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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Tolo calado, faz figura de avisado

Sérgio Lavos, 21.05.13

 

Alguém disse em tempos que Portugal tem a direita mais estúpida do mundo. Será verdade, ou não, mas Portugal também consegue ter alguma da esquerda mais alienada deste lado do oceano.

 

Ontem, no enésimo Prós & Contras sobre a crise, um miúdo de 16 anos, Martim Neves, expôs o seu caso de sucesso: criou uma marca de roupa, vendida a preços baixos, desenhada por ele, com um marketing sustentado nas redes sociais e nas redes informais de amigos e de conhecidos. O que tem isto de mal? Nada. É, aliás, absolutamente louvável que ele tenha vontade de fazer a diferença num país a precisar disso mesmo, e de uma forma criativa. Teve a ideia, desenha a roupa, esforça-se. É excelente. Mais: o exemplo de Martim está nos antípodas da maior parte dos gurus do empreendedorismo que costumam ir a programas de televisão. Aqui há uns meses, um fulano no P&C gabava-se de ter criado meia dúzia de empresas em meia dúzia de anos, como se isso fosse uma coisa boa, como se não significasse, na prática, meia dúzia de empresas falidas em meia dúzia de anos (ele não as criou em simultâneo). Miguel Gonçalves, o empreendedor que Miguel Relvas desencantou num buraco escuro, também nada tem a ver com Martim Neves; não passa de um vendedor da banha da cobra que ganha a vida vendendo ilusões a pessoas que muitas vezes entraram no ciclo vicioso e desesperante do desemprego. Martim Neves tem todo o mérito que lhe queiram atribuir. 

 

No programa de ontem, Raquel Varela, apresentada como doutorada naquele modo bajulador irritante de Fátima Campos Ferreira, devia ter ficado calada quando Martim falou. Porque o que ele disse é, pense-se o que se pensar, verdade: é melhor ganhar o salário mínimo do que estar desempregado. Esta é uma realidade que toda a gente compreende, é puro bom senso. Coisa que Raquel Varela não tem. Se tivesse, teria percebido que explicar, naquele momento, que uma política de baixos salários é prejudicial ao país, é inúti. Faltou a humildade de perceber que o dia a dia de cada pessoa dispensa perfeitamente teorias sobre o trabalho ou a exploração. O dia a dia faz-se de necessidades e da sua satisfação imediata. Às elites, a que Raquel Varela pertence, cabe pensar a sociedade e tentar melhorá-la. Como deverá ser evidente, as políticas que estão a ser levadas a cabo por este Governo visam a compressão da massa salarial e dependem de um desemprego alto para que sejam bem sucedidas. Mas, a sério? Explicar isto a um adolescente de 16 anos contente por estar na televisão, por ter tido uma ideia bem sucedida, por estar a ser mostrado como exemplo para o país? O Martim tem todo o tempo de perceber que a melhor forma de ter um negócio bem sucedido é empregando trabalhadores motivados. E que motivar um trabalhador passa sempre pelo pagamento de um salário justo. Um programa de televisão não é o melhor lugar para tentar convencê-lo disto.

 

O salário mínimo em Portugal não chega para atingir os mínimos de dignidade humana. Mas é verdade que, neste momento, precisamos de mais empregos, mais trabalho, essa deve ser a primeira prioridade. Raquel Varela prestou um péssimo serviço a uma causa correcta, a luta pela dignidade do trabalhador permitida pelo pagamento de um salário justo. Ao não ter tido a humildade de perceber que aquele não era o momento, aquele não era o lugar. A direita que pretende continuar as políticas de aniquilamento do país faz hoje a festa. Não surpreende: a frase de Martim Neves justifica, em cinco segundos, a destruição de mais de 400 000 empregos e a consequente quebra que se está a verificar no salário médio nacional. Muitas vezes, a sensatez não anda de mãos dadas com a inteligência.

