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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Deixem os mercados funcionar

Sérgio Lavos, 10.05.13

 

O resgate a Chipre marcou uma mudança das autoridades europeias nas políticas implementadas para salvação do sistema financeiro. Sim, salvar o sistema financeiro - não nos podemos esquecer de que tudo começou em 2008, na exposição da banca europeia à crise que começou nos EUA. A crise das dívidas soberanas é apenas a consequência da decisão então tomada pelas lideranças europeias: entre países e pessoas e os bancos, foram escolhidos claramente os segundos, ao contrário do que aconteceu nos EUA, que deixou falir largas dezenas de instituições e vê agora a sua economia em recuperação, quase a atingir um superavit orçamental, depois de cinco anos de estímulos keynesianos.

 

A mudança que ocorreu passou a agulha da culpa dos contribuintes dos países resgatados para os depositantes dos bancos. As sucessivas declarações de dirigentes europeus mostram que será isso que irá acontecer na próximo resgate - que poderá ser muito bem Portugal. Se assim for, podemos esperar um confisco de todos os depósitos superiores a 100 000 euros. Como praticamente todos os bancos portugueses foram recapitalizados, este confisco tocará todos os grandes depositantes nacionais.

 

É claro que a maior parte dos depositantes previdentes e com meios a esta hora já transferiu os seus depósitos para uma off shore à sua disposição. Declarações como a que ontem fez Fernando Ulrich visam desviar a atenção dos erros de gestão cometidos. A instituição financeira que dirige acumula prejuízos quase todos os semestres, mas sabe que, no fim, ou os depositantes ou os contribuintes irão pagar os investimentos errados, irão "salvar os bancos", como ele candidamente afirma. E os accionistas continuarão a receber os dividendos e os gestores os seus bónus e ordenados. É assim o nosso capitalismo: protegido e corporativista até à sua corrupta medula.

 

Curiosamente, há quem, na direita liberal, defenda a solução adoptada pela UE. João Miranda, por exemplo. Extraordinário ver liberais a defenderem o ataque à propriedade privada ensaiado pela UE. Nem o regime chavista foi tão longe. É que, parecendo que não, há uma terceira via. Se uma instituição financeira comete erros de gestão e sofre perdas irrecuperáveis, as alternativas não são apenas a recapitalização (paga por todos os contribuintes) ou o confisco dos depósitos. Existe, imagine-se, a opção verdadeiramente liberal: permitir que o mercado funcione. Se um banco foi mal gerido a ponto de não conseguir manter-se em funcionamento, que vá à falência. As leis europeias asseguram depósitos até 100 000 euros. A má moeda desapareceria de circulação, expurgando o sistema de produtos tóxicos e de gestores incompetentes, que preferem a especulação ao bom governo das instituições que dirigem.

 

O problema é que isto não irá acontecer. O nosso Governo continuará a recapitalizar bancos ou a espoliar depositantes. Somando tudo, desde o BPN ao Banif, passando pelo Millenium, pelo BPI, pelo BES e pela CGD, já ultrapassa largamente os 10 000 milhões de euros, mais do que se pretende cortar no Estado Social. E a escolha foi feita por razões evidentes: grande parte da nossa dívida está nas mãos dos bancos portugueses. O Governo e as instituições europeias, em troca de recapitalizações que cobriram os prejuízos resultantes da especulação financeira, "obrigaram" os bancos a comprarem dívida dos estados em dificuldade, perpetuando um ciclo especulativo do qual saem sempre a ganhar duas entidades: gestores que recebem ordenados e bónus chorudos e accionistas que nada perdem quando há prejuízo e ganham bastante quando há lucro. O BCE empresta a 0,5% aos bancos, os bancos emprestam a 5,6 e 7% aos Estado português, que por sua vez empresta aos bancos com juros mais baixos do que os que está a pagar pela sua dívida. Toda a gente fica a ganhar. Menos o milhão e meio de portugueses no desemprego. Ou os empregados a perderem rendimento. Ou os pensionistas a serem espoliados. Ou os empresários a acumularem dívidas. Bom, alguém há-de ganhar. Nós é que não somos, isso é certo.

Forte com os fracos, fraco com os fortes

Sérgio Lavos, 04.02.12

 

 

Uma vez mais, iremos assistir ao financiamento da banca pelo Estado. O mesmo Estado que está a despojar os contribuintes de parte dos serviços que lhe compete assegurar - na Saúde, na Segurança Social e na Educação -, aumentando no mesmo passo impostos. Os bancos portugueses, cujos rendimentos vêm em parte do dinheiro que lá depositamos, tiveram prejuízo em 2011, mas rapidamente anunciaram que irão recapitalizar-se recorrendo ao fundo do Estado destinado a esse efeito. O Governo que anda a privatizar empresas lucrativas - no caso da EDP e da REN, não foram privatizações, mas sim transferências de bens do Estado português para o Estado chinês - financia ao mesmo tempo os prejuízos de empresas privadas. O nosso capitalismo continua a ser sui generis: não existe verdadeira concorrência em muitos sectores, as leis da oferta e da procura não funcionam, e, se por acaso há prejuízos, resultado das decisões dos gestores que estão à frente dos bancos, o Estado chega-se à frente e dá uma esmolinha. De milhões. Que, vá lá, sejamos demagógicos, saem do nosso bolso. 

