Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008
por Daniel Oliveira
Durante três anos ouvimos a conversa do inevitável. Escolas e urgências fecharam porque não havia dinheiro. Museus ficaram sem vigilantes por causa dos cortes orçamentais. O tempo de reforma foi encurtado porque a segurança social não era sustentável. Os impostos subiram porque tínhamos de fazer sacrifícios. Os funcionários públicos, e com eles os do privado, perderam quase 10% de poder de compra nos últimos anos porque não podíamos pagar aumentos salariais. O défice, que, como era previsível, deixou agora de ser uma prioridade para a Europa, explicava tudo. Só não explicava as obras públicas megalómanas.

Até que se aproximam as eleições e tudo passa a ser possível. Podemos pagar aumentos salariais, aumentos nas reformas, tudo. Agora Sócrates diz, preocupado, que todas as famílias precisam de ajuda. Não precisavam antes? Ou não terá dado o nosso primeiro-ministro pela crise que nos acompanha, mais do que aos restantes europeus, há uns anos? Não terá reparado no aumento do desemprego que atira milhares para a miséria? Não terá reparado no desespero da classe média que, com o aumento das taxas de juro, não sabe como continuar a pagar as prestações da casa?

Mas afinal era possível. Afinal havia dinheiro. O Governo estava apenas a guardar-se para o ano de todas as eleições. E foi neste preciso momento que saiu a sorte grande ao PS: a crise financeira internacional. Três em um: o Governo tem um argumento para abrir os cordões à bolsa, tem um álibi para a crise nacional - que, na realidade, é anterior à crise mundial - e começa já a escrever o guião em defesa da estabilidade política e da maioria absoluta. Com que cara Sócrates vai voltar a exigir sacrifícios depois das eleições? Com a mesma de sempre. Mais uma vez, será culpa da crise.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Em todos os debates presidenciais americanos os principais canais de televisão escolhem um painel de indecisos para avaliar o desempenho dos candidatos. Quando os candidatos dizem que lhes vão dar uma casa e baixar-lhes os impostos eles dão nota positiva, quando os candidatos se atacam mutuamente eles dão nota negativa. Os indecisos odeiam polémicas. É por isso mesmo que são indecisos.

Há dois tipos de indecisos: os marcianos e as primas-donas. Os marcianos são aqueles que, dois anos depois da campanha mais mediática de sempre ter começado e com dois excelentes candidatos, olham para a televisão e perguntam: o que é que o velho e o preto estão para ali a dizer? São os calões da turma. Temos de ter paciência e repetir a matéria dada. E, no fim, quando tudo lhes foi explicado, dizem enfadados: são todos iguais, querem é tacho!

Como decidem o seu voto? Mistério! Mas bem pior são as primas-donas. Como nos últimos dias de campanha é para os indecisos que se fala, a prima-dona quer manter o estatuto e a atenção. A rábula resulta. É por isso que é perigoso facilitar demasiado o voto através da Internet, do multibanco ou do telemóvel. Não! Há que dar trabalho ao indeciso. E, em último caso, desmobilizá-lo do voto. O mundo não pode depender de pessoas que demoram vinte meses a decidir onde fazer uma cruzinha.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

por Daniel Oliveira
A Islândia era um país relativamente pobre antes da II Guerra. Depois, graças a uma base militar americana, à exportação de peixe, ao investimento em tecnologia e educação e à adopção do modelo social nórdico, transformou-se num dos países com maiores índices de desenvolvimento e produtividade do mundo. Só que a Islândia nadava em dinheiro. Com apenas 300 mil almas penadas, o dinheiro sentia claustrofobia insular. Os bancos do país começaram a alargar os seus negócios para outra paragens e a investir em mercados muito mais arriscados mas com maior retorno. Correu bem e a Islândia teve, na última década, um crescimento de 4% ao ano. Até que rebentou a crise. Os bancos islandeses, demasiado gordos e expostos, entraram em colapso. Arrastaram a ilha com eles. Os islandeses descobriram que o dinheiro dos seus fundos de pensões empatados nas bolsas correspondia a 133% do PIB anual. E a prudente Islândia, que teve de chegar a velha para se meter no jogo, ficou na penúria. Os três maiores bancos foram nacionalizados, a coroa islandesa estatelou-se e a ilha está à beira da bancarrota.