Ainda Chávez

Sérgio Lavos, 06.03.13
Data from World Bank

 

Um artigo de Owen Jones no insuspeito The Independent:

 

"Hugo Chávez tirou milhões da pobreza - e mesmo os seus adversários disseram que ganhou eleições forma justa e limpa

 

Se queremos aprender alguma coisa sobre direitos humanos na Venezuela antes de Hugo Chávez, basta googlar "Caracazo". É preciso ter um estômago forte. Em 1989, o então presidente Carlos Andrés Pérez ganhou as eleições apoiado por uma feroz base opositora das ideias de mercado livre: o FMI era uma "bomba de neutrões que matava pessoas, mas deixava os edifícios intactos", dizia ele. Mas após ter chegado ao palácio presidencial, deu uma dramática volta de noventa graus, implementando um programa de privatizações e aplicando uma terapia do choque neoliberal. Com a liberalização do preço dos combustíveis, estes aumentaram brutalmente, levando os venezuelanos empobrecidos para as ruas. Soldados abateram manifestantes a tiro. Morreram até 3000 pessoas, uma contagem de mortos horrível se comparada com a do massacre da Praça de Tiananmen - num país com 43 vezes menos pessoas. 

 

Foi o seu golpe falhado contra o assassino e cada vez mais corrupto governo de Pérez, em 1992, que lançou Chávez para a fama. Apesar de preso, Chávez tornou-se um símbolo para os pobres da Venezuela, há longo tempo a sofrer. Quando ganhou de forma esmagadora as eleições de 1998 com a promessa de usar o dinheiro do petróleo para ajudar os pobres, Venezuela era um desastre. O rendimento per capita tinha regredido até valores de 1960. Um em cada três venezuelanos viviam com menos de 2 dólares por dia. Os proveitos do petróleo estavam reduzidos ao mínimo.

 

Ao longo dos próximos dias, vai ser repetido de forma sistemática que Hugo Chávez era um ditador. Um estranho ditador: desde 1998, houve 17 eleições e referendos no país. Podemos pensar que foram fraudulentos. Quando venceu por larga margem em 2006, o antigo presidente dos EUA, Jimmy Carter, esteve entre aqueles que disseram que ele tinha ganho de forma justa e limpa. Nas últimas eleições, em Outubro de 2012, Carter declarou que "posso dizer, a partir das 92 eleições que monitorizei, que o processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo". Eu estive lá: podem pensar que eu sou como aqueles ingénuos esquerdistas ocidentais que visitavam as aldeias Potenkin na Rússia estalinista. Pertenci a uma comissão eleitoral verdadeiramente independente, composta por apoiantes e adversários de Chávez, que tinha sido anteriormente convidada pela oposição para supervisionar as suas eleições internas. Encontrámo-nos com importantes figuras da oposição que se manifestavam na rua contra Chávez, mas admitiram que viviam em democracia. Quando perderam as eleições, aceitaram a derrota.

 

Justiça Social


Na verdade, o próprio Chávez também teve de aceitar a derrota: em 2007, perdeu um referendo, e não protestou os resultados. Antes de ele chegar ao poder, milhões de venezuelanos nem sequer estavam registados para votar: mas campanhas massivas de recenseamento praticamente duplicaram o eleitorado. Há mais 6000 mesas de voto agora do que havia antes de Chávez. 

 

Por outro lado, as credenciais democráticas de muitos dos seus adversários certamente são questionáveis. Em 2002, um golpe ao estilo de Pinochet foi tentado contra Chávez, e apenas foi evitado por causa de um levantamento popular. Os media privados em geral apoiaram e incitaram abertamente ao golpe: imaginem que Cameron era afastado do n.º 10 de Downing Street por generais britânicos apoiados e incitados por estações televisivas de notícias. Mas os media na Venezuela são dominados por privados, alguns dos quais fazem parecer a Fox News esquerdistas ternurentos. A televisão pode ser justamente acusada de favorecer o governo, e talvez por isso apenas tenha uma audiência de 5,4%. Dos sete maiores jornais nacionais, cinco apoiam a oposição, e apenas um é apoiante do governo.