 

Na Irlanda, foi esta receita que levou à crise de financiamento e depois económica. Na Islândia, o contraponto a este tipo de política, foi uma posição de força irmanada do poder do povo que acabou com o regabofe do financiamento da banca pelos impostos dos contribuintes privados. Várias instituições que se tinham envolvido durante anos em jogadas financeiras altamente especulativas foram deixadas falir, os seus responsáveis foram ou estão a ser julgados, e o primeiro-ministro que deixou o país ir à bancarrota também foi incriminado pelas decisões tomadas. Ah, e o pagamento da dívida islandesa aos seus credores está suspenso, até que o país recupere. E está a recuperar, com um crescimento da economia que já chegou aos 3%. Por cá, Passos Coelho promete continuar com a austeridade, "custe o que custar". Aos bancos, claro está, não irá custar assim tanto. Com uma condução destas, alguém achará ainda que o desastre é evitável?

Os banqueiros, verdadeiros indignados deste sistema

Sérgio Lavos, 12.11.11

 

Andam em vários países magotes de gente a manifestarem-se contra a exclusão a que o sistema capitalista os submete - os noventa e nove por cento - quando na realidade quem tem direito à indignação são os banqueiros. Os despojados, os espoliados, os mal tratados banqueiros. Têm toda a razão para irem fazer queixinhas ao comissário europeu dos assuntos económicos: o Governo PSD/CDS, mauzão como as cobras, só admite financiar os bancos com os nossos impostos e subsídios de Natal e de férias se isso implicar a existência de algumas regras. O horror, a miséria, o desplante. Queixam-se os pobres banqueiros de que o Governo pretende ter poderes de supervisão e intervenção nas contas das instituições que lideram. Que o Governo pretende "ofender seriamente os princípios de propriedade privada e livre iniciativa". Têm toda a razão: o que há de duvidoso para o Governo querer saber o que é que os bancos fazem aos milhões - não esquecer, os nossos impostos e subsídios - que vão ser injectados nos bancos? Como toda a gente sabe, os negócios da banca são claros, limpos, bem cheirosos, e esses milhões de certeza que irão ser usados em benefício do povo e das empresas. A recapitalização dos bancos não é uma brincadeira de crianças. Está bem que nós estamos a financiar os bancos para os bancos nos financiarem de volta a nós, com juros, mas é assim que deve funcionar, de acordo com as divinas regras dos "mercados". O topete do Governo! Ainda bem que há gente neste país que não amocha e se indigna com as injustiças que lhe são impostas. Ah, fosse o resto dos portugueses tão indignado como são os banqueiros...

Roubar aos pobres...

Sérgio Lavos, 13.10.11

 

O filme porno de hoje vai ter continuação. Brevemente, numa televisão perto de si: "Estado injecta capital na Banca". E esse capital irá ser sensivelmente o mesmo que o Governo espera arrecadar com o roubo hoje anunciado. Ou o que é que julgam que Ricardo Salgado foi fazer à reunião do OE? Vender tupperwares?

Pode crer que continuo a agradecer a sua bondade em me auxiliar, por favor

Sérgio Lavos, 01.07.11

 

Tinha curiosidade em saber onde vai ser aplicada a metade confiscada do seu subsídio de Natal? Descubra aqui*. E, vá lá, é por uma boa causa. Os senhores banqueiros do BPN (aquele banco onde o nosso Presidente da República depositou as poupanças de uma vida, lembra-se?) andam pelas ruas da amargura há tanto, tanto tempo, que até dava pena. E o povo não quer isso. O povo quer que o sistema financeiro arribe para que lhe continue a cobrar juros e a ganhar milhões pagando menos impostos do que qualquer empresa ou contribuinte individual. Viva nós!

 

*Via 5 Dias.

Notícias do interior do mundo

Miguel Cardina, 12.12.10

Dizem-nos que não devemos querer saber disto. Que isto perturba a ordem das coisas. Que nos devemos apenas preocupar com o caroço, a fuligem dos dias, a democracia da urna a horas certas. Que podemos dormir descansados enquanto eles tratam das questões verdadeiramente importantes. Que sair da caverna é uma impertinência e uma insensatez. Que não devemos dar crédito a isto, porque neste caso dar crédito é pactuar com o roubo. E o roubo, já dizia um velho francês de barbas, é a designação que alguns atribuem à propriedade. Ler as palavras do poder é ser um comunista primitivo ou um anarquista australiano.

Sólido como a água

Pedro Sales, 22.12.08


O Luís Rainha já chamou a atenção para o mau gosto, quase indescritível, do novo anúncio do BCP. Sendo certo que a coisa parece saída de um pesadelo cor de rosa de La Feria, o que me faz mesmo confusão é tentar perceber quem é que, no actual contexto financeiro, se lembrou que a melhor imagem para um banco seria um anúncio inspirado na mais famosa cena do Titanic? É por estas e por outras que as acções do BCP mal dão para comprar uma bica ao balcão. Enquanto o Santander faz um anúncio lembrando que é "Solid as a Rock", o maior banco privado português gasta rios de dinheiro associando o seu nome a uma das imagens de maior instabilidade e turbulência, um barco no meio do oceano...

Seguindo o padrão

Daniel Oliveira, 25.01.08
«Meus amigos, esqueçam os certificados de aforro! Só no último ano atingem uma taxa interessante que obviamente não paga o “preço” de ter o dinheiro parado e mal pago durante os 9 anos anterior. Sim, há depósitos a prazo a render 5% brutos e até ligeiramente mais, disponíveis no mercado. Parabéns senhor Ministro, conseguiu acabar com os Certificados de Aforro, disfarçando a coisa de modernização. Os bancos seguramente ficar-lhe-ão imensamente gratos pelo novo afluxo de capitais que a eles chegarão quando se perceber como os CA perderam interesse.»
Economia & Finanças, com algumas explicações.

Ler ainda estes dois posts do mesmo blogue. E outro, do Ladrões de Bicletas.