Nada aconteceu à economia real islandesa. Continua a produzir-se muito e bem, continua a exportar-se peixe e eles continuam a ser poucos e educados. E antes desta engorda, o país estava bem e recomendava-se. Foi a ganância que tramou os islandeses. A mesma ganância que levou 300 mil britânicos, incluindo Câmaras Municipais, universidades, hospitais, instituições de beneficência e até uma associação de abrigo para gatos, a investir mais dinheiro na banca islandesa do que a prudência recomendava. Gordon Brown veio em seu socorro e usou uma lei antiterrorista para salvar as libras de se afogarem no Atlântico Norte.

De um dia para o outro, o país onde melhor se vivia ficou com uma inflação estratosférica, tem de pedir dinheiro aos russos, nacionalizou os seus três maiores bancos e, pela primeira vez na história, o seu primeiro-ministro anda na rua com um guarda-costas. É o que dá pôr tudo o que se ganhou a trabalhar a render no jogo.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Os últimos 13 anos da sua história falam por si. Foi Presidente do Sporting e saiu do Sporting. Foi presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, deixou a Figueira da Foz falida e foi-se embora para ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Deixou Lisboa falida e foi-se embora para ser líder do PSD e primeiro-ministro. Foi despedido de primeiro-ministro antes que o país se desfizesse em gargalhadas e concorreu às eleições. Conquistou o segundo pior resultado de sempre do PSD mas nunca se conformou. Escreveu livros, abandonou uma entrevista e voltou a ser candidato à liderança do PSD. Perdeu de novo. E é este homem, que deixou todos os cofres sem dinheiro e todos os humoristas com muito material, que o país não quis e que nem o PSD aceitou de volta, que Manuela Ferreira Leite vai repescar para governar a capital. Que Santana não sabe quando deve parar de voltar, não é novidade para ninguém. Mas estará a candidata 'contra o populismo' assim tão desesperada?
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Quatro dias antes da Lehman Brothers decretar falência, os gestores do banco planeavam entregar 20 milhões de dólares de bónus a três colegas que se iam embora da empresa. Ainda não tinha passado uma semana do momento em que o Estado enterrara 85 mil milhões de dólares dos contribuintes norte-americanos na seguradora AIG e os seus executivos já rumavam a um "resort" de luxo na Califórnia, com alguns dos seus melhores clientes, para um retiro de 'trabalho'. Quase meio milhão de dólares, foi a factura paga com dinheiro dos que vivem a tragédia económica. No meio da hecatombe, o banquete. Nenhum destes episódios explica a situação em que estamos ou chegaria sequer para piorar o que já está péssimo. Mas são uma pequena imagem da absoluta falta de obrigações morais e sociais que domina os homens que dominam as nossas economias.

Os ultraliberais teimam em tratar tudo o que aconteça na economia com metáforas naturais. Depois da tempestade virá a bonança. Deixe-se morrer erva daninha e a melhor crescerá mais forte. Negam, com a trivialidade telúrica dos seus argumentos, o carácter político e ético da economia. Todos os domínios da nossa existência são condicionados por um único dogma: a liberdade começa e acaba no mercado. A sua ideologia destrói os fundamentos da regulação da vida em sociedade, que é a razão de ser de qualquer democracia. Sendo amoral e absoluto, o liberalismo económico transformou-se na ditadura ideológica do século XXI e no maior perigo para a nossa liberdade. Pelo mercado, como antes pela raça ou pela revolução, nenhuma vida concreta tem realmente qualquer valor, nenhum valor tem qualquer relevância. Quase trinta anos depois da revolução começada por Reagan e Thatcher, é hoje uma evidência que devolver à sociedade, organizada no Estado, o poder de estabelecer limites numa economia sem rosto e sem nomes, e por isso moralmente irresponsável, não é um acto radical ou sequer revolucionário. É um acto de sobrevivência.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Portugal reconheceu a independência do Kosovo. Vale o que vale. Nem o Kosovo se preocupa com Portugal, nem Portugal se preocupa com o Kosovo. Mas para quem ache que a coerência tem algum valor foi confrangedor ouvir o ministro Luís Amado. Explicou que com este reconhecimento se abre uma caixa de Pandora. Que tudo por ali foram erros. Conclusão: reconhece-se a independência. Porquê? Porque os nossos aliados (EUA) reconheceram e porque não queremos ser confundidos com quem tem problemas com nacionalismos internos (Espanha).

