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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Os incorruptíveis contra os políticos

Sérgio Lavos, 03.10.11

 

Nos anos 20 e 30, o crime organizado tomou conta de Chicago e de outras cidades americanas, aproveitando, inicialmente, a lei seca, e depois o clima de instabilidade provocado pela Grande Depressão. Os grandes chefes da Máfia viveram durante anos a fio em impunidade, estabelecendo um reino de medo e corrupção onde a lei não conseguia chegar.

 

Setenta anos depois, estamos em Portugal. O país embarcou numa crise perpétua - económica, financeira, moral. As instituições que deveriam ser os pilares da democracia - a Assembleia e o Governo, a Justiça e a Presidência da República - foram corroídas até à medula por jogos de interesses, num corropio de políticos, ora lutando pelo melhor lugar numa empresa dependente do Estado, ora beneficiando novos e velhos amigos em negócios que envolvem decisões governamentais. Autarcas condenados pela Justiça não acabam na prisão. Empresários corruptos e corrompidos contam com a cumplicidade de advogados e de um sistema judicial lento e apodrecido para ir adiando ad nauseam julgamentos e execuções de sentenças. O povo esse, está sereno. Está sereno porque tem medo de perder tudo o que comprou com os créditos concedidos durante os bonançosos anos 90. Um medo que não nasce da violência bruta, como acontecia na América das décadas 20 e 30, mas de uma vontade de manter um nível de vida que se vê ameaçado. O Governo ajuda, veiculando através da polícia ameças menos do que vagas aos prováveis contestários deste estado de coisas. Os media vivem estrangulados pelo poder económico que os detém; a liberdade de imprensa foi substituída por um simulacro. Vivemos num mundo em que os jornais e as televisões parecem dizer toda a verdade, quando apenas são correntes de transmissão de poderes mais altos do que eles. Os poucos jornalistas independentes definham nas redacções, incapazes de contornar aquilo que lhes é mais imediato: a necessidade de manterem os seus empregos.

 

Um cenário de catástrofe? Não, a profecia Maia diz que apenas para o ano a brincadeira acaba, e não há razões para achar o contrário. Mas quando chegamos ao ponto de criminosos condenados pedirem o afastamento de um juiz inconveniente ao processo em que estão envolvidos, chegámos a Chicago. Quando loucos quase diagnosticados continuam a estrebuchar contra tudo e todos e ninguém os cala, chegámos aos tempos da lei seca. Relembre-se: Al Capone acabou por ser apanhado e condenado por fuga ao fisco. Não é um acaso: qualquer Estado chega mais depressa ao dinheiro dos impostos do que a tudo o resto. Contudo, nem isso podemos esperar de Portugal. A decadência deste povo peninsular não é um estado de espírito.

Ocultar a dívida

Sérgio Lavos, 26.09.11

Parece que Alberto João Jardim e Angela Merkel aprenderam a gerir dinheiros públicos na mesma escola. E agora, será que a Alemanha vai ter de abdicar da sua soberania para poder cumprir os critérios de estabilidade? É que a partir dos 90% a dívida começa a esmagar o crescimento económico e a Alemanha parece que afinal já vai nos 185%, a um passo dos 186 da Grécia e distanciando largamente a Itália (120%), Portugal e a Espanha. Quererá a pátria de Frau Merkel entrar para o quadro de desonra do Euro?

Ele fez, é certo, mas não é o único

Sérgio Lavos, 18.09.11

 