 

A verdade é que Chávez ganhou uma eleição após outra, apesar da muitas vezes viciosa hostilidade dos media, porque as suas políticas mudaram as vidas de milhões de venezuelanos que eram antes ignorados. A pobreza caiu de quase metade da população para 27,8%, enquanto a pobreza extrema baixou para quase metade. Seis milhões de crianças recebem diariamente refeições gratuitamente; o acesso aos cuidados de saúde gratuitos é quase universal; e os gastos com a Educação quase duplicaram em percentagem do PIB. O programa de alojamento lançado em 2011 conseguiu construir quase 350 000 casas, ajudando centenas de milhar de famílias que viviam em bairros da lata e casas degradadas. Alguns dos presumidos críticos estrangeiros deram a entender que Chávez efectivamente comprou os votos dos pobres - como se ganhar eleições em consequência de se ter criado maior justiça social fosse uma forma de suborno.

 

Alianças


Isto não significa que Chávez não possa ser criticado. A Venezuela já tinha uma alta taxa de criminalidade quando ele foi eleito, mas a situação piorou desde aí. Cerca de 20 000 venezuelanos morreram em crimes violentos em 2011: uma taxa de mortalidade inaceitável. Tanto como as drogas, a liberalização da posse de armas e a desestabilização provocada pela vizinhança da Colômbia, devemos culpar uma polícia fraca (e muitas vezes corrupta). Apesar de o governo estar a começar a constituir uma força policial nacional, o crime endémico é uma verdadeira crise. Quando falei com venezuelanos em Caracas, a assustadora falta de segurança foi um problema referido tanto por aliados como por adversários de Chávez. 

 

E depois há a questão de algumas associações de Chávez a nível internacional. Apesar dos seus aliados mais próximos serem governos de esquerda da América Latina - quase todos defendendo Chávez de forma apaixonada das críticas oriundas do estrangeiro - ele também apoiou ditadores brutais no Irão, na Líbia e na Síria. Certamente prejudicou a sua reputação. É claro que no Ocidente não podemos acusar Chávez de consciência limpa. Apoiamos e armamos ditaduras como a da Arábia Saudita; o antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair recebe 13 milhões de dólares da ditadura do Kazaquistão pelo seu trabalho. Mas a nossa própria hipocrisia não absolve Chávez da crítica.

 

A chamada Revolução Bolivariana era demasiado dependente da reputação de Chávez, e inevitavelmente a sua morte levanta questões sobre o que irá acontecer no futuro. Mas não duvidemos: Chávez era o democraticamente eleito campeão dos pobres. As suas políticas tiraram milhões da pobreza e da mais abjecta miséria. Ele representou um corte com anos de regimes corruptos e com um sinistro desempenho na área dos direitos humanos. Os seus êxitos foram atingidos sob a ameaça do um golpe militar, a agressividade hostil da imprensa e fortes críticas internacionais. Ele provou que é possível resisitir ao dogma neoliberal que exclui grande parte da humanidade. Ele será chorado por milhões de venezuelanos - e é difícil não entender porquê. "

Hugo Chávez (1954-2013)

Sérgio Lavos, 05.03.13

 

Ao longo dos anos como presidente da Venezuela ganhou eleições, evitou dois golpes de estado comandados à distância pelos EUA, e sobretudo conseguiu reduzir bastante as desigualdades sociais e a pobreza, aplicando um modelo de esquerda que sempre defendeu contra os ataques do capitalismo e das grandes famílias que detinham grande parte da riqueza do país antes da sua ascensão ao poder, governando para o bem estar do povo e não em função de interesses financeiros obscuros. Descanse em paz. E esperemos que os venezuelanos não percam de um dia para o outro tudo o que ganharam com os seus esforços.

Notas de Atenas

Sérgio Lavos, 14.06.12

O futuro da União Europeia joga-se nas eleições gregas, a terem lugar no próximo domingo. Jorge Costa, no Esquerda.net, vai dando conta das suas impressões durante o período eleitoral:

