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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Pensamento mutilado

Sérgio Lavos, 21.02.12

Reflexão interessante de José Gil - o seu texto vai muito além da argumentação mais comum contra o novo AO. O Acordo não "mutila o pensamento", simplesmente o transforma. A questão é, e será sempre: a língua terá de ser regida por um Acordo, seja o de agora, seja o de 1911, seja o do latim escrito das classes altas de Roma Antiga. E pensamos de acordo com o acordo que usamos. Mas será um melhor do que o outro? Heidegger achava que o pensamento nunca teria atingido patamares tão elevados como na Grécia Antiga, precisamente por causa da língua que os filósofos e os poetas da época falavam. Maior complexidade gramatical permite uma maior amplitude do pensamento. Difícil discordar. Mas com o AO não são as regras gramaticais que mudam, mas sim a grafia. Será preciso mais do que uma profissão de fé para se provar que a língua ficará mais pobre com a mudança. E precisamente porque os grandes escritores infrigem e ultrapassam as regras da língua que usam, "quando o espaço virtual de liberdade interna da língua se solta e ousa, para além do uso rotineiro e correcto da gramática", é que o AO não "mutila o pensamento". Um criador precisa de regras para as poder quebrar, torcer, manipular. Para descobrir uma nova linguagem, um outro pensamento. Um Acordo é como se fosse um obstáculo que se evita, apenas para se descobrir um caminho escondido. Seja este ou outro, em qualquer tempo.

Camoens não apoia o antigo Acordo Ortográfico

Sérgio Lavos, 10.02.12

 

 

Decidiu Manuel Villaverde Cabral (MVC) criticar a crónica de Rui Tavares (RT), por sinal bem esgalhada, sobre o "accordo ortográfico" renegado por Vasco Graça Moura no seu feudo cultural de Belém. Fez bem, a discussão terá de ser feita, ou, para o caso, refeita, porque andou-se vinte anos com o acordo pendurado, com poucas vozes discordantes (diga-se que VGM tem sido um incansável herói da luta anti-acordo, alma lírica de uma luta perdida à partida) e apenas agora, que o dito VGM foi alçado a uma posição de pequeno poder, todos os opositores do acordo começaram a... opor-se; ter-se-ão lembrado demasiado tarde, mas que diabo, isso é um pormenor.

 

Adiante. Vamos passar por cima da elaboração qualificativa do tom do texto de Rui Tavares; se MVC não compreendeu a jocosidade da crónica de RT ("pretensamente" é o advérbio escolhido), é pena; o texto é bastante divertido, no tom faceto e na, de algum modo trabalhosa, transcrição para português anterior ao acordo de 1911. De certo modo, esta seriedade de MVC - na qual é acompanhado pela maioria do detractores do AO, VGM à cabeça - é uma das principais razões para a minha simpatia tender para a criação de um acordo. Não necessariamente este, mas um acordo que permita uma aproximação entre as diferentes variedades linguísticas da língua portuguesa. No fundo, trata-se de uma questão estética. Careta é o termo brasileiro que me ocorre ao lembrar-me desta gente séria, mas isso sou eu, que, independentemente da regra linguística em vigor, escrevo, bem ou mal, como quero e me apetece, o que, não tenhamos ilusões, corresponde a afirmar que escrevo conforme me ensinaram, pelo antigo acordo, aquele que foi assinado em 1911 e revisto em 1945.

 

 

 

- Texto escrito segundo um antiquíssimo Acordo Ortográfico -. 

Dom Quixote

Sérgio Lavos, 03.02.12

O Acordo Ortográfico, com todos os defeitos que certamente tem, foi aprovado pelo anterior Governo e começou a ser aplicado em todas as comunicações de serviços ligados ao aparelho de Estado. Incluindo o CCB. A ordem de Vasco Graça Moura não é corajosa; é prepotente, o estéril gesto de um velho marreta lutando contra a mudança. Vasco Graça Moura não é o CCB, é apenas quem actualmente o dirige. Se quer realmente fazer a diferença, que convença o seu primeiro-ministro a tomar a decisão de rasgar o Acordo. Isto não passa de fogo-de-artifício, e um sintoma da desorientação que tomou conta deste Governo.