Que nada de relevante distingue o Kosovo da Abkazia ou da Ossétia do Sul, que a partir de agora é legítimo um país invadir territórios de um Estado para lhes dar a independência, que depois disto só pode vir a grande Albânia, com mais conflitos nos Balcãs... Nada disso interessa. Sobretudo depois de o ministro ter recebido directivas de Condoleezza Rice em visita a Lisboa. Um país de governantes pequenos será sempre pequeno. Só quer aparecer no boneco com os senhores crescidos. Não é sina. É uma escolha.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
O que perturba não é uma ou outra casa camarária de Lisboa ser dada ao sabor dos humores de um vereador. Seria apenas um escândalo. O que mais indigna é serem três mil e esta prática ter sido corrente em todos os executivos camarários. Há anos que se defende uma bolsa de arrendamento jovem para travar a desertificação do centro da cidade e que parte do realojamento de quem realmente precisa de casa deve ser feito na cidade consolidada. Havia três mil casas que podiam ter sido usadas para isto e serviram para comprar cumplicidades, apoios e simpatias.

A cunha e o nepotismo são especialmente perigosos quando, para quem os pratica e para quem deles beneficia, não tem esse nome. Quando estes actos são vistos com tanta naturalidade que ganham a legitimidade do hábito. E é neste ambiente que o poder se alimenta do favorzinho pedido com jeitinho, de chapéuzinho na mão, ao senhor presidente. Que haja tanta gente que beneficiou desta cultura enraizada a achar que as benesses que recebeu são um assunto pessoal é apenas a prova de que somos, na nossa consciência democrática, um país subdesenvolvido. Precisavam de casa? Milhares de pessoas que não conhecem ninguém na Câmara, também. Se o Estado é de todos tem de tratar todos por igual. Porque quando trocamos direitos por favores deixamos de ser livres. Passamos a depender da arbitrariedade de quem nos governa.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Os escriturários da Entidade Reguladora da Comunicação não param. O seu presidente escreve lençóis de prosa no 'Diário de Notícias', usando um tom jocoso para falar da imprensa que supostamente deve regular. A sua activista mais mediática, Estrela Serrano, desdobra-se em artigos de opinião, debates e polémicas. Uma entidade reguladora, achava eu, dedicava-se a pareceres e deliberações. E com poderes tão alargados, seria de esperar algum formalismo no seu funcionamento e alguma sobriedade na exposição pública dos seus membros.

No meio do frenesim editorial, os burocratas lá arranjam tempo para pôr os seus cronómetros a funcionar. Fizeram as contas e pressionaram a RTP a reduzir o tempo de Marcelo Rebelo de Sousa para ficar milimetricamente igual ao que é atribuído a António Vitorino. Se aumentassem o de Vitorino seria melhor.

Ganharíamos em produtividade, caindo todo o país em sono profundo nos serões de segunda-feira. Ainda assim, não seria mau explicar à ERC que comentário político, mesmo não sendo neutro, não é tempo de antena. Que os comentadores não podem ser escolhidos em função do seu cartão partidário - e o pecado começou no convite a Vitorino para compensar a presença de Marcelo. Que o pluralismo da opinião não se mede com um relógio. E que teríamos todos a ganhar se os jornalistas da RTP pudessem, nos intervalos de deliberações e pressões externas, ter algum tempo para definir os seus critérios informativos. A ver se, com tanto serviço para o serviço público de televisão, ainda lhe sobra algum público e alguma televisão.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Ao menos Manuela Ferreira Leite foi clara: pessoas do mesmo sexo não devem casar porque o casamento visa a procriação. Claro que isto deveria invalidar o casamento de mulheres fora do período fértil ou casais estéreis. Claro que há milhares de portugueses que casam sem ter filhos e que têm filhos sem casar e não consta que isso seja um problema para a sociedade. Claro que não há nada na lei que diga que é essa a função do casamento. Mas esta posição tem a vantagem de dizer ao que vem.

