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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Silêncio

Sérgio Lavos, 04.06.12

E pronto. A pressão de Miguel Relvas funcionou. A jornalista Maria José Oliveira demitiu-se do Público. Tudo perfeitamente transparente, como o primeiro-ministro e o Presidente da República pediram. A jornalista despede-se porque a direcção do jornal tomou o partido do ministro e não só não denunciou logo o telefonema irado do governante como não esclareceu que o facto sobre a vida privada de Maria José Oliveira era uma mentira. Depois de Pedro Rosa Mendes - este duas vezes, primeiro como correspondente da Lusa em Paris, depois enquanto cronista da Antena 1 -, Relvas consegue uma vez mais  que alguém incómodo para si deixe de fazer o seu trabalho de denúncia jornalística. Assim vão as coisas no país. Asfixia democrática? Não brinquem, a democracia vai soltando os seus últimos suspiros, abatida pela vontade de poder dos políticos e dos grandes interesses económicos, pela complacência dos jornais detidos por grandes corporações e pela apatia geral do povo. Preparemos as suas exéquias.

Era uma vez a claustrofobia democrática

Sérgio Lavos, 18.05.12

Lembram-se das vestes rasgadas da direita em peso (com especial incidência na blogosfera) e da manifestação a favor da liberdade de expressão em frente ao parlamento? Segunda-feira, o mais tardar, lá estarão novamente a pedir a demissão de Miguel Relvas, o ministro da propaganda que o regime merece. Penso eu e toda a gente de bem. Alguém tem dúvidas?

 

Adenda: na manifestação também estava gente de esquerda. Que, de forma coerente, também já veio denunciar a revelação daquilo que toda a gente já sabia, isto é, que Miguel Relvas continua a "saudável" tradição de telefonar a jornalistas e a directores de jornais a pressionar e a ameaçar para evitar a publicação de notícias negativas. É claro que a coisa é tão grave que a demissão do ministro é o único caminho. Mas o pior é que ninguém acredita que isso aconteça. Qual quê, já chegámos à Finlândia? Agora, eu bem gostaria de ver por exemplo a Ana Margarida Craveiro, a promotora da manifestação de antanho, e o Henrique Raposo a tomarem uma posição semelhante para um caso idêntico - ou mais grave ainda. Mas se calhar vou ter de esperar sentado...

Notícias do país da "imprensa suave"

Sérgio Lavos, 14.06.11

 

Pedro Pezarat Correia, brigadeiro do Exército e Capitão de Abril, viu um artigo de opinião ser recusado pelo Diário de Notícias. Não sabemos se pela sensibilidade do tema, se pelo conteúdo, só sabemos que não foi aceite para publicação. Antes da revolução que este militar ajudou a levantar, isto tinha um nome: censura. E em democracia, que nome terá? Fica aqui o texto na íntegra (divulgado pelo Rui Bebiano via Facebook):

 

PAULO PORTAS MINISTRO?

 

Ana Gomes provocou uma tempestade mediática com as suas declarações sobre Paulo Portas. Considero muito Ana Gomes, uma mulher de causas, frontal, corajosa, diplomata com muito relevantes serviços prestados a Portugal e à Humanidade. Confesso que me escapa alguma da sua argumentação contra Paulo Portas e não alcanço a invocação do exemplo de Strauss-Kahn. Mas estou com ela na sua conclusão: Paulo Portas não deve ser ministro na República Portuguesa. Partilho inteiramente a conclusão ainda que através de diferentes premissas. Paulo Portas, enquanto ministro da Defesa Nacional de anterior governo, mentiu deliberadamente aos portugueses sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque, que serviram de pretexto para a guerra de agressão anglo-americana desencadeada em 2003. Sublinho o deliberadamente porque, não há muito tempo, num frente-a-frente televisivo, salvo erro na SICNotícias, a deputada do CDS Teresa Caeiro mostrou-se muito ofendida por Alfredo Barroso se ter referido a este caso exactamente nesses termos. A verdade é que Paulo Portas, regressado de uma visita de Estado aos EUA, declarou à comunicação social que “vira provas insofismáveis da existência de armas de destruição maciça no Iraque” (cito de cor mas as palavras foram muito aproximadamente estas). Ele não afirmou que lhe tinham dito que essas provas existiam. Não. Garantiu que vira as provas. Ora, como as armas não existiam logo as provas também não, Portas mentiu deliberadamente. E mentiu com dolo, visto que a mentira visava justificar o envolvimento de Portugal naquela guerra perversa e que se traduziu num desastre estratégico. A tese de que afinal Portas foi enganado não colhe. É a segunda mentira. Portas não foi enganado, enganou. Um político que usa assim, fraudulentamente, o seu cargo de Estado, não deve voltar a ser ministro. Mas já não é a primeira vez que esgrimo argumentos pelo seu impedimento para funções ministeriais. Em 12 de Abril de 2002 publiquei um artigo no Diário de Notícias em que denunciava o insulto de Paulo Portas à Instituição Militar, quando classificou a morte em combate de Jonas Savimbi como um “assassinato”. Note-se que a UNITA assumiu claramente – e como tal fazendo o elogio do seu líder –, a sua morte em combate. Portas viria pouco depois dessas declarações a ser nomeado ministro e, por isso, escrevi naquele texto: «O que se estranha, porque é grave, é que o autor de tal disparate tenha sido, posteriormente, nomeado ministro da Defesa Nacional, que tutela as Forças Armadas. Para o actual ministro da Defesa Nacional, baixas em combate, de elementos combatentes, particularmente de chefes destacados, fardados e militarmente enquadrados, num cenário e teatro de guerra, em confronto com militares inimigos, também fardados e enquadrados, constituem assassinatos. Os militares portugueses sabem que, hoje, se forem enviados para cenários de guerra […] onde eventualmente se empenhem em acções que provoquem baixas, podem vir a ser considerados, pelo ministro de que dependem, como tendo participado em assassinatos. Os militares portugueses sabem que hoje, o ministro da tutela, considera as Forças Armadas uma instituição de assassinos potenciais». Mantenho integralmente o que então escrevi. Um homem que, com tanta leviandade, mente e aborda assuntos fundamentais de Estado, carece de dimensão ética para ser ministro da República. Lamentavelmente já o foi uma vez. Se voltar a sê-lo, como cidadão sentir-me-ei ofendido. Como militar participante no 25 de Abril, acto fundador do regime democrático vigente, sentir-me-ei traído.

 

Junho de 2011-06-13 PEDRO DE PEZARAT CORREIA

Ainda se fosse um cartoon...

Pedro Sales, 17.09.08
Na mesma semana em que se soube que uma comediante italiana poderá vir a ter que responder em tribunal por ter feito uma piada com o Papa Bento XVI, atitude que lhe pode valer uma pena de prisão até 5 anos, tornou-se público que a polícia alemã está a assegurar a protecção a um padre protestante que tem recebido ameaças à sua vida desde que escreveu uma canção criticando Bento XVI. Ao contrário dos célebres cartoons com Maomé, e será certamente por distracção, ambos os casos não têm merecido a indignação dos exaltados de serviço quando a intolerância religiosa e ataques à liberdade de expressão vêm de outras latitudes.