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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Viva a economia capitalista! Abaixo os parasitas do Estado!

Sérgio Lavos, 05.06.12

 

 

 

Diz o neoliberal Rui A., do às vezes liberal - dependendo da medida que o Governo pretende implementar e do índice de paranóia anti-esquerdista do dia de Helena Matos - Blasfémias:

 

"Impostos elevados sobre o rendimento das pessoas e das empresas são a fórmula necessária e suficiente para a destruição de qualquer economia e da riqueza de qualquer país que os aplique."

 

Bela frase de abertura, cujo texto que se segue tenta comprovar. Uma premissa, portanto. Vejamos alguns exemplos avulso de países com impostos elevados sobre o rendimento das pessoas e das empresas:

 

- Suécia

         - Impostos sobre rendimentos individuais - 0-57%

         - Impostos sobre empresas - 26.3% + taxas adicionais de 31.42% (Segurança Social e/ou TSU e outras taxas)

         - PIB per capita (paridade de poder de compra) - $40,393

         - Crescimento económico previsto para 2012 - -1%

 

- Noruega

         - Impostos sobre rendimentos individuais - 0–47.8%

         - Impostos sobre empresas - 28% + taxas adicionais de 0–14.1%

         - PIB per capita (paridade de poder de compra) - $53,470

         - Crescimento económico previsto para 2012 - 0.8%

 

- França

         - Impostos sobre rendimentos individuais - 0–40%

         - Impostos sobre empresas - 33.33% + taxa adicionais de 66%

         - PIB per capita (paridade de poder de compra) - $35,613

         - Crescimento económico previsto para 2012 - 0.2%

 

 

E agora exemplos de países com impostos reduzidos sobre o rendimento das pessoas e das empresas:

 

- Polónia

        - Impostos sobre rendimentos individuais - 0%, 18%, 32% ou 19%

        - Impostos sobre empresas - 25% + taxas adicionais de 41%

        - PIB per capita (paridade de poder de compra) - $20,334

        - Crescimento económico previsto para 2012 - 1%

 

- Roménia

        - Impostos sobre rendimentos individuais - 16%

        - Impostos sobre empresas - 16% + taxas adicionais de 45.15%

        - PIB per capita (paridade de poder de compra) - $12,476

        - Crescimento económico previsto para 2012 - -0.2%

 

- Uzbequistão

        - Impostos sobre rendimentos individuais - 11-22%

        - Impostos sobre empresas - 9% (sem taxas adicionais)

        - PIB per capita (paridade de poder de compra) - $3,302

        - Crescimento económico previsto para 2012 - 8% (uau)

 

- Burkina Faso

        - Impostos sobre rendimentos individuais - 2-30%

        - Impostos sobre empresas - 10-30%

        - PIB per capita (paridade de poder de compra) - $1,466

        - Crescimento económico previsto para 2012 - 7% (excelente) 

        

 

O liberal Rui A. prefere viver nos países livres da economia "parasitária", portanto (e ao acaso) na Polónia, na Roménia, ou mesmo nos quase perfeitos Uzbequistão ou Burkina Faso. E você?

 

(A foto foi tirada numa moderníssima fábrica de seda no Uzebequistão. Reparem bem no sorriso das crianças. O Rui tem razão: queremos mais destes paraísos na Terra.)

Oh, doce, tão doce capitalismo

Sérgio Lavos, 03.05.12

 

Anda para aí gente a dar pulos de contentamento com a genial manobra da rede de mercearias com sede fiscal na Holanda, mas a verdade é que, se olharmos a coisa pelo prisma do capitalista, temos um dia com 50% desconto em todas as compras superioras a 100 euros que teve como resultado:

 

- Quebra de 50% nos potenciais lucros.

 

- O aumento na facturação (ao que parece, cinco vezes mais do que seria expectável) terá um efeito residual ou nulo no lucro imediato, porque, se é verdade que dezenas de produtos foram vendidos abaixo do preço de custo, cada venda deste produtos representa efectivamente prejuízo.

 

- Mesmo que as vendas dos produtos vendidos com lucro (acima do preço de custo) ocupem a maior fatia do bolo da facturação, a margem desvanece com os eventuais gastos, a saber: 

      *O pagamento devido aos trabalhadores por um dia de trabalho num feriado, 300%, mais a benesse de um dia de férias, mais horas extraordinárias - uma operação daquelas de certeza que implicou uma logística fora do normal.