Bem portuguesa é a postura do PS. Nem que sim nem que não, antes pelo contrário, que eu cá não quero problemas. Não está no seu programa, o que é uma maçada. Fará escola esta ideia de que os partidos votam contra o que não está no seu programa? Que parte da legislação aprovada sobreviveria? Já o vice-presidente do PSD foge pela janela do costume. Faça-se, um dia destes, um referendo. Acontece que direitos constitucionais não se referendam. A igualdade perante a lei não se referenda. A maioria não pode impedir a minoria de gozar dos mesmos direitos que ela atribuiu a si própria.

A Constituição é clara no seu artigo 13º, proibindo que qualquer pessoa seja prejudicada ou beneficiada em função da sua orientação sexual. É verdade que todos os direitos são ponderados tendo em conta outros direitos. Acontece que o casamento entre pessoas do mesmo sexo não prejudica ninguém. Não retira um único direito aos heterossexuais. Se não referendo se um casal heterossexual se deve casar ou tem de permanecer em união de facto, por que raio me acharia no direito a decidir como vivem os homossexuais a sua vida?

Estamos a falar do primeiro de todos os direitos: o de sermos iguais perante a lei. Se isto é fracturante não sei o que será consensual em democracia. Quem acha mal que pessoas do mesmo sexo se casem tem bom remédio: não se casa com uma pessoa do mesmo sexo. Quando é que vamos perder o hábito de querer que a lei decida o que é melhor para a vida pessoal de cada um?
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Parece que o 'Magalhães' é um computador. Ou seja, quando ligado à Internet faz uma coisa extraordinária: liga-se a "sites" impróprios para menores. Parece que até tem um programa de controlo parental. Mas parece que, coisa rara, tem de ser activado. E parece que o Estado deixou que fossem os pais a decidir que interdições querem activar no computador que pagaram e vão ter em casa. Parece que muitos jornalistas julgavam que os pais podiam pôr os seus filhos em contacto com o mundo, dando-lhes uma ferramenta de trabalho, e depois ficarem refastelados no sofá, deixando um software a fazer o trabalho que só um adulto pode fazer. Com ou sem filtros informáticos, só há uma forma eficaz de controlo parental: o controlo parental. Sem histerias ou paranóias, que só servem para que os miúdos agucem o engenho.

Ser pai é uma tarefa difícil. Ser pai num mundo em que o exterior nos entra pela casa dentro é ainda mais difícil. Mas tem vantagens. Sendo certa uma coisa: o Estado e a comunidade podem fazer imenso por nós. Mas não nos podem substituir em casa. Felizmente.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008
por Daniel Oliveira
O fundo que o BCP tinha investido na Lehman Brothers chamava-se Millennium Prudente. Esta ironia é a melhor imagem dos tempos em que vivemos. Tudo é ilusão. E foi esta ilusão, a que se convenceu de que a economia global podia depender de um jogo de sorte e azar sem a intervenção reguladora dos Estados, que nos levou até aqui. Dependentes de gigantes financeiros que não podem falir sem deixar um rasto de destruição atrás de si, somos reféns da irresponsabilidade. No fim, cá estará o contribuinte para pagar o risco. Na AIG, na Fannie Mae, na Freddie Mac. Uma nacionalização na Bolívia, que nacionaliza os lucros da produção energética, é pecado. Uma nacionalização nos EUA, que nacionaliza os prejuízos de instituições financeiras, é inevitável. Nada que tire o sono aos nossos liberais intermitentes ou, mais grave, aos responsáveis por esta catástrofe. A crise não lhes chega a ombreira da porta. Em 2007, o CEO da Merrill Lynch recebeu 10,6 milhões de euros em bónus. O da Lehman Brothers ficou com 3 milhões. O da AIG, 2,7 milhões. O da Fannie Mae e o da Freddie Mac, um milhão e meio cada. Pelo seu excelente trabalho, claro.

