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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Se não saltarem nem espreguiçarem, onde cabem 10 cabem 14

Pedro Sales, 30.08.11

O esmoler

Miguel Cardina, 08.01.11

O candidato presidencial Cavaco Silva foi hoje abordado por uma mulher que se queixou de não ter dinheiro para alimentar o filho, a quem recomendou que procurasse "uma instituição de solidariedade que não seja do Estado".

 

Quando a situação é de socorro qualquer extintor é importante, da AMI à Linha Nacional de Emergência Social (da Segurança Social, curiosamente). Mas é reveladora esta forma de olhar o Estado como uma entidade que no fundo não serve para cuidar dos reais e pungentes problemas das pessoas. O Estado, para Cavaco, é uma "pessoa de mal", um empecilho, uma gordura social que é preciso ir removendo. E o combate contra a pobreza resume-se à lógica do extintor, fundamental mas redutora. Um presidente que não consegue perceber a relação do fenómeno da pobreza com a necessidade de mais e melhores políticas de inclusão social é um presidente que não serve. E uma sociedade como a nossa - com uma forte incidência de baixos salários, com uma taxa de desemprego a crescer, com uma gritante desigualdade de rendimentos - não ficará melhor com a sua eleição. Do que precisamos é de alguém que não tenha medo de defender o papel do Estado na promoção de políticas de igualdade e de solidariedade; não de um esmoler de vistas curtas.

 

Publicado também no Alegro Pianissimo

Remendos e Côdeas

Miguel Cardina, 14.12.10

Há fome em Portugal. Quando a realidade se nos apresenta assim, como um murro, é difícil elaborar raciocínios que permitam ver o fenómeno com algum distanciamento crítico. Porque distanciamento é tudo aquilo que não se consegue ter diante da necessidade de garantir a sobrevivência. O problema é quando os restos dos restaurantes aparecem a fazer a vez do Estado Social, substituindo a lógica da solidariedade e da efectivação dos direitos por um modelo caritativo entendido como o paliativo possível nestes tempos de crise.

 

A presença do actual Presidente da República na sessão de apresentação da campanha “Direito à Alimentação”, no Estoril, reforça essa leitura. Cavaco falou aí do “dever moral” que constituía o combate a este “flagelo”, o que é uma formulação que merece toda a concordância. Mas já que se pretende falar de pobreza, não seria também importante ouvir Cavaco falar dos cortes no abono de família, no subsídio de desemprego, no rendimento social de inserção, nas bolsas de estudo? Ou comentar as propostas de revisão constitucional do seu partido, que apontam para a privatização da saúde e da educação? Ou confrontar os economistas da sua Comissão de Honra com a defesa do corte nos ordenados e de políticas recessivas que conduzem e conduzirão a mais desemprego? Ou questionar a insensibilidade dos patrões quando afirmam não existirem condições para cumprir o que ficou acordado em sede de concertação social, ou seja, o aumento do salário mínimo para 500 euros? Ou comentar a crescente desigualdade de rendimentos no país?

 

A luta contra o desperdício alimentar - como contra qualquer tipo de desperdício – é virtuosa em si mesma. Mas entendê-la como solução para os problemas da pobreza é optar por fugir às questões acima colocadas, as que verdadeiramente traçam uma linha divisória entre quem defende a justiça social e quem defende a caridade empresarial. Ao contrário do que se depreende no título da iniciativa apadrinhada por Cavaco, esta não visa concretizar o “Direito à Alimentação” dos portugueses. “Direito à Alimentação” - como explicava Bruto da Costa hoje no DN - é dispor da liberdade de comprar e escolher os alimentos que se vão ingerir. E também não se trata de “combater a pobreza”: essa combate-se recusando a dependência e valorizando o Estado Social.