      *As despesas com a abertura de centenas de lojas - limpeza, segurança, electricidade, etc.

      *E sobretudo os prejuízos adicionais em produtos roubados, pilhados e consumidos dentro das lojas (é verdade que foi pouco           noticiado, mas essas pilhagens aconteceram um pouco por todo o lado).

 

- Uma multa garantida da ASAE no valor de 30000 euros, pela prática de dumping.

 

- Quebra na confiança dos consumidores habituais, que foram impedidos de frequentar as lojas e de fazer as suas compras normalmente (conheço muita gente nesta situação). Ainda por cima, o lema da cadeia de mercearias era não fazer campanhas e não ter cartões de desconto porque, diziam eles, os preços são baixos todo o ano. Se conseguem oferecer uma margem daquelas, será que alguém ainda acredita no slogan?

 

- A repetição da má publicidade nos media e nas redes sociais, desta vez com mais impacto ainda do que quando mudaram a sede para um país estrangeiro. O eventual efeito de regresso dos clientes depois do dia da promoção dificilmente se fará sentir.

 

Ao que parece, o grupo está a enfrentar problemas de liquidez e precisava de escoar muitos produtos perto do final do prazo de validade*. A brutal quebra no consumo e a concorrência das outras cadeias de supermercados, que inclui os tais cartões de desconto e as promoções, estavam a fazer mossa na rede de mercearias do Santos. Portanto, a euforia que grassa na blogosfera neoliberal - o estímulo necessário para esta gente se excitar é bastante reduzido - redunda, uma vez mais, numa espécie de ejaculação precoce. A grande demonstração das virtudes do mercado livre é, se pensarem bem, um rotundo fracasso comercial (mesmo que o grupo afirme que não). E é sobretudo um alerta: em muitas lojas, esteve-se a um passo do desconto passar de 50 para 100%; e de forma generalizada, não episodicamente. Não admira que a ministra Assunção Cristas se tenha sobressaltado e pensado logo num imposto a cobrar sobre estas brincadeiras. Algo me diz que o Governo não está interessado em ver hordas descontroladas de gente a perceber que os produtos que agora não podem comprar estão afinal na sua mercearia de bairro. E, ao contrário do que se poderia esperar, duvido que mais promoções deste tipo apareçam nos próximos tempos. No fim de contas, ainda não é o fim nem o princípio do Mundo, calma é apenas um pouco tarde.

 

*E claro que terá havido muita gente a comprar sem olhar para esse prazo, levando para casa produtos para várias semanas ou meses que não vão poder consumir. Também deveremos culpar o merceeiro Santos por isto ter acontecido?

Dizem bem que os extremos se atraem

Sérgio Lavos, 02.05.12

 

A minha alegoria com zombies provocou várias reacções, da direita à esquerda. Uma vez mais, confirmaram-se as minhas ideias sobre estas duas facções: se a direita neoliberal age motivada pela desonestidade intelectual e pela hipocrisia, a esquerda revolucionária de sofá responde com uma grande dose de paternalismo em relação ao povo que a abandonou e se atirou nos braços de um capitalista no dia do trabalhador; e sobretudo com uma violência verbal própria de matarruanos, de gente habituada a espetar picaretas nas cabeças dos adversários políticos. Sinceramente, estou bem onde estou, obrigado, apesar de não ser militante de qualquer partido - e os dois textos do Daniel Oliveira, defendendo serena e racionalmente uma posição diferente da minha, reforçam esta ideia. Apenas lamento que a referência aos subversivos zombies de Romero tenha passado despercebida a toda a gente. Um tipo anda aqui a esforçar-se para promover a revolta e a pilhagem nas lojas simbólicas do consumismo, e só o André Azevedo Alves é que percebe. Leva a palma, ele e o João José Cardoso, que captou o essencial da mensagem romeriana

Cegueira

Miguel Cardina, 27.12.11

Diz o Tiago Mota Saraiva com muita clareza e ainda mais acerto:

 

Camilo Lourenço é apenas mais um que tenta demonstrar que levámos uma “vida fácil”, neste caso, “vida de alcoólicos”.
Nos meus momentos mais bonzinhos tendo a pensar que esta visão é toldada pelas dificuldades em ver o país a partir das janelas do seu automóvel de vidros fumados. Será que Camilo Lourenço não se apercebe que a maioria contraiu empréstimos para garantir necessidades básicas, como por exemplo, a habitação? Será que não se apercebe que um empréstimo não é um favor que a banca presta, mas uma prestação de serviços? Será que não se apercebe que durante o período que classifica de bebedeira havia centenas de milhar de pensionistas que não auferiam o valor mensal mínimo para se alcoolizarem condignamente? Será que não se apercebe que a maioria dos portugueses tão ou mais qualificados que Camilo Lourenço não auferem por ano o que um banqueiro aufere por semana?