Se as nossas economias estão de tal forma globalizadas que os gigantes financeiros não podem falir; se esses colossos jogam à roleta russa até ao limite da irresponsabilidade, inventando esquemas financeiros manhosos; se no fim quem paga a factura inevitável é o Estado, então o Estado tem de assumir as rédeas da economia para impor regras e transparência. As falências ou nacionalizações de gigantes, a crise dos alimentos por via da especulação, os preços absurdos dos combustíveis... Os sinais estão aí. O capitalismo selvagem pode bem ter, no final desta década, o seu muro de Berlim. Mas antes da derrocada, se não se importarem, seria útil responsabilizar quem, na política, nas empresas e nos jornais, nos meteu nesta alhada. Que pelo menos as culpas não sejam socializadas.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Esta semana evite a companhia de professores. Falar com qualquer um deles pode deixá-lo em mau estado. Vivem, nos dias que correm, em depressão colectiva. A sucessão de reformas, contra-reformas e contra-contra-reformas, a destruição do que se foi fazendo de bom - do ensino especial ao ensino artístico -, a incompetência desta equipa ministerial e o linchamento público de uma classe inteira tem os resultados à vista: as aulas recomeçam com professores tão motivados como um vegetariano perante um bife na pedra.

Sabem que os espera apenas uma novidade: a avaliação do seu desempenho. E é, ao que parece, tudo o que interessa a toda a gente: a avaliação dos professores, a avaliação dos alunos, a avaliação das escolas, a avaliação do sistema educativo português.

Tenho uma coisa um pouco fora do comum para dizer sobre o assunto: a escola serve para ensinar e aprender. Se isto falha, os exames, as avaliações e os "rankings" são irrelevantes. Talvez não fosse má ideia, enquanto se avaliam os professores, dar-lhes tempo para eles fazerem aquilo para que lhes pagamos em vez de os soterrar em burocracia. Enquanto se exigem mais e mais exames, garantir que os miúdos aprendem com algum gosto qualquer coisa entre cada um deles. Enquanto se fazem "rankings", conseguir que a escola seja um lugar de onde não se quer fugir. E enquanto se culpam os professores pelo atraso cultural do país, perder um segundo a ouvir o que eles têm para dizer. Agora que já os deixámos agarrados ao Xanax, acham que é possível gastar algumas energias a dar-lhes razões para gostarem do que fazem? Se não for por melhor razão, só para desanuviar o ambiente nos edifícios onde os nossos filhos passam uma boa parte do dia.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
A campanha americana parecia ir no bom caminho. Dois candidatos consistentes na disputa democrata. Um candidato republicano com mais neurónios no activo do que o seu antecessor. Melhor: os dois nomeados têm alguma noção do que se passa nos arredores dos Estados Unidos. Até que apareceu Sarah Palin e os americanos voltaram à cepa torta. Agora o debate é sobre a gravidez da filha de Palin, o seu filho com síndrome de Down, as posições radicais da candidata sobre o aborto. Não é por ser mulher, como se viu com Hillary. É por não ter mais nada para dizer. Restam as suas novelas familiares e, valha-nos Deus, os seus 'valores'. São os mesmos 'valores' que imobilizaram Bill Clinton porque a oposição andava excitada com os seus segredos de alcova. Que elegeram o mais inepto dos presidentes. Que fizeram do criacionismo matéria curricular, prometendo transportar os petizes da maior potência ocidental para a idade da pedra. Que enterraram os americanos num défice assombroso, numa crise económica com efeitos colaterais em todo o mundo, numa guerra desastrosa e numa perigosa crise de confiança. Deus nos livre da 'América dos valores', tão bem representada pelos psicodramas da insignificante senhora Palin. Esperemos que isto seja apenas um intervalo e que a política regresse dentro de momentos.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

Terça-feira, 16 de Setembro de 2008
por Daniel Oliveira
Quando, a 21 de Maio de 2003, um jovem juiz irrompeu pelo Parlamento para entregar, em mão e com as câmaras de televisão atrás, um pedido de autorização para que o deputado Paulo Pedroso fosse presente ao primeiro interrogatório percebeu-se que uma qualquer outra coisa, além das crianças da Casa Pia, estava em jogo: lutas entre corporações? Desforras políticas? Exibição de um juiz que sentia que com este processo lhe tinha saído a sorte grande? Não sei. Sei que quem se dedica ao exibicionismo mediático num processo deste melindre não é de culpados que está à procura. Pedroso portou-se como se esperava: disponibilizou-se para ser ouvido imediatamente e para suspender o seu mandato. Mas o juiz queria espectáculo: Pedroso ficou em prisão preventiva numa cela com balde higiénico. Isolado dos outros presos por correr risco de vida.

