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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Inutilidades

Sérgio Lavos, 03.10.12

A inutilidade táctica de encostar neste momento o PS a um voto de censura é mais um erro, incompreensível durante um período de possível crescimento. O Bloco de Esquerda está a subir nas sondagens à conta do descontentamento com uma governação de direita, mas não vai, nunca irá, conquistar votos aos partidos da governação. Quem tenciona votar no BE fá-lo porque sabe duas coisas (para além das outras razões): o PS também assinou o memorando da troika e António José Seguro nunca será mais do que um líder de transição - mesmo, e sobretudo se, chegar um dia a primeiro-ministro. E quando se fala em partidos da governação, fala-se também de um PS que encara o tempo de oposição como um trampolim para o poder e que, mais à esquerda ou mais à direita, nunca deixará de governar para os seus próprios interesses, antes de pensar sequer no interesse nacional. Um voto de censura para marcar território em relação ao PS - e é assim que a opinião pública o vê - porquê? O BE precisa é de fazer oposição séria e comprometida às políticas de austeridade e sobretudo ao pior Governo desde o 25 de Abril, um Governo que torna o executivo de Santana Lopes um exemplo de responsabilidade e competência. O voto que o BE pode conquistar está à esquerda do centrão, e é esse que interessa para já. Ignorar Seguro e o seu PS violentamente abstencionista seria não só sensato como a estratégia correcta - dali pouco perigo vem. Mas enfim, será pedir demasiado a um partido entretido em experiências bicéfalas e outras brincadeiras para inglês ver. 

Declaração de interesses

Sérgio Lavos, 21.08.12

 

Sabendo que antes de se discutir nomes terá sempre de se discutir políticas, modelos e estratégias, e esperando que o Bloco de Esquerda faça isso democraticamente durante os próximos tempos, sinto-me à vontade para ter uma preferência para dar voz às propostas que saírem do colectivo: Ana Drago. Pela sua experiência política no BE; pela clareza das ideias; e sobretudo porque a política depende das pessoas que a fazem, e a deputada parece-me ser quem conseguirá melhor transmitir o que o Bloco tem a dizer a um país que está a ser arruinado pelas políticas de direita.   

Back to politics

Miguel Cardina, 22.06.11

O Bloco de Esquerda entendeu promover espaços de reflexão sobre a sua intervenção recente, a nova situação política e os caminhos de convergência com outros protagonismos políticos e sociais. É um bom sinal de humildade e um terreno que terá tanto maior densidade quanto maior e mais plural for a participação de militantes, simpatizantes e gente comprometida com a esquerda. Este diálogo interno e externo será materializado em algumas iniciativas públicas a decorrer nos próximos tempos mas passa também pela disponibilização de plataformas mais imediatas, como é o caso do Debate Aberto, agora lançado. E passa também pela expressão de opiniões sem medo de reconhecer erros, limitações e questões para as quais ainda não se tem resposta. É o que faz Miguel Portas nesta excelente entrevista que concedeu a Nuno Ramos de Almeida e que o jornal i hoje publica.

Bloco de Esquerda, mais claro do que nunca

Sérgio Lavos, 03.06.11

 

Enquanto o país se prepara para reflectir seriamente em votar no trio da troika e entregar o nosso destino a mãos sujas e estrangeiras, eu insisto em pensar no que terá corrido tão mal na constituição genética lusa para termos chegado a este ponto. Esforço vão, parece-me, e faria melhor em pensar no tempo que se seguirá ao acto de depositar o meu voto na urna. Urna que, de resto, simboliza na perfeição o que vai acontecer daqui para frente. Portugal, o morto-vivo, o cadáver adiado, entrega a execução das suas exéquias aos carrascos, a tal troika maldita PS-PSD-CDS. Há alternativas, há outras soluções? Só não vê quem prefere não ver, só não quer quem tem medo, a tal maldição de que padecemos, de que para sempre padeceremos. Eu, conservadoramente, voto no mesmo partido desde que voto, e voto porque esse partido continua a apresentar as únicas soluções viáveis para ressuscitar o cadáver. Vamos lá ver, quem poderá negar a evidência, uma vez mais: a alternância do centrão - com a intermitente parasitagem do partido do vice-rei Portas - é uma mortífera dança que, um pouco mais à direita ou voltando ao centro, nos foi conduzindo à cova. Já disse isto? Direi, e quantas vezes forem precisas, e recuso-me a aquiescer perante o queixume de quem vota sempre nesta troika do Inferno. Querem crise, pobreza, manutenção de privilégios, clientelismos, capitulação perante o poder económico, derrota? Votem PS, PSD, CDS. E daqui a 5 anos, quando o fundo for ainda mais profundo, quando afinal tudo ainda estiver pior do que agora, parabéns, tiveram o que escolheram. E apenas aceitarei o queixume de quem sofre com a manutenção da ordeira dança das cadeiras. Aos outros, nada. A única alternativa a esta tristeza é de esquerda.