"(...)Numa conferência de imprensa na terça-feira, ao longo de três horas, Alexis Tsipras frisou por várias vezes que um governo de esquerda só pode sobreviver e realizar o seu programa apoiado numa permanente mobilização da maioria da sociedade. E que, além disso, conta com o efeito europeu de uma vitória da esquerda na Grécia - uma urgente primavera continental, capaz de mudar a relação de forças a partir da periferia e quebrar as políticas da austeridade. Tsipras não promete facilidades para amanhã, nem para depois de amanhã. Quem acompanha o noticiário deste portal sobre a situação grega, conhece o essencial da proposta política do Syriza e isso basta para compreender que nem Angela Merkel, nem a elite económica grega, nem as clientelas suas protegidas, ninguém fará fácil a vida de um governo de esquerda na Grécia. Mas estaria o Syriza preparado para uma vitória agora? Vinda de vários dirigentes com quem falei, a resposta é essencialmente a mesma: perante a situação extrema do país, poderia haver quem pensasse que o melhor seria perder por pouco e acumular forças para mais adiante. Esses estariam errados: um governo de esquerda deve existir agora porque depois pode ser tarde demais. Hoje, é certo, muita gente passa frio no inverno porque já não pode pagar a energia do aquecimento. Mas a maioria da população ainda não passou fome. Isto pode alterar-se rapidamente - diz-nos um dirigente do Syriza - porque a continuação da austeridade, mesmo suavizada, é uma garantia de bancarrota e fome, de declínio social com risco de violência generalizada. Nessa altura tudo será mais difícil para a esquerda e mais fácil para as milícias da extrema-direita.(...)"

Mais esquerda

Miguel Cardina, 06.09.11

 

António Barreto defendeu há dias uma «profunda renovação» da Constituição, tão profunda que exigiria ser inconstitucionalmente referendada. Este fim-de-semana foi a vez de Passos Coelho tentar criar com pouca habilidade uma nuvem de fumo sobre as redes sociais e a perspectiva do país a arder. Hoje calhou a Paulo Portas vir falar das greves como causadoras de pobreza. A direita no poder mostra assim o seu programa real: a austeridade como oportunidade de refundar o regime; o recurso à ideologia da inevitabilidade para denunciar as movimentações sociais contra o plano de saque em curso; a conversão da solidariedade em caridade, de preferência voluntária e confessional; a demonização dos serviços públicos e a abertura de espaços para a iniciativa privada em enlace por vezes obsceno com interesses instalados na área do Estado. No fundo, quando Manuela Ferreira Leite falou da necessidade em «suspender a democracia por seis meses» não estava só a expressar um desejo. Desenhava sem saber o futuro do qual nos aproximamos. Precisamos, definitivamente, de mais esquerda.

Da coerência de quem nunca foi coerente (a não ser na incoerência)

Sérgio Lavos, 27.06.11

É por esta, e por outras (muitas outras mais) que não faz sentido nenhum, neste momento, deixar de pensar numa alternativa de esquerda que exclua o PS, este PS tutelado por Mário Soares. O problema não está no ziguezague do fundador do partido - ainda nem há dois meses apoiava medidas para Portugal tão gravosas como as que Grécia tem sofrido; está na atitude, que no fundo é a essência do PS: quando governa, embarca num capitalismo corporativista vergonhoso, e apenas quando está na oposição se lembra do Marx a ganhar bicho na gaveta lá de casa. Com um PS assim, não! Obrigado.

Renegociar

Miguel Cardina, 18.05.11

 

Tenho um amigo que gosta de lembrar um erro frequente da esquerda: o de considerar que a incapacidade em fazer valer os seus pontos de vista resulta da falta de profundidade dos debates que lhe são constitutivos. A verdade é que frequentemente os problemas da esquerda são de outra natureza: não tanto intelectuais quanto políticos. Nesses casos, mais do que um esforço decidido de repensamento e reconfiguração, o que lhe falta é força política para tornar as suas ideias hegemónicas. Claro que ambas as coisas não estão desligadas, mas a pulsão autocrítica, sendo fundamental, leva por vezes a processos de autoflagelação nem sempre construtivos. E mais: esquece que frequentemente já temos as boas soluções vislumbradas. Falta apenas a tal força política para aplicá-las.

 

Um exemplo claro nos tempos que correm é a proposta de renegociação da dívida. No debate com Francisco Louçã, José Sócrates chamou-lhe a promoção do “calote”. Sócrates é um homem que “honra os seus compromissos”, está bem de ver, e que deste modo faz de advogado dos credores contra um país que entrará numa espiral recessiva e que, mais tarde ou mais cedo, terá mesmo de renegociar, como se prepara para fazer a Grécia. Foi curioso por isso ver Ricardo Costa nos seus comentários ao debate dizer que a renegociação, “a médio prazo”, até faz muito sentido. Ou descobrir agora, via Joana Lopes, que a proposta vai conquistando almas honradas e insuspeitas, como Medeiros Ferreira.