A sentença desta semana é clara: tratou-se de um erro grosseiro, juridicamente definido como "erro indesculpável, escandaloso, crasso, no qual não cairia uma pessoa dotada de normal inteligência, experiência e circunspecção". Isto porque "não havia indícios da prática pelo autor de qualquer tipo de crime, muito menos indícios fortes". Mas a sentença, com indemnização, não chegou para moderar os justiceiros. Apesar da inocência ou culpa de Pedroso não estar em causa (como recorda a Juiza, "não foi sequer pronunciado pela prática dos crimes, por decisão já confirmada em sede de recurso"), Pedro Namora lá apareceu nos telejornais para conquistar na rua o que não saiu dos tribunais: uma condenação.

Cinco anos depois, apesar de nem sequer ter chegado à barra do tribunal, Paulo Pedroso é culpado. Não aos olhos da justiça. Mas para parte da opinião pública um 'poderoso' só pode ser culpado. E se a justiça diz o contrário é porque 'os grandes safam-se sempre'. É assim que um inocente carregará a culpa de um julgamento mediático, indiferente a qualquer facto, para o resto da sua vida. Culpado por um dos crimes mais abjectos. Porque tem de ser. E a sentença saída do espectáculo televisivo teve uma assinatura: a do juiz Rui Teixeira. Por um minuto de fama condenou uma vida inteira. "Erro grosseiro", disse o tribunal. Rui Teixeira continua a ser juiz. Paulo Pedroso perdeu grande parte da sua vida pessoal, profissional e cívica. Esperemos que o Estado cobre ao juiz o dinheiro que lhe custou este minuto de fama.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Soubemos esta semana que o CDS não tem vice-presidente há um ano e que o facto permaneceu na clandestinidade. Sejam quais forem as razões que levaram à saída de Nobre Guedes, este episódio é um excelente retrato da liderança de Paulo Portas. Com ele tudo se passa nos bastidores. E sendo hoje o CDS um deserto povoado por cadáveres políticos, nem o desaparecimento de um dos seus principais dirigentes levantou suspeitas. É natural: parecendo que está na penumbra, o CDS já morreu. A notícia é que ainda não chegou aos jornais.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Agostinha, conta o jornal 'Público', foi a 31ª este ano. Em 2006 foram 39 e houve 43 tentativas. O ano passado foram 23, com 57 tentativas. A maior parte dos homicídios cometidos neste país são assim: mulheres mortas pelos namorados, pelos maridos, pelos homens que estão convencidos de que elas são propriedade sua. E estes números não contam a história toda. Não contam as humilhações, os espancamentos, a perda absoluta de liberdade, a auto-estima destruída. Estes números não contam nada. Muitas vezes são vidas inteiras de um sofrimento inimaginável.

E, apesar de este ser o mais banal dos crimes violentos em Portugal, não costuma abrir noticiários. Não anima o Verão sem notícias nem leva um partido com especial apetência para os assuntos criminais a exigir sessões especiais no Parlamento ou a apresentar meia dúzia de medidas urgentes em conferência de imprensa. Neste país que se indigna com tudo não se sente grande indignação com isto. Não, não estou a dizer que as pessoas são insensíveis. A coisa é mais profunda e talvez mais feia. Todos nos imaginamos a ser arrastados para fora do nosso carro por um delinquente. Todos nos imaginamos numa dependência bancária com uma pistola apontada à nuca. Mas não nos imaginamos assim, presos pelo medo a um homem, até que a morte nos separe. Não nos imaginamos nós, homens, claro. E somos nós que fazemos as agendas dos partidos e os alinhamentos dos telejornais. Mas também não se imagina a maior parte das mulheres.

Não são os homicídios, os assaltos e os reféns que preocupam as pessoas. É o medo. Podia ser comigo. E é por isso que alguns partidos e jornalistas exploram tanto este filão: o medo vende imenso. As 31 mulheres assassinadas este ano pelos seus companheiros nem tanto.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Nas festas algarvias do "jet set" internacional não se fala de outra coisa. Um homem que garante ser ministro e se faz acompanhar por fotógrafos persegue vedetas sem olhar a meios. O que chamou a atenção para este "celebrity stalker" foi um incidente no Hilton Hotel de Vilamoura. Estava o campeão olímpico Michael Phelps a dar umas braçadas na piscina (é o que se chama levar trabalho para férias) e cai-lhe na água um patusco. Por acaso os fotógrafos registaram o momento. O senhor chama-se Manuel Pinho e jura ser ministro da Economia. Disse à imprensa que Phelps lhe "revelou o que é preciso para ser campeão". Na mesma semana voltou a ser avistado atrás de Catherine Deneuve numas minas de sal. Os avisos já chegaram às direcções dos hotéis: querem o emplastro a milhas.