 

(A imagem é da Gui.)

Mais do mesmo

Sérgio Lavos, 09.05.11

Não sei se terá sido boa ideia seguir a convenção do BE através das gordas do Público on-line e da sempre equilibrada cobertura do Renato Teixeira, esse grande estudioso do fenómeno Bloco de Esquerda para esta segunda década do século, no 5 Dias, mas do que perdi não reza a história, nem a deste fim-de-semana nem a das eleições que se aproximam. A verdade cruel da queda nas sondagens não desmente as palavras dos seus líderes, mas convenhamos que pedir votos ao centro e à direita me parece prenhe de um patético wishfull thinking que nem a busca de parangonas desculpa. Também não sei o que será o "extremismo radical" de que fala Louçã; referir-se-à ele aos cartazes com ovelhas negras que eram colados nas paredes de Lisboa em meados da década passada? O caminho para o centro - parece ser esse - terá de se fazer sacrificando uns quantos anciões cordeiros, percebi bem? E onde espera o BE ir conquistar votos, ao volátil povo que tanto se lhe dá votar PS ou PSD, comprovando o chavão da esquerda de que estes são partidos sem diferenças? Certamente não aos leitores do CDS, que de tropeção em tropeção de Passos Coelho lá vai trepando em direcção a uma futura e novamente respeitável coligação, reeditando a união nacional magicada pela saudosa dupla Santana-Portas, que tanto deu ao país. Para dizer a verdade, ao currículo de Passos Coelho falta uma passagem pelo comentário televisivo, mas seguramente que a sua destreza na feitura de farófias e outras iguarias doces compensa esta ausência. Até porque de ideias, estamos conversados, e gosto de imaginar os cabelos arrepiados da classe média de crédito estourado ao ouvir o líder do partido da laranja afirmando que, seriamente dado que ele é um homem sério, seriíssimo, as medidas do trio FMI não são suficientemente penalizadoras e que ainda irá mais longe do que os bondosos samaritanos da troika, privatizando até à última réstia de empresa estatal, depenando definitivamente as empresas públicas que ainda vão alimentando os cofres do Estado, a CGD e a TAP. E a RTP, claro, não esquecer, que isso de ter uma estação pública deverá ser luxo apenas dos outros, incluindo o berço do capitalismo, os EUA. Pormenores. Ideias peregrinas não faltam certamente a Coelho e à sua trupe, e sempre insistindo na panaceia da manutenção dos impostos. Haverá capelas com mais fiéis onde ir pregar, mas convenhamos que é preciso concorrer com as medidas para tornar a economia competitiva propostas pelo PS; se estes baixam o IVA do golfe e aceleram a destruição dos serviços do estado, Coelho salta mais longe, e sonha com um país dominado pela selvageria do ultraliberalismo económico. Um utópico.

 

O problema é que a contramão perigosa por onde conduzimos parece ser, por vontade da única alternativa que nos resta - uma viragem à esquerda - o caminho provável. No limite, é verdade que ser retirada a responsabilidade de governação aos nossos políticos, apesar da lamentável perda de soberania, é uma solução com o seu quê de interessante. E como ninguém parece muito interessado em bater o pé a quem manda verdadeiramente no país, animemo-nos: a diversão da viagem está mais do que garantida.

Princípios

Sérgio Lavos, 19.04.11

Deveriam ter o BE e o PCP aceitado encontrar-se com a troika infernal do FMI? Haverá questionáveis razões calculistas que terão levado à decisão dos partidos, mas julgo que a questão dos princípios terá sido essencial. O FMI é a mais horrenda extensão das políticas do austeritarismo prosseguidas pelo PS e apoiadas por PSD e CDS. A recusa do BE e do PCP em ouvirem o FMI não significa, ao contrário do que alguns de direita querem fazer crer, que estes partidos se coloquem de fora do processo democrático. Estão fora, sim, das políticas económicas que levarão o país ao descalabro económico. Portanto, uma posição de princípio. Participar no processo democrático, neste caso, significa recusar o diálogo com os nossos carrascos e encontrar outras formas de lutar contra as imposições de fora que apenas vão reforçar as políticas erradas que conduziram o país ao descalabro. Democracia, lamentamos, não é sinónimo de liberalismo económico selvagem. Estiveram muito bem os dois partidos nesta situação, e poderá este ter sido o empurrão decisivo em direcção a uma verdadeira política de protesto contra o pensamento único ultraliberal.

