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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Ceder ao preconceito não está nos genes, é uma escolha de vida

Sérgio Lavos, 24.02.12

 

Estava pacificamente a ler este texto do Ricardo Alves quando me deparei com a palavra "tolinho". Mas depois vi melhor e era "todinho". Tolinho, no entanto, seria mais apropriado. Para classificar o voto contra do PCP na votação de hoje. Parece que até votou contra o projecto do seu own private Idaho, o PEV. Tolinho, sim, e contudo coerente. Não interessa que o casamento entre pessoas do mesmo sexo seja legal e que os membros de um casal de gays ou lésbicas possam adoptar individualmente. É absurdo? Direi mais, é de loucos. Mas o PCP, na senda de um passado de perseguição aos homossexuais, manteve-se fiel aos seus princípios e votou na hipocrisia. Prefere que gays e lésbicas possam casar, levar filhos de anteriores casamentos, engravidar - no caso das mulheres, - adoptar sozinhos, mas nunca, credo, nunca, que dois pais ou duas mães possam ter o mesmos direitos que um homem e uma mulher que vivam juntos ou até separados. Que o CDS-PP (menos um deputado, valha-me Deus, menos um) tenha votado contra os projectos do Bloco de Esquerda e do PEV, não admira. Também não surpreende que ao deputado Telmo Correia cause asco a clarificação do que é escondido; a direita cristã tem cunha metida junto de Nosso Senhor Deus Todo Poderoso para a precipitação em tempo de seca, para a resolução dos problemas de emprego e para homossexuais que não conseguem sair do armário. Mas nunca terá para quem abertamente assume a sua identidade sexual e deseje ter uma família tal qual como os cidadãos que escolhem não casar-se com uma pessoa do mesmo sexo. "Contraria o criador", tal "experimentalismo social" e não, não se ouviu isto num púlpito de uma qualquer seita protestante norte-americana, mas numa bancada do Parlamento português. Sinceramente, não sei e prefiro não saber em que estaria Telmo Correia a pensar quando fez tal afirmação. O líder do seu partido que trate do problema. Adiante. Que o CDS e o PSD se entricheirem neste moralismo hipócrita, é previsível. Não surpreende - e parabéns aos deputados dos dois partidos que votaram a favor dos projectos, demonstrando que ainda há liberdade no meio de tanta beatice. Que o PS vote de forma táctica, aceito - é difícil exigir mais ao partido da abstenção violenta. Mas que o PCP alinhe na farsa, enfim, é uma tristeza. Seria pedir muito esquecerem os tempos de perseguição a Júlio Fogaça? Deixarem de ser tolinhos está apenas nas vossas mãos. Ceder ao preconceito não está nos genes, é uma escolha de vida.

Não desistir

Sérgio Lavos, 30.09.10

Calhou ser no dia da apresentação do PEC III o dia de luta convocado pela Confederação Europeia de Sindicatos contra as medidas de austeridade adoptadas nos países da UE. Não sei até que ponto o Governo planeou a coincidência de datas. Havia urgência, há uma crise política, indicadores catastróficos da economia. Seja como for, o que vimos nos telejornais foi um desfilar de notícias relacionadas com o PEC e o constante bombardear da alcateia de lobos liberais que opinam nas televisões parcialmente saciada - o medina-carreirismo parece estar a ter o seu dia. Gabriel Malagrida, rói-te de inveja. Não interessa que medidas semelhantes estejam a ter consequências negativas na Irlanda, ou que a eficácia em Espanha e na Grécia seja reduzida; não interessa que o imposto mais socialmente injusto de todos, o IVA, tenha sido o escolhido para sofrer uma subida. Nem que se tenha decidido descer os salários e reduzir os benefícios fiscais (medidas que irão afectar sobretudo a classe média), mantendo intocado e regime contributivo excepcional de que a banca usufrui. E também não tem qualquer importância não haver propostas reais de combate ao despesismo do Estado - a multiplicação de organismos públicos, as parcerias público-privadas, que apenas beneficiam os privados, a compra de material de guerra em tempo de paz, etc, etc, etc. Não há, nunca haverá uma real vontade de justiça social por parte deste Governo. Nem deste, nem do próximo, mesmo que mude a cor política do mesmo. O "S" de PS, mais do que nunca, nada tem que ver com socialismo.

O que se pode fazer? Seguir o exemplo de quem luta nas ruas, em
Espanha ou na Grécia, parece ser o único caminho para fazer a diferença. Os telejornais de hoje pouco mostraram das manifestações um pouco por toda a Europa. Como também não falam das greves em França. Parece que voltou a cair sobre o país um véu que parece querer esconder o que se passa lá fora. Não é quem está agora no desemprego, quem sofre e ainda vai sofrer mais com as medidas de austeridade, que é culpado da crise, por muito que nos tentem convencer disso. A crise não pode servir de pretexto para o que está a acontecer; até porque existem outros caminhos, que, infelizmente, parecem estar a perder o combate mediático com os profetas da desgraça. No meio de tudo isto, há outra coisa que me deixa intrigado: por onde anda a CGTP, que ainda há dois meses conseguiu organizar uma manifestação com 150 000 pessoas? Hoje, por exemplo, decidiu não convocar uma greve geral e limitou-se a picar o ponto nas ruas. Este não é um tempo de comer e calar - as soluções que estão a ser ensaiadas são gravíssimas e representam um retrocesso social aterrador. E nada, muito menos esta crise provocada por políticas erradas e pela complacência perante o capitalismo desenfreado das últimas décadas, pode justificar tais soluções. Mais do que uma questão de cidadania, é de sobrevivência. Se os governos tomam medidas de excepção, quem sofre as consequências também tem de as tomar. É o caminho.

Bichas pela liberdade

Sérgio Lavos, 17.02.10

No dia em que um grupo* de Militares de Abril decide fazer uma conferência de imprensa para tornar pública uma carta aberta contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo - de facto, não haveria assunto mais na ordem do dia -, nada melhor do que a divulgação de uma acção de protesto contra a manifestação que vai ter lugar no próximo sábado - e não, não estou a falar da outra, a do desagravo, mas sim da salutar iniciativa de um grupo de excursionistas variado, liderado pela voluntariosa Isilda Pegado (toda a gente sabe quem é) e a sua Plataforma Cidadania e Casamento e apoiado por gente acima de qualquer suspeita, como é o caso, por exemplo, da Igreja Católica e do PNR. Deixo aqui o link para a página do Facebook e o texto que apresenta a acção:

No dia 20 decorrerá uma manifestação contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Vamos estar em frente ao São Jorge, a partir das 15h, a estragar esta procissão da "família" e do patriarcado que desce a Avenida para roubar aquela liberdade recentemente conquistada.
Somos toda a gente: pais, mães, do Estrela da Amadora, maridos, amantes, fufas, heteros, avôs e tudo o resto. Por isso estaremos lá contra a discriminação e a homofobia, mas sobretudo pela Liberdade e pela Igualdade.
Juntas-te?
*Entretanto um leitor do blogue chama a atenção para uma carta de Vasco Lourenço (ver comentários), da Associação 25 de Abril, demarcando esta organização do tal grupo. Fica o esclarecimento.

Em quem podemos confiar?

Daniel Oliveira, 27.05.08

Cúmplices

Daniel Oliveira, 23.05.08