A defesa de Alberto João Jardim que tem sido ensaiada pela maior parte dos comentadores e bloguers de direita assenta num único pressuposto: o governante madeirense limitou-se a fazer o mesmo que José Sócrates antes dele, aumentando a dívida e ocultando números às entidades oficiais. Tal fraqueza na argumentação da direita é bem reveladora da ausência de alternativas ao regabofe que tem sido habitual na política portuguesa. Quando se tenta defender a tibieza do PSD - Passos Coelho e Cavaco Silva à cabeça - perante o desplante e o descalabro madeirense com acusações a anteriores governantes, está-se a legitimar a ilegalidade e o crime. Porque os que se lembram de Sócrates agora são os mesmos que andaram a pedir a cabeça do antigo PM durante anos e anos. Os pecados de Sócrates não limpam a pouca vergonha do conselheiro de estado. O argumento mais débil que se pode arranjar é desculpar-se com os outros. Para além disso, esconder do Governo central despesas astronómicas dificilmente se poderá comparar ao camuflar da dívida pública com receitas de origem dúbia. O que é grave nos eventuais crimes de Alberto João não é a má gestão dos dinheiros públicos; é ter ocultado desvios de fundos que não sabemos onde terão ido parar. Deste elefante na sala, o PM dificilmente poderá livrar-se; e o silêncio de Cavaco confirma a moral que lhe conhecemos. Uma moral feita de conivências e anuimentos perante os desaforos e as ilegalidades que a trupe laranja tem cometido. Se Cavaco não é culpado directo dos crimes do BPN e de Alberto João, é seguramente cúmplice da situação. E um dos principais culpados do desvanecimento moral a que o país está submetido.

A culpa irá morrer desavergonhadamente solteira

Sérgio Lavos, 17.09.11

 

Apesar dos lamentos de Passos Coelho sobre a "gravidade" da situação na Madeira, da gentil  lembrança do PR e da "análise" da Procuradoria-Geral da República, não tenho dúvidas de que nada vai acontecer a Alberto João Jardim, nem dentro do seu partido - a retirada da confiança política, como deveria ser - nem fora - a hipótese de alguma vez ser provado o crime de "dolo" com dinheiros públicos é risível. E toda a gente encara a impunidade com a maior das levezas, sabendo que o curso dos acontecimentos desemboca sempre em nada. A falência do país será coisa de pouca importância- moralmente, estamos falidos há muito.

O nosso homem em Chão da Lagoa

Sérgio Lavos, 01.08.11

 

A existência de Alberto João Jardim e a benevolência com que é olhado desde o Continente já deixou há muito de ser um caso de estudo da democracia portuguesa; ele é o sintoma mais claro da doença do regime. Acolitado pelo PSD nacional e tolerado pelos outros partidos do centrão, João Jardim, à maneira de um soba africano, ergueu sobre as frágeis fundações do 25 de Abril um autêntico Estado dentro do Estado, um simulacro de democracia que tem vivido, desde a primeira eleição, à conta dos fundos transferidos do Governo central. A Madeira é como se fosse um parasita do país, e Alberto João a cabeça do tentáculo sugador. Um inimputável que governa com mão de ferro, controlando a informação directa ou indirectamente, um ditador que se fez rodear de um grupo de fervorososos apoiantes que depende directamente da teta do Governo Regional e defende ciosamente o seu líder, agredindo adversários políticos, impedindo um jornalismo livre, desafiando e processando quem o ousa criticar. Alberto João Jardim é quintessência de um país decadente. Seria fácil acabar com o simulacro democrático; mas na realidade o resto do país tolera-o porque não é assim tão diferente. Um país de negócios obscuros, tráfico de influências, corporativismo e corrupção. Alberto João Jardim representa aquilo que somos, espelho invertido daquilo que gostaríamos de ser. 

O presidente e o Candidato

Sérgio Lavos, 15.11.10

Assobiar para o lado

Pedro Sales, 11.11.08


O mesmo Presidente que anda há três meses entretido com o Estatuto dos Açores, reclamando que lhe estão a querer retirar competências constitucionais, é o primeiro a assobiar para o lado e fingir que não se passou nada na Madeira. Incomodado, pede aos jornalistas para não o maçarem com questões menores como a de um partido ter suspendido um parlamento e impedido um deputado de exercer o seu mandato popular, quando as suas preocupações estão centradas no desemprego. Mas, não sendo claro ou perceptível o seu papel constitucional e institucional no combate ao desemprego, para além de umas cada vez mais anódinas intervenções, os seus poderes constitucionais para "interferir no funcionamento da Assembleia Legislativa” são conhecidos e foi Cavaco Silva quem escolheu nada fazer. Nem uma mensagenzinha, daquelas que emite em dose regular à Assembleia da República. Nada, nicles, niente. Assim sendo, e porque se faz tarde e começo a ficar cansado, pela minha parte agradecia que não me incomodasse mais com o Estatuto dos Açores.