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Arrastão: Os suspeitos do costume.

A constituição que faz de Passos Coelho primeiro-ministro

Sérgio Lavos, 02.09.13

Nem toda a direita é estúpida, e nem toda a direita tem na sua essência uma aversão ao funcionamento da democracia. Este texto do João Luís Pinto, no Insurgente, coloca as coisas como elas deveriam ser colocadas por quem respeita as instituições e a Constituição, mesmo quando delas discorda:

 

"A Epístola de Passos Coelho aos Jotinhas com que foi ontem encerrada a Universidade de Verão do PSD trouxe-nos alguns fragmentos interessantes da sua perspectiva em relação ao exercício do poder e ao papel das instituições e da constituição num Estado de Direito. Trouxe-nos também uma revelação surpreendente, que não terá deixado de desiludir muitos dos que tomam as dores de defender aqui e ali o actual governo.

 

Essa revelação foi de que Passos Coelho não vê nenhum problema ou entrave à “reforma do estado” na actual constituição, e que a sua crítica se circunscreve à interpretação “subjectiva” que dela é feita pelo Tribunal Constitucional. Ora sendo o papel de qualquer tribunal o da interpretação subjectiva da lei, fica-nos em primeiro lugar a dúvida sobre qual será o modelo de fiscalização da constitucionalidade que terá em mente como alternativa.

 

Mais: a constituição na qual não vê entraves é a mesma constituição que conhecia e que estabelece as regras e os limites sob os quais que se candidatou e exerce o cargo de primeiro-ministro. Boa ou má, é esta constituição, interpretada pelo Tribunal Constitucional (e não outra, porventura redigida na sua cabeça ou tutelada pelo seu “bom senso”), que estabelece as regras e legitima o mandato do primeiro-ministro, e foi para a cumprir que escolheu candidatar-se e foi eleito.

 

É também assim natural que o primeiro ministro e os partidos que suportam o governo tenham que compreender que, assim como criticam a interpretação subjectiva do Tribunal Constitucional, também a sua crítica é subjectiva mas, hélas, tem de submeter-se por força das regras à força da primeira.

Selecção natural

Sérgio Lavos, 19.02.13

O Pedro Picoito, que é de direita e com quem muitas vezes não concordo, tem toda a razão quando escreve neste post:

"É uma cruel ironia. Na mesma semana em que o Primeiro-Ministro descreve a economia portuguesa com uma das suas fórmulas trôpegas (“a selecção natural das empresas que podem melhor sobreviver está feita”), ficamos a saber, pelo Público, que nove empresários da restauração se suicidaram nos últimos três meses e 11 mil empresas do sector foram à falência. José Manuel Esteves, secretário-geral da Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal, acrescenta que se trata muitas vezes de “microempresas de cariz familiar, e por isso as consequências são ainda mais gravosas”.

O Governo, entendamo-nos, não pode ser directamente responsabilizado por estas mortes. Mas a frieza dos números mostra a realidade, na vida das pessoas, do “processo de ajustamento” que Passos quer fazer passar por natural, inevitável e certo como uma lei da ciência. Vivemos acima das nossas posses? Pois agora morremos abaixo das nossas posses. As espécies, quando não se adaptam, extinguem-se, lá dizia o Sartre.

Se o Primeiro-Ministro tivesse um bocadinho de mundo fora das jotas e dos negócios de favor, saberia que há metáforas insultuosas. Sobretudo quando vêm de um parasita que sempre fugiu à “selecção natural” graças a hospedeiros bem colocados. Mas não tem. A selecção natural dá-se por pequenos passos."

 

Um povo tem aquilo que merece

Sérgio Lavos, 06.02.13

"Acabei de ouvir o pastel de nata afirmar que se não fossem pessoas como o Dr. Franquelim jamais a fraude do BPN teria sido investigada de forma tão eficaz. Tão eficazmente foi investigada, que os impostores continuam todos à solta. Se é este o conceito de eficácia do pastel de nata, bem podemos continuar de mãos nos bolsos a ouvir esta gentalha falar de chicana política, cabala, linchamento, perseguição, epítetos muito comuns quando a realidade é a mais crua de todas e ninguém quer saber dela para nada: nenhuma consciência ou vergonha pesa sobre os filhos da puta, e nenhuma raiva, repulsa ou desprezo sacode as putas. Quem diz putas diz povo, entenda-se." - Henrique Fialho.