Convergência de esquerda

Sérgio Lavos, 05.04.11

Por enquanto, é apenas uma possibilidade, e não poderemos estar demasiado optimistas, mas a concretizar-se uma aproximação entre BE e PCP, será uma óptima notícia. Os dois únicos partidos de esquerda com representação parlamentar (não insistam, um PS em que 93% dos militantes elege José Sócrates como secretário-geral é um PS que desistiu da ideologia e apenas pensa em manter o poder e o círculo que dele se alimenta) têm uma oportunidade única. Este é verdadeiramente o tempo de esquecer rivalidades, calculismos eleitorais sectários e velhas fracturas. Sim, é uma questão de interesse nacional, mas a sério, não o que defende a tríade do poder (PS, PSD, CDS, não esquecer) e a política do austeritarismo. E mais interessante se torna, se analisarmos a votação dos dois partidos nas últimas legislativas à luz de uma eventual coligação: dos 31 assentos parlamentares actuais passaria para 39 (retirado do Margens de Erro, via 5 Dias). Se não quisermos mais do mesmo, este pode ser o caminho necessário.

Inconcebível, inconcebível - disse ele, a ferver de indignação

Sérgio Lavos, 11.02.11

A julgar pelas reacções indignadas de tanta gente - Santana Lopes, esse exemplo para a vida democrática portuguesa, acha inconcebível o sucedido -, a moção de censura que o BE irá apresentar no dia 10 de Março só pode ser uma boa ideia. As acusações de tacitismo feitas a Francisco Louçã, que visam sobretudo menorizar o efeito da intenção, parecem ignorar completamente o pânico que se instalou nos partidos do centrão. O PS acha indigno que a esquerda possa fazer cair um governo de esquerda, como se o PS ainda fosse um partido de esquerda; os barões do PSD põem as mãos à cabeça, recusando o desafio, percebendo que o partido a que pertencem acabou de perder a iniciativa política (Santana Lopes, diga-se, acha inconcebível que o BE apresente uma moção de censura porque este partido não deve liderar a oposição, como se a democracia portuguesa estivesse alugada em exclusivo ao eixo PS/PSD/CDS); e o PCP vê, de um momento para o outro, esvaziar-se o efeito da declaração de apoio a uma eventual moção apresentada pelo PSD; recorde-se, uma moção apresentada pelo PSD e apoiada pelo PCP, seria o que estava ironicamente em causa**. E não devemos esquecer o que tem sido a política portuguesa no último ano: uma espera interminável em direcção à queda do governo, uma agonia mantida em função dos interesses de Cavaco e de um desígnio nacional cujo único efeito prático foi a aplicação de medidas de austeridade que estão a levar o país à recessão económica. Agora que há finalmente uma oportunidade de fazer cair o Governo e acabar com a agonia, toda esta gente assobia para o lado. Quem será tacitista, neste caso?

 

*Este texto de Zé Neves também diz muito sobre a crise passageira. O ideal seria uma moção conjunta BE/PCP. Mas sabemos como, neste momento, isso é, infelizmente, uma miragem.

 

**Na realidade, ninguém do PCP afirmou que o partido iria apoiar uma moção de censura avançada pelo PSD. Este post do Vítor Dias é esclarecedor, assim como a pesquisa que fiz nos jornais on-line. Mais um exemplo de distorção por parte dos media, cedências ao sensacionalismo. Ou pior.

O submiranda

Pedro Sales, 11.10.08
O João Miranda descobriu que “Louçã defende sub-sub-prime”. Porquê? Por que o Bloco defende a bonificação do crédito à habitação aos desempregados. Se tivesse parado três segundo antes de escrever, o João Miranda teria percebido que bonificar os juros às pessoas que, depois de terem contraído o empréstimo, se viram sem emprego está para o subprime como o crédito à habitação está para o último filme da Pixar. Não tem nada a ver. Por uma simples razão. Não afecta os critérios de concessão de crédito. Mas se tivesse parado ainda mais uns segundos, o João Miranda teria constatado que o que afirma não faz sentido nenhum. Não só os bancos portugueses não concedem crédito a habitação a desempregados, como é pouco crível que os próprios se queiram endividar por 35, 40 ou 50 anos.

O que esta proposta afecta, para além da vida dos desempregados, é o valor total de crédito malparado – o mesmo que, como diz hoje a capa do Expresso, sobe a 4,6 milhões de euros por dia - evitando futuras situações de incumprimento. Pode concordar-se, ou não, agora chamar-lhe subprime é que é uma distorção gratuita que não tem nada a ver com o que é proposto.