 

E chegamos assim ao drama actual do país: quem tem as propostas certas não parece vir a ter força política para as implementar; quem aparece melhor colocado nas sondagens não tem a visão política necessária aos próximos tempos. Um drama, valha-nos isso, que pode ter alguma resolução nas urnas. Assim a população seja mais corajosa do que os políticos do "grande centro" ideológico que nos tem desgovernado.

Vai pintar um clima

Miguel Cardina, 07.04.11

 

Um calor infernal invade o país. Há quem fale de uma normal e passageira antecipação do Verão. A mim parece-me já o FMI a fritar-nos em lume brando. O FMI não, que isso lembra ditaduras militares na América Latina, canções a preto e branco e expressões como «carestia de vida». Não, o que virá é o FEEF, que sendo um fundo e europeu remete-nos mais para auto-estradas, estufas no Alentejo e oportunidades de negócio para escritórios de advogados e empresas de consultoria. Ou então tanto faz o nome desde que se accionem os eufemismos: resgate, ajuda, auxílio, estabilização, assistência financeira.

 

Espera-nos um plano de austeridade que será caucionado pelos partidos que nos governam há décadas e que terá tão poucos matizes essenciais quanto maior for o apelo à inevitabilidade. E vai ser grande. É preciso rasurar as possibilidades de um outro caminho e omitir a injustiça dos cortes que se preparam: ao mesmo tempo que a banca paga menos IRC que o Sr. Reis da mercearia, perspectivam-se reduções nos salários, subsídios e pensões; ao mesmo tempo que as Parcerias Público-Privadas continuarão a alimentar clientelas económicas teme-se que um machado venha a pairar sobre a saúde e a educação públicas; ao mesmo tempo que o discurso político-económico entrará numa modorra monolítica, o país entrará em recessão. Mas também podemos ser um nadinha optimistas: ao mesmo tempo que a política austeritária e o discurso das inevitabilidades formarão um bloco coeso, crescerá a necessidade de uma alternativa.

 

Hoje é dia 7 de Abril e um calor infernal invade o país. Uma inglesa com as costas cor de camarão confessa ao seu parceiro: «what a nice weather». E ainda não viram nada.

 

Publicado também no blogue do Portugal Uncut

Falar à esquerda

Miguel Cardina, 20.02.11

Merecem reflexão algumas considerações surgidas após o anúncio da apresentação da moção de censura do Bloco de Esquerda. De facto, podemos levantar dúvidas sobre a oportunidade táctica e a forma como decorreu o processo interno e externo de apresentação da iniciativa. Podemos até achar – como há dias o Público afirmava em editorial e como argumentou ontem Elísio Estanque na mesma publicação – que o BE navega num limbo indeciso entre a vontade de ser um partido de poder e a tentação de ser um partido de protesto (se bem que neste caso me pareça de definir, antes de mais, o que entendemos por «poder» e por «protesto»). O que já se mostra incompreensível é a desilusão de alguns socialistas com a iniciativa bloquista, por um lado, e a catalogação da moção como «ridícula» por ter como destino provável a rejeição e a consequente manutenção de Sócrates no governo, por outro. Vamos então por partes.

 

A desilusão dos socialistas resulta, a meu ver, de uma caracterização equivocada daquilo que é o PS actualmente. Não penso que se possa caracterizá-lo tout court como social-democrata, logo, como o parceiro certo e inteiro numa coligação com uma esquerda que frequentemente se cataloga como «radical». Muitos sectores socialistas são-no, certamente, mas basta olhar para a geometria das preferências de diálogo parlamentar para se perceber que o PS há muito se afastou da matriz histórica da social-democracia. Compreendo a frustração: para algumas pessoas, o BE poderia ser uma hipótese de pôr o PS nos eixos da social-democracia. Mas esse é um combate que compete travar aos militantes socialistas nele interessados. Aqueles que esperavam do Bloco de Esquerda uma postura que facilitasse um «entendimento útil» com o PS deviam, antes de mais, começar por perguntar o que fez de concreto este partido para que pudesse haver convergências à esquerda. E já que se quer falar de entendimentos seria fundamental pensá-los com base em linhas políticas de fundo: sobre o estado social, sobre as políticas de emprego, sobre o combate à pobreza e às desigualdades, sobre a Europa, sobre uma ética na gestão dos bens públicos. O poder será resultado da capacidade de fazer compromissos em torno de debates como estes ou então não valerá a pena.

