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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Gender trouble? Não.

Sérgio Lavos, 02.11.10

A vitória de Dilma Rousseff, a tecnocrata sem graça vinda de um esconso gabinete para a liderança da oitava potência económica mundial, provocou um abalo em muita alma pia da nossa pátria. Curiosamente, muitos destes são os mesmos que criticam a imagem apagada dela defendendo, em outros textos, a espectacularidade vazia da maioria dos políticos da actualidade. Lamentamos, mas é assim mesmo, caros ressentidos do bom trabalho de Lula: o Brasil, se olharmos para os parâmetros que a gente de direita costuma usar (PIB, dívida externa, inflação) ganhou com a presidência lulista; e o que perdeu, a corrupção, os jogos de interesses, a dependência de parte da população da máquina do Estado, temos por cá em abundância, da direita à esquerda, do estado central às autarquias. Se alguém tem alguma coisa a aprender, somos nós; enquanto vamos caindo em todos os índices de desenvolvimento, o Brasil vai por aí acima.

E não deixa de ser sintomático que um presidente carismático, de origens humildes, um político puro, para o bem e para o mal, entregue o cargo (admito, é esse o termo) ao seu exacto contrário. Dilma é uma intelectual de gabinete, que se orgulha de ter aprendido a ser de esquerda lendo Gorki e Tolstoi, cursou economia e andou anos e anos a trabalhar discretamente em burocracias estaduais e depois ministeriais. Mas é também uma filha de imigrantes búlgaros, facto importante no Brasil - foram os imigrantes que, ao longo do século XX, construíram parte do país. E, sobretudo, cresceu para a política na resistência à ditadura militar, sendo presa e torturada por ter levado a sério o seu combate, flirtando inclusive com a acção directa. Uma heroína? Nem pensar; uma competente técnica que tem tudo (e a humildade do discurso de vitória é de assinalar) para continuar o bom trabalho de Lula.

E claro, é a primeira mulher presidente. Ou presidenta, como Lula não se cansava de lhe chamar. Não de modo paternalista ou num arremedo de politicamente correcto, como muitos dos ressentidos não se têm cansado de sugerir; a "presidenta" de Lula era uma exortação, um apelo à superação, sem deixar de sublinhar o facto simbólico de ela poder vir a ser a primeira mulher presidente do Brasil. Vale o que vale? Nunca, como não valeu quando Margareth Thatcher chegou a Downing Street ou Obama se tornou o primeiro negro na Casa Branca. A democracia consolida-se nestes avanços simbólicos - a América que há pouco mais de quarenta anos discriminava a minoria afro-americana superou os seus fantasmas com a eleição de Obama. O Brasil, nestes últimos oito anos, deu dois passos históricos: primeiro um presidente que não veio da elite brasileira, um sindicalista, um quase iletrado (questão de orgulho e não de vergonha, como muitos acham que deve ser), alguém de quem toda a gente duvidava e que conseguiu tudo o que sabemos. Agora, a primeira mulher - uma circunstância secundária; quando começar a governar, ela será apenas uma líder de um país a caminho de se tornar uma potência económica. A presidenta, claro.