Votar no Arrastão

Sérgio Lavos, 21.01.13

Começou hoje a segunda fase da votação para os melhores blogues de 2012 promovida pelo Aventar. O Arrastão foi um dos 5 escolhidos finais na categoria "Actualidade Política - Blogues Colectivos". Podem ir lá votar (uma vez a cada 24 horas) que a gerência agradece. A bem de um Portugal mais sustentável, sem Coelho e Gaspar na cadeira apodrecida onde se sentam.

Um bando de filhos da puta

Sérgio Lavos, 12.09.12

Por Vasco Mendonça:

"Acabei de ouvir Miguel Relvas dizer, com o seu já habitual ar de sabujo, que o apoio aos mais desfavorecidos é uma preocupação permanente deste Governo. Perante a impossibilidade de ser ouvido por esta gente, perante esta espécie de surdez desprovida de qualquer noção de civilidade no serviço prestado ao país, vou escrever como se eles não nos estivessem a ouvir.

 

Que país é este que aceita que um bando de filhos da puta confisque impunemente o resultado do trabalho de milhões de pessoas? Quão insensível é preciso um bando de filhos da puta ser para anunciar ao país uma redução do salário mínimo? Eu sei que muita gente sente já ter assistido a isto antes, mas este não é um bando de filhos da puta qualquer. É uma espécie refinada de filho da puta, tão perigosa pela sua ignorância quanto pela capacidade inesgotável de mandar um país inteiro para o caralho que o foda. Bem sei que é um bando de filhos da puta com maioria absoluta. Infelizmente, demasiados eleitores desconheciam, à data das eleições, que estavam a mandatar um bando de filhos da puta com tão especial vocação para foder o mexilhão. Quiseram acreditar que este não era um bando de filhos da puta. Infelizmente, jamais imaginaram que este viesse a tornar-se o maior bando de filhos da puta que o país já viu no poder, e a mais séria ameaça ao modo de vida de todos os que diplomaticamente têm aceitado a pior forma de governo, salvo todas as outras.

 

Está ali um bandalho dum funcionário descansado na televisão a dizer-me que as empresas são locais de cooperação entre patrões, empregados e a cona da mãe dele. Amigo: locais de cooperação o caralho que ta foda. Este pulha dum cabrão, que nunca trabalhou numa puta duma empresa na vida, assim como a maioria destes inefáveis cabrões, que eu podia alegar não terem outro nome, não fosse o facto de já os ter apresentado como filhos da puta, mas dizia eu, este filho da puta, bandalho e pulha dum cabrão, sobejamente merecedor de todos os insultos que me forem ocorrendo, diz-me que a empresa é um local de cooperação. As empresas, cabrão desumano, são locais onde as pessoas convivem de forma mais ou menos saudável com um modo de vida/ocupação de tempo que, de forma mais ou menos saudável, aceitam ao longo de parte das suas vidas. Então explica-me lá, ó javali cagado pela arca, em que é que uma empresa é um local de cooperação, e não uma desesperada forma de prisão, quando um bando de filhos da puta destrói qualquer possibilidade de as pessoas terem uma remota esperança de construir algo edificante a que possam chamar vida, esperar que esta subsista, se mantenha e evolua positivamente sem a ajuda, mas especialmente sem a constante sabotagem, de um bando de filhos da puta. Se o referido bando de filhos da puta nos estivesse a ouvir, ouvir-se-ia por esta altura um deles dizer, de forma inacreditavelmente ponderada, dotado da mais fina filha-da-putice - que este bando de filhos da puta confunde com elevação, humanidade, sentido de estado e afins – diria que eu, e vocês todos, passámos estes anos todos a viver acima das possibilidades.

 

Mas quais anos, meu filho da puta? E quais possibilidades? Trabalho que nem um cão há 6 anos, a tempo inteiro mais as horas todas que não me pagaram, e o número de reduções salariais que tive, impostas por este bando de filhos da puta, é já próximo do número de empregos que tive na minha ainda curta carreira. Comprei um carro em segunda mão, uma mota para poupar no que não podia gastar com o carro, e vou jantar fora e ao cinema. Comprei uns discos, uns livros, fiz meia dúzia de viagens baratas, comprei uns móveis do Ikea e, durante o processo, paguei uma renda e uma catrefada de impostos. Vá lá, tentei ser feliz sem pedir ajuda a ninguém nem ir preso. Aceitei o mais serenamente que pude as regras do jogo, isto é, trabalho, trabalho e trabalho para usufruir do resto e conservar, em doses iguais, a saúde mental e a ambição, a primeira das quais começa a desvanecer-se, como se lê. E, no final de uma semana de 60 horas de trabalho que aceitei de bom grado por considerar justa e saudável a "relação de cooperação" mantida com quem me paga, ligo a rádio e é-me anunciada, por um filho da puta de currículo construído a favores, é-me anunciada a ideia peregrina com que este bando de filhos da puta, sem critério nem humanidade, resolveu premiar um país inteiro, que na sua maioria vive em muito piores condições do que eu.