 

"Há limites para os sacrifícios dos portugueses"

Sérgio Lavos, 19.10.11

 

Depois de na semana passada o primeiro-ministro mais despesista desde o 25 de Abril ter alertado o mundo (e a Europa) para o número de circo da dupla Merkel/Sarkozy, agora vêmo-lo queixar-se das bondosas medidas de recuperação do país que o Governo PSD/CDS decidiu incluir no Orçamento de Estado. A evidência da acusação ("corte dos subsídios viola a equidade fiscal") já teve a merecida resposta do co-conspiracionista das escutas de Belém - na realidade, o que Cavaco pretende é proteger a sua reforma de 10000 euros, pois claro, é tão evidente. Há quem ainda vá mais longe e, num súbito assomo de hipermemória, venha recordar os tempos do Cavaco destruidor dos sectores produtivos nacionais (agricultura e pescas à cabeça) ou se insurja, num grito de revolta, contra o silêncio do presidente nos casos da Madeira, das PPP's e das regras de atribuição de pensões. Esta revolta provoca em mim um misto de satisfação (finalmente vejo blogues que não são de esquerda a falar da herança de destruição deixada por Cavaco primeiro-ministro) e de surpresa; não é que bastou uma criticazinha às fabulosas medidas de Gaspar e do seu amigo tenor para que o caldo se entornasse, a tampa saltasse e a paciência se esgotasse a esta gente? Mais calma, meus amigos, mais calma; como se não conhecessem a esfíngica figura, o homem que paira sempre um palmo acima do comum dos mortais, nunca hesitando e raramente se enganando. Que interessa a Cavaco o futuro do país ou o destino do pobre Coelho? O ego fala mais alto, e não é com este Coelho, de quem ele nunca gostou, que a sua imagem será beliscada. O país estará arruinado daqui por três anos; mas, do meio dos escombros, uma figura emergirá para nos iluminar: "Eu bem vos disse, bem vos disse, já em 2011: há limites para o sacrifício dos portugueses..."

A infâmia, o horror

Sérgio Lavos, 16.10.11

 

Depois de ler este post de José Manuel Fernandes, pensei em ir à procura de textos do ex-director do Público e maoista na reserva que denunciassem outras situações gritantes de parasitagem da Segurança Social. Qualquer coisa que ele tivesse escrito sobre as reformas acumuladas de Cavaco Silva, que ultrapassam os 10000 euros, ou a mísera pensão de 18000 euros que Mira Amaral recebe depois de ter passado uns meses pela administração da Caixa Geral de Depósitos após um convite do Governo PSD/CDS da altura. Ou até uma criticazinha ao facto dos deputados à Assembleia da República terem direito a reforma ao fim de esforçados 8 anos de serviço prestado à nação, com mais ou menos sonecas à mistura. Depois achei que seria melhor ir ler um livro ou ver um filme, nem que fosse do Steven Seagal (é mais fácil encontrar aí massa crítica do que na maioria dos textos do Blasfémias). Pois, não vale a pena. José Manuel Fernandes nunca terá escrito uma linha que fosse contra o roubo institucionalizado que é praticado pelos políticos que gravitam o poder, e não preciso de pesquisar para ter a certeza desta intuição. Mas incomoda-o que uma médica com 30 anos de serviço se reforme aos 55 anos e receba 1120 euros por mês. Por sinal, uma manifestante do 15 de Outubro. Quem serve o regime não precisa de legitimidade para escrever barbaridades, e a cara-de-pau é serenamente aceite pela maioria da população. É preciso ter lata, muita lata...  