Consta que o dito ministro não foi visto à porta de nenhuma das empresas que faliram este Verão. Falta "glamour" à Secla, a maior fábrica de cerâmica das Caldas Rainha, que este mês fechou as portas de forma ilegal. Têm pouco estilo os funcionários da Fiação Fidar, que faliu há umas semanas. Se bem que estes não se podem queixar. É verdade que quando estavam na empresa para impedir a saída de máquinas não lhes caiu um ministro na piscina. Mas a GNR fez-lhes uma visita. Só para não se armarem em campeões.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Em Portugal ninguém liga pevide a nenhum desporto que não seja futebol. Basta ver as capas dos jornais desportivos das últimas semanas e o investimento em desporto escolar. Em Portugal gastam-se tostões com os atletas de alta competição. Através do blogue Zero de Conduta fiquei a saber que na Holanda um só banco gasta tanto no financiamento ao ciclismo como todas as empresas portuguesas gastam em todos os desportos que não sejam futebol. Que na Austrália se gasta 33 vezes mais com a delegação olímpica do que em Portugal. E quantos destes atletas bem preparados e bem financiados recebem medalhas? Muito poucos.

Mas o que nos falta em investimento sobra-nos em megalomania. Choveram acusações aos atletas portugueses: falta-lhes ética, não têm honra, andam a fazer turismo. Como se nos anos anteriores tivessem chovido medalhas. Compreendo o velejador Gustavo Lima quando, depois de ficar em quarto lugar, disse que para não ouvir que os atletas "andam a gastar o dinheiro dos contribuintes" preferia abandonar a alta competição. Já basta o esforço e a falta de apoios e de adeptos num país obcecado com o futebol. É escusada, no fim, a ingrata bofetada. Estes desgraçados transformaram-se no bode expiatório dos que só se lembram deles quando chega a altura de cobrar as medalhas. Dos que esperam por um D. Sebastião de sapatilhas que os tire da fossa. E esta histeria aconteceu nos melhores Jogos Olímpicos de sempre para Portugal.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Sócrates regressou em grande. Contra a crise e o desemprego, tem a solução: call centers. E lá foi anunciar um em Santo Tirso. Em troca de apoio do Estado e de um terreno à borla, a PT não contrata trabalhadores. Isso seria demais. Contrata empresas de trabalho temporário que lhe fornecerão "colaboradores". Mas isto é um pormenor. Vão ser criados 1200 postos de trabalho. Para dizer a verdade também não se cria coisa nenhuma. Todos os serviços já existiam. Só foram concentrados em Santo Tirso. A estes novos empregos vão corresponder novos desempregos noutros sítios.

Não é novo emprego, mas, segundo o Governo e a PT, é emprego "qualificado". Sim, leram bem: agora trabalhar num call center é emprego qualificado. Deve ser. Pelo menos a julgar pela quantidade de licenciados que se vêem obrigado a enfiar-se nestes aviários com salários de 500 euros e empregos ultratemporários. Lembram-se da Marta, a menina do anúncio da empresa de seguros? No país do engenheiro Sócrates está ali um quadro superior.

Mas tentemos ver a coisa pelo lado positivo: cria-se emprego em Santo Tirso, um dos concelhos com mais desemprego no país. Bem, também não é exactamente assim. Como se vai privilegiar a contratação de pessoas com o 12º ano e mais de metade dos desempregados de Santo Tirso têm apenas a quarta classe, elas virão do Porto ou de Braga. E é assim que um governo inventa 1200 empregos que já existiam para combater o desemprego num concelho onde os desempregados não cumprem os requisitos exigidos para um trabalho qualificado que em países normais é considerado trabalho escravo. Uma excelente metáfora, este regresso de José Sócrates.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Uma operação policial como a que aconteceu no assalto ao BES de Lisboa poderia ter quase todos os desfechos. O único sem mácula seria a libertação dos reféns e a detenção dos assaltantes sem perda de vidas humanas. Sendo a prioridade a sobrevivência e libertação dos reféns, só a polícia tinha os dados para decidir o que fazer. Ao que tudo indica, fez o que podia. Perturbante foi mesmo a reacção popular. Na rua, nos cafés, nos autocarros e nos fóruns de rádios e televisões do dia seguinte não era apenas a natural satisfação com a libertação dos reféns o que dominava as conversas. Era o salivar feliz com o tiro certeiro. Era o sentimento de que com a morte do assaltante se teria feito justiça.

