "Qual a figura mais relevante de 2007?" Escolhi 10 políticos internacionais: Al Gore, Durão Barroso, George Bush, Hu Jintao, Hugo Chávez, Mahmoud Ahmadinejad, Nicolas Sarkozy, Robert Mogabe, Tony Blair e Vladimir Putin. Podia ter escolhido outros, mas estes parecem-me cobrir os principais acontecimentos políticos do ano. A ideia não é saber qual agrada ou desagrada mais aos leitores, mas apenas qual terá sido o que mais marcou o ano que agora acaba.

Indignação europeia

Daniel Oliveira, 10.12.07


Acabada a cimeira fica esta saudável indignação dos europeus com o desrespeito pelos direitos humanos em África. Eu acompanho. Guardando uma cautelosa distância dos que, por detrás de tanta indignação, parecem esconder uma leve saudade dos tempos em que os direitos humanos em África estavam a cargo da Europa. Isso é história, dirão. Será, mas não deixa de ser significativo que no meio de tanto talhante que passou por Lisboa o único cuja a presença causou um incidente diplomático tenha sido aquele que na matança não se ficou pelos negros. Há quem, nestas matérias, nunca se esqueça quem realmente interessa.

Por mim, acho que os africanos devem ser responsáveis pelo seu presente e parece-me que a necessidade de nós carregarmos o fardo da história não estará no topo das suas prioridades. É-lhes mais útil da nossa solidariedade do que da nossa culpa. Até porque os colonos sairam de África há algum tempo. O que me preocupa, mais por nós do que por eles, é que não tenham saído da cabeça de muitos europeus.

Chicken Madness

Daniel Oliveira, 09.12.07
As relações com África e a globalização assimétrica explicada através de galinhas. Ao que parece, os europeus gostam do peito do frango. Por isso, exportam ao resto (as pernas) para África a preços imbatíveis. Resultado: os avicultores africanos nada podem fazer para competir. Um exemplo, a partir de uma história de galinhas nos Camarões, de como uma economia africana pode ser dizimada. Dirão: sendo mais barato os africanos ficam a ganhar. Não. Porque vendo as suas actividades económicas desfeitas, sem fundos para as financiar (como fazem os europeus) e impedidos de se protegerem pelas regras impostas pelos países ricos ou pela corrupção nos seus países, pagam a diferença de preço com a miséria. Uma demonstração de como o mercado livre é selectivo.
Uma reportagem de Marcello Faraggi. Pode ler mais aqui.

Quem disse que não?

Daniel Oliveira, 09.12.07


Curioso que não tenha sido um déspota a abandonar a cimeira UE/África, mas o Presidente do Senegal. Talvez aquele a quem não basta pagar a sobrevivência política para aceitar tudo. Em causa estão os Acordos de Parceria Económica, que mantendo todas as políticas de protecção à economia europeia, obrigam África a abrir os seus mercados, desprotegendo-a completamente. Os acordos bilaterais de comércio livre são também uma forma de dividir para reinar. Tentando competir com a China, a Europa quer obrigar os países africanos a garantir os interesses europeus, sem qualquer preocupação com os seus próprios interesses.

Aproveito para esclarecer a minha posição sobre a questão do proteccionismo, respondendo a este post do Nuno Teles: não considero o proteccionismo inaceitável em qualquer circunstância. Considero-o autista quando é usado por países mais ricos para a defesa de direitos sociais perante a competição das economias emergentes. E inaceitável de um ponto de vista de esquerda. Porque ergue uma fortaleza económica e de bem-estar que perpetua a miséria para lá do muro. Não se trata apenas de voluntarismo da minha parte. Esta estratégia está condenada. O que não nos entra pela porta entrará pela janela e a escolha é contribuir para a prosperidade dos outros (e nossa) ou importar miséria. Neste sentido, concordo com o o que João Rodrigues diz sobre o proteccionismo neste post em resposta ao meu.

O proteccionismo, como a sua ausência, são assimétricos e é tendo isso em conta, e não posições de principio, que deve ser avaliado. Nesse sentido, só seria possível defender a abertura completa de mercados quando as economias do "primeiro" e do "terceiro mundo" estivessem em pé de igualdade na sua capacidade de impor as regras que neles vigoram, o que não é definitivamente o que sucede hoje. Assim como devemos saber que o proteccionismo pode ser uma arma destruidora da capacidade económica dos mais pobres. Não se trata de paternalismo, apenas da defesa de regras justas. Até porque estou convencido que os trabalhadores dos países desenvolvidos só têm a ganhar com o crescimento económico dos países mais pobres. E têm tudo a perder com a miséria alheia.

Quando me recuso a aliar-me às posições anti-globalização nacionalistas, respondo em defesa de uma globalização regulada e não de uma globalização sem regras. Até porque a ausência de regras tem sempre como regra a vontade dos mais fortes.

Fez por isso muito bem Abdoulaye Wade (manifestando a mesma posição da generalidade das ONG africanas e europeias) em dar um murro na mesa.

Cuba, Une Odysée Africaine

Daniel Oliveira, 23.10.07

Discurso de Che Guevara sobre o Imperialismo e a morte de Patrice Lumumba, que parcialmente aparece no documentário

Através do envolvimento cubano nos conflitos africanos temos um excelente retrato da guerra fria e do preço que África pagou por ela. “Cuba, Une Odysée Africaine”, de Jihan El Tahri, começa no Congo, com a morte de Patrice Lumumba. É interessante, antes de mais, perceber como começaram soviéticos e americanos a pôr e depor governos, a alimentar guerras civis, a fazer o seu combate por procuração em terra alheia. Como a escolha dos seus aliados poucas vezes foi ideológica. O assassinato de Lumumba é talvez o primeiro sinal para África: a sua independência seria apenas aparente.

Apesar de não ser esse o tema, fica também evidente o génio político e a astúcia diplomática e militar de Fidel Castro em comparação com a infantilidade e inexperiência de Che Guevara.

O documentário começa então com o Congo e a ida de Che Guevara para a sua aventura africana, que foi uma desgraça. O envolvimento mais directo de Fidel Castro vem depois. Começando por escolher entre os dirigentes de libertação nacional africanos os que lhe pareciam mais capazes para, a partir deles, definir qual seria o papel cubano no continente. E não poderia ter sido mais clarividente, ao optar pelo mais inteligente (politica e militarmente) dos líderes nacionalistas africanos: Amílcar Cabral.

O documentário acompanha a estratégia de desgaste militar imposta por Cabral aos portugueses e o papel dos cubanos na guerra colonial. Passa depois para Angola, sobretudo para a guerra civil. Como os cubanos trocaram as voltas aos soviéticos e os obrigaram a escolher um lado (ao contrário do que os próprios americanos pensavam então). A tese do documentário parece ser a de que foi Cuba a desequilibrar a balança na luta pelo poder em África.

Um documentário excelentes, com excelentes depoimentos, que quase deita tudo a perder no fim, quando a frieza da análise é substituída pela ingenuidade poética um pouco deslocada para o tema.