Independências

Miguel Cardina, 09.10.11

 

António Barreto dá este fim-de-semana uma longa entrevista ao Expresso. O objectivo é o de divulgar os resultados de um estudo encomendado pela organização que preside – a Fundação Francisco Manuel dos Santos – sobre a saúde em Portugal. A tónica é clara: ainda é possível alçar o garrote no SNS. A conclusão, que certamente agradará ao ministerial inventor da Medis, vem acompanhada das habituais tiradas sobre “os ricos que paguem a saúde” (um princípio destruidor do SNS, como já notou o José Maria Castro Caldas) e a possibilidade de activar lógicas de “racionamento” equitativas.

 

Detenho-me, porém, num aspecto da entrevista. A dada a altura o jornalista considera estarmos diante de “um independente, no verdadeiro sentido da palavra”, após enumerar a sua longínqua militância no PCP, o lugar como deputado à Constituinte pelo PS, o papel como ministro da Agricultura, o apoio à AD ou o auxílio à candidatura presidencial de Mário Soares. Situações que o colocaram no centro do político - de onde, aliás, nunca saiu, nem quando mais recentemente se manifestou por “um compromisso nacional”, presidiu à Comissão do Dia de Portugal ou aceitou dirigir o think tank criado por Alexandre Soares dos Santos, uma das mais sólidas fortunas do país.

 

Se ser independente é estar bem no centro e rodeado de elites por todos os lados, então sim, Barreto é independente. Mas dizê-lo assim é menosprezar o impacto da persona política que tem vindo a criar. António Barreto é um dos mais destacados “intelectuais orgânicos” do regime. Não do “regime” de jure, tal como a Constituição o desenha. Porque aí Barreto é subversivo: segundo ele, Portugal necessita de um novo texto constitucional, feito de princípios “universais e permanentes” (como a inscrição do limite do défice) e que sinalize uma regressão efectiva de direitos (a crise como oportunidade para encurtar drasticamente a noção de bem público). Na verdade, é nesta oposição ao documento que Barreto se revela por inteiro enquanto “intelectual orgânico” do regime de facto. Ele é a voz grave que apela à "mudança" e detecta "bloqueios". A voz conservadora que se exaspera com o “facilitismo” criado pelo Magalhães. A voz liberal que espera destronar as perversões igualitárias - oh, realidade... - nem que para isso seja necessário descobrir na Constituição todas as causas dos atavismos nacionais.

 

No fundo, chamá-lo independente raia o insulto. António Barreto é um dos mais eficazes, cultos e porventura desinteressados “intelectuais orgânicos” do regime de facto - esse sistema de encontros, confluências e cumplicidades que articula as elites políticas e económicas. Respect, please.

A receita do costume

Sérgio Lavos, 09.09.11

 Há coisas que não mudam. Helena Matos continua a cavalgar o seu delírio anti-esquerdista, não poupando meios para atacar as derivas progressistas da sociedade actual. Não se poupa inclusive ao disparate que, como não paga (para já) imposto, é disponibilizado gratuitamente em doses maciças nos blogues liberais da nossa praça. Neste texto, por exemplo, apresenta várias incorrecções: quem quiser obter uma receita para a aquisição da pílula contraceptiva não precisa de pagar; as consultas de planeamento familiar são gratuitas. As farmácias não vendem a pílula sem receita médica, por isso não há ninguém que possa "poupar tempo e dinheiro" comprando a pílula sem receita*. E também gostaria de saber quando e por quem foi apresentada a "venda da pílula sem receita médica como uma vitória das mulheres e do planeamento familiar". Em que mundo é que a Helena vive é outra questão, mas não será certamente o mundo de quem recorre ao SNS por não ter dinheiro para pagar seguros de saúde ou clínicas privadas. Isso é certo.

 

*Afinal há um facto que está correcto, e aqui errei eu. Pode-se comprar a pílula contraceptiva sem receita. Não é, neste caso, comparticipada, como é evidente. Fica a correcção.

 

Adenda à minha correcção: Helena Matos, afinal, não deu uma para a caixa, e eu não errei na primeira versão: a pílula contraceptiva não é um medicamento de venda livre (não se encontra à venda nas parafarmácias, por exemplo). Se há farmácias que a vendem sem receita, estão a infringir a lei (como acontece em outros casos). Obrigado aos comentadores que na caixa deste post esclareceram o assunto, sobretudo à Ana Matos Pires que, sendo médica, não deixa margem para dúvidas sobre a questão.