Viva língua

Sérgio Lavos, 01.08.11

 

Quando Fernando Pessoa escreveu “a minha pátria é a língua portuguesa”, já tinha havido uma tentativa séria de estabelecer uma norma linguística que visava sobretudo o controlo, pelo estado português, dessa norma. Depois desta frase, muitas tentativas foram feitas para que essa norma existisse. Em 1992, foi estabelecido o Acordo Ortográfico para os países de língua portuguesa. Agora, enquanto escrevo este texto, desrespeito o acordo que entrou em vigor este ano.

 

Contudo, não desrespeito a língua. Escrevo em português, e ao escrever produzo uma língua diferente da que falo. Fernando Pessoa, quando pensou essa frase, que tão bem tem servido os interesses de uma pátria que quase nunca respeita a herança deixada pelos grandes escritores do passado, não teria com certeza em mente esta irreprimível vontade de regular essa coisa volúvel (e como a palavra se aproxima de volúpia) que é a língua. A pátria de Fernando Pessoa foi o instrumento usado para deixar a sua marca no mundo. Criar uma nova língua dentro da língua que antes havia. E se outra prova não houvesse, bastaria o facto de esta, e outras frases, do poeta continuarem a ser repetidas mais de setenta anos depois da sua morte.

 

Duvido que os belos bastardos da língua portuguesa se interessem minimamente pelo Acordo Ortográfico, com a sua regra e a sua excepção, com as supostas vantagens comerciais desta normalização forçada. Não precisam, usam a língua portuguesa como pátria, e isso é suficiente. Mia Couto, Luandino Vieira, Ondjaki, Rubem Fonseca; tudo o que eles escrevem é prova dura a superar pelos académicos bafientos que querem impor regras gramaticais e ortográficas ao resto do mundo. José Saramago e seu desengonçado flamenco prova que nada é tão rígido que não possa ser dobrado pelos anos de contacto com outra língua – ninguém poderá recusar o enriquecimento estilístico que as derivações cervantinas que os últimos romances de Saramago trouxeram. Escrever abraçando a música de outra língua abre o leque, balança o swing das mãos sobre as teclas. Há quem ouça música de negros para escrever; talvez eu precise apenas de derrogar por momentos a autoridade do meu português num longínquo gingar brasileiro para que todo meu pensamento se mova e se contorça, perca a palidez da normalidade.

 

A questão é simples: queremos uma língua pura ou uma língua mestiça? A resposta é um pouco mais complexa do que poderia parecer. O Acordo visa normalizar a mestiçagem da língua. E isso, parece-me bem claro, é um paradoxo. Nenhuma norma poderá obrigar um português a escrever como um brasileiro ou um angolano, e vice-versa. A mestiçagem é um fenómeno livre, o cruzamento de influências um fluxo libertário que não deverá ser constrangido. Ao defender isto, não colocamos em causa a existência de uma gramática. Ela existe, é verdade, e deverá existir, sobretudo para não ser respeitada. A tradição literária contemporânea vive desta liberdade. O uso de coloquialismos, calão, gíria de bandidos, é traço comum em muitos autores brasileiros actuais e começa a ser também em alguma literatura portuguesa. A invenção passa por aqui; e mesmo que continuemos a admirar o divino português do Padre António Vieira, as duas coisas não são incompatíveis: basta pensar nos diálogos nos filmes de João César Monteiro para se perceber isto.

 

A única posição esteticamente correcta nesta questão é esta: promover uma gramática comum a todos os países de língua portuguesa, na esperança de que esta seja continuamente desrespeitada por quem escreve e fala, contribuindo deste modo para que a língua portuguesa seja uma coisa viva, em permanente evolução, como qualquer língua deve ser. Se esta posição for a que vingar, não se duvide de que será o único modo de combater o predomínio da língua inglesa no actual mundo globalizado.

 

(Escrevi parte deste texto em 2008. Alterei algumas referências desactualizadas. Não mudei de opinião.)