 

Em segundo lugar, as declarações do PSD já vieram mostrar que esta moção de censura será chumbada no hemiciclo. Tal não me parece justificar, porém, alguma adjectivação que sobre ela caiu de imediato. A política é mais do que a contabilidade das cabeças parlamentares e uma moção de censura pode perfeitamente ser a oportunidade de recusa de um caminho – recusa essa que ganha acrescida legitimidade se fizermos o exercício de comparar as práticas deste governo com o programa eleitoral com que se fez eleger – e a afirmação de um outro rumo que se considere mais sintonizado com as reais preocupações do país. Aliás, se uma moção apenas fosse válida caso tivesse condições para ser aprovada seríamos obrigados a considerar ridículas todas as moções apresentadas a executivos maioritários. E muitas das mais de vinte moções de censura já apresentadas desde 1979 foram-no nessa condição. O próprio José Sócrates foi alvo de quatro moções de censura na altura em que tinha maioria absoluta.

 

A política faz-se da afirmação de escolhas e o BE decidiu fazê-las agora. Podemos questionar o timing, mas quem se considera de esquerda facilmente concordará que são muitas as razões que dão sentido ao gesto. Ontem o PCP reforçou isso mesmo, anunciando o voto favorável à moção. A direita preferirá manter Sócrates no poder esperando que ele caia de podre. Incapaz de se desembaraçar do seu líder-eucalipto, o PS permanecerá agarrado aos destroços, fortemente inclinado ao centro e corroído por anos de poder. E o problema aqui não é o “poder”, claro está. É a urgência de entendê-lo como capaz de forjar políticas mais justas, mais decentes e, já agora, desobrigadas das promiscuidades que entrelaçam o campo político e o campo económico. Não é disso que falamos quando falamos de esquerda?

A sensatez do "mínimo" é mais do que a sensatez do "mínimo"

Miguel Cardina, 28.12.10

Afina-se o ouvido nesta estação do ano e descobrimos que existem muitos Vascos Pulidos Valentes em potência. Com menos talento literário mas com o mesmo discurso entre o "estou farto da piolheira" e "a culpa é dos políticos". Isto faz-nos lembrar que a função da esquerda nestes tempos também tem de ser pedagógica. Ou "sensata" e "defensiva", como escreveu Tony Judt no seu último livro. Porque, não obstante alguns pressupostos distintos, entre a social-democracia e o socialismo existe sobretudo uma diferença de intensidade. Na demissão dos social-democratas (que em Portugal estariam num partido dito "socialista") compete à restante esquerda defender as conquistas materiais trazidas pela social-democracia histórica. Pode não parecer, mas elas são um pozinho de socialismo numa sociedade cada vez menos solidária. O resto - fazer com que o socialismo não seja apenas um remake da social-democracia histórica - é importante e é preciso ir reinventando a cada momento, a cada proposta. A par da defesa dos serviços públicos é preciso coragem para elaborar desenhos fiscais que não deixem de fora sectores que acumulam lucros avultados (como os bancos, que pagam em média 5% de IRC). A par da defesa das políticas de solidariedade (subsídio de desemprego, rendimento social de inserção, pensões) é preciso clamar por uma mais justa repartição da riqueza. A par da defesa da legitimidade da democracia representativa é necessário pugnar pelo alargamento das esferas de participação. A questão dos tempos é que o retrocesso a que assistimos (e que tem condições para crescer) faz com que tenhamos de fazer as coisas exactamente assim: "a par". É que perder a batalha ideológica sobre a sensatez do "mínimo" trará tudo menos vitórias.