A verdade dói e não tem cura

Sérgio Lavos, 04.10.10


Cantava Zeca Afonso sobre a formiga seguindo em sentido contrário, e é natural pensar na canção lembrando Lula da Silva, o presidente cessante do Brasil. Há ali um ritmo na música de Zeca que faz lembrar o melhor balanço de João Gilberto, por exemplo. O Governo Lula apenas pode contar com o outro Gilberto, menos músico e mais político - mas não o suficiente. Chegou, e o legado de Lula é mais claro olhando para algo que os seus adversários gostam, em outras situações, de exibir: os números da economia. Como o Daniel já explicou, o Brasil em oito anos cresceu como nunca, tornando-se uma potência económica, mas sem esquecer os milhões de pobres que os sucessivos regimes ditatoriais ou neoliberais foram criando. Até parece ser possível gerar riqueza tornando o fosso entre ricos e pobres mais curto, não é? O caminho contrário de Lula - crescer sem deixar ninguém para trás - confundiu a direita brasileira e também a que por cá grita contra o Estado Social e clama por um neoliberalismo desregulado. Há quem ache que tudo começou com Fernando Henrique Cardoso, mas vamos lá fazer as contas: os números indicam o contrário. Há também quem tenha andado oito anos a falar em corrupção; curiosamente, os mesmos que não falam (nem falaram) dela a propósito do Governo de Cardoso. A verdade trama o pior dos pessimistas. Agora, há alguns adeptos da filosofia marialva-taxista que, entre o insulto fácil e a sacudidela ao nível de um postiço brega de Jorge de Sena, comparam Dilma Rousseff a uma manicure. Lula era bêbedo e iletrado e um marxista da pior espécie, lembram-se? Dilma é apenas manicure. Parece-me um avanço. O carreiro em sentido contrário está feito; Dilma tem a vida facilitada.

Artigos do Expresso

Daniel Oliveira, 30.04.08
A semana passada não postei os meus dois textos do "Expresso". Hoje postei o dessa semana e da última. Manuela Ferreira Leite e as dificuldades que Sócrates pode esperar, o PCP e Angola, o regresso de Santana e o filme "Tropa de Elite". Está tudo na página do Arrastão para os artigos no Expresso. O texto (com um trailer) sobre o filme brasileiro fica também aqui, para debate.



Tropa de elite

O filme mostra as favelas do Rio de Janeiro pelos olhos de um agente do Batalhão de Operações Policiais Especiais, a tropa de elite da Polícia Militar. Baseado num relato na primeira pessoa, ganhou prémios por todo o mundo. O filme não é apenas um retrato do estado de guerra em que se vive no Rio. É um manifesto em defesa da lei sem lei como única forma de combater a criminalidade. Um manifesto contra as explicações sociais para a delinquência. Um manifesto que não se limita a justificar, antes defende de forma explícita, as execuções sumárias e a tortura. Que trata os brasileiros das favelas como gente que vive em terreno inimigo e por isso é inimiga. Gente com quem não há pontes possíveis.

Seria de esperar o choque e a indignação. No Brasil, a aceitação foi quase geral. Muito mais entusiasmo do que com 'Cidade de Deus', que vê as favelas pelos olhos dos favelados. Além da adrenalina, 'Tropa de Elite', de José Padilha, que acabará por estrear em Portugal e já tem a sua versão literária disponível nas livrarias, dá uma resposta rápida ao medo, quando não há resposta nenhuma. E a resposta é a bala. É assim quando deixamos que a injustiça crie uma multidão de miseráveis à nossa volta. Podemos fechar-nos nas nossas fortalezas para nos escondermos do caos. Mas os que têm de viver todos os dias paredes-meias com o crime acabarão por aceitar que, "na brincadeira sinistra de polícia e ladrão, não se saiba ao certo quem é herói ou vilão, não se saiba ao certo quem vai e quem vem na contramão", como diz o polícia narrador num dos seus poucos assomos de hesitação moral. Porque no momento certo, perante o medo sem remédio, todos temos um fascista na nossa cabeça. Todos cedemos à resposta do desespero. Todos queremos ver sangue.

Outros textos aqui.

Fado, futebol e frango assado

Daniel Oliveira, 30.12.07
Ao ver na sexta-feira, na RTP 2, um episódio de um documentário sobre Chico Buarque (em que este se encontra com Ronaldinho Gaúcho em Barcelona, como dois génios se encontram para se admirarem mutuamente) e fala durante quase uma hora de futebol, não pude deixar de sentir esta superioridade do Novo Mundo, onde futebol, samba e poesia se misturam. E de sentir pena pelo tempo perdido por cá, em que intelectuais hiper-politizados desprezaram durante anos, com algum nojo, futebol, fado e toda a cultura popular que não fosse estritamente etnográfica. Em Portugal continua a não faltar quem pense que o "povo" está irremediavelmente alienado e embrutecido. Provinciana é a nossa elite. Felizmente, vai-se sentindo que alguma coisa está a mudar.