 

Reduzir o salário mínimo? Aumentar ainda mais a precariedade de quem trabalha a recibos verdes? Transferir uma soma obscena de dinheiro dos trabalhadores para as empresas num país com clivagens sociais e económicas absolutamente trágicas, numa esperança infundada de que isso promova emprego? Isto já não cabe na cabeça de ninguém, e há um bom motivo para existir hoje uma impensável maioria que vai de António Nogueira Leite a Bagão Félix, passando pelos 4 sem abrigo que contei de casa até ao trabalho, mais as lojas falidas. Não é simbolismo nem retórica nem injustiça poética: isto é a vida, conforme ditada por um bando de filhos da puta, a abater-se sobre um país inteiro, dia após dia, cêntimo após cêntimo, impossibilidade após impossibilidade. Haverá um pingo de decência nestas cabeças? Milhões de vozes manifestam em uníssono a vontade literal de esganar estes filhos da puta, ao mesmo tempo que consideram, infelizes, a hipótese de fugir do seu próprio país, e estes filhos da puta aparentam não sentir nada. Foda-se, reduzir o salário mínimo. Há gente que merece o pior de nós. E é assustador que aí se inclua o Governo do meu país."

De uma mundividência limitada para outra

Sérgio Lavos, 05.07.12

O deputado Michael Seufert, a quem eu me refiro nest post, decidiu esclarecer algumas das questões levantadas por mim e pelo Daniel também aqui no Arrastão.

 

Registo a correcção do texto, que contrasta vivamente com um texto repleto de indignação insultuosa de um seu colega de blogue. E registo sobretudo a vontade de acrescentar à sua biografia dados que estavam omissos na sua biografia oficial e que tornam parte do que eu escrevi injusto. Não é difícil admitir isto, dado que qualquer opinião é construída a partir dos dados disponíveis. E o que eu sabia do deputado Seufert era que o seu percurso profissional contrastava com o discurso moralizante sobre os desempregados. Não se trata, e aí continuo a não concordar com Seufert, de um ataque pessoal; trata-se de combater as ideias que ele defende expondo as contradições entre teoria e prática. Profissional, sublinhe-se, porque acho que quando falamos do foro privado esta táctica não é legítima. E é preciso reforçar esta ideia: a minha questão com Seufert não era a defesa do empreendedorismo por si só, mas sim esse discurso que pretende culpabilizar os desempregados pela situação em que se encontram. Digamos que esse tipo de argumento (presente na entrevista que Seufert dá ao P3) personaliza a questão, ao tratar os desempregados de uma forma paternalista e arrogante. A frase "sair da zona de conforto" é bastante ofensiva para a esmagadora maioria dos jovens desempregados e é inaceitável durante um período em que arranjar emprego é praticamente impossível. Para além do mais, falar de empreendedorismo quando as entidades bancárias não estão a conceder créditos às PME's é repetir um discurso governamental formatado que não colhe na realidade. Parece-me evidente que quem fala assim ou age de má fé ou não conhece realmente a área sobre a qual tem uma opinião tão forte. Como prefiro pensar que as pessoas (sejam ou não políticos) acham que sabem do que estão a falar quando têm um discurso vincado e acreditam naquilo que dizem, parti do princípio de que Seufert tinha pouco conhecimento empírico sobre o "empreendedorismo" e as dificuldades por que passa a economia real. Os acrescentos biográficos que ele faz no post são vagos, mas preenchem lacunas no meu, admito, preconceito.

 

Honra lhe seja feita: pode estar errado nas suas ideias, mas mostra uma louvável vontade de esclarecer e dialogar. Pena as considerações generalizantes sobre o BE e os juízos de valor sobre a minha mundividência. Mas enfim, não se pode ter tudo, e nem me posso queixar muito: também eu fiz um juízo de valor sem conhecer a totalidade da pessoa. Ninguém é perfeito.