Da excitação perante a morte de um assaltante até à desculpabilização da GNR pela morte de um inocente foi um passo. Violando as regras estabelecidas, um militar decidiu disparar sobre um carro de ladrões de material de construção. Matou uma criança de 12 anos. A culpa é dos ladrões? Claro. Serão julgados. Mas espera-se que um agente armado não seja tão irresponsável como eles. Não sabia que a criança lá estava? Pois não. Por isso é que existem regras que têm de ser cumpridas. Porque perante gente irresponsável precisamos de polícias responsáveis. Porque a vida humana está antes de tudo o resto. Porque não vivemos no faroeste.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Parecia que tudo era possível. Que se podia intervir militarmente em conflitos internos de nações, com argumentos humanitários e razões bem menos nobres, como se fez no Kosovo, e tudo ficaria na mesma. Que se podiam reconhecer independências sem critério nem lei, ao sabor das conveniências, e não haveria consequências. Que se podia alargar a NATO até às fronteiras do gigante russo sem reacção. Enganaram-se várias vezes. O urso russo está ferido, mas não está morto. E ferido é mais perigoso.

Nem a Ossétia do Sul nem o Kosovo correspondiam a repúblicas autónomas antes do colapso dos espaços plurinacionais em que estavam integrados. Ambos têm maiorias étnicas que são minorias nos Estados em que estão integrados e minorias étnicas que são maiorias nesses países. Ambos têm como vizinhos povos que lhes são cultural e politicamente próximos. Nada de fundamental os distingue. Assim, a intervenção russa na Ossétia teve tanta legitimidade como a intervenção da NATO no Kosovo. Ou toda ou nenhuma. E a verdade é que foi a intervenção militar no Kosovo e o posterior reconhecimento da sua independência que abriu a caixa de Pandora.

É evidente que o que está em causa na Geórgia não são valores morais ou de legitimidade política. O que está em causa é a influência militar, política e económica dos EUA e da Rússia em territórios que outrora pertenceram ao império soviético. Putin deixou clara a mensagem para a Geórgia e para o Ocidente: o alargamento da NATO até às suas fronteiras é uma brincadeira perigosa. A sua posição é imoral? Claro. Mas depois do Iraque, de Guantánamo e do Kosovo, quem lhe pode dar lições de moral?
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008
por Daniel Oliveira
O desporto sempre foi usado por ditaduras como uma das mais eficazes formas de propaganda. Foi assim com os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, assim voltou a ser com o Mundial de Futebol de 1978, na Argentina, repetiu-se em Moscovo, em 1980, e volta agora a acontecer em Pequim. A China aproveitará este momento para se mostrar moderna e poderosa aos olhos do mundo. E para esconder as suas mazelas.

Um dos argumentos em defesa da entrega da organização dos Jogos à China era o de que ela poderia ajudar a uma abertura política. Doce ilusão. A mesma que leva a pensar, de forma um pouco determinista, que a economia de mercado levará a China à democracia. As organizações de direitos humanos são quase unânimes: em nome da segurança e da eficácia do acontecimento o regime aumentou a repressão e a arbitrariedade. Tendo, desta vez, todo o mundo como cúmplice.

Estes Jogos Olímpicos foram utilizados para esmagar forças oposicionistas, com a mesma desculpa usada por tantas democracias para limitar as liberdades civis: o perigo terrorista. Activistas e defensores dos direitos humanos foram mantidos em prisão domiciliária ou em campos de trabalho forçado para impedir que, nas próximas semanas, protestem aos olhos do mundo. Mais de um milhão de migrantes que trabalharam para construir magníficas obras de arquitectura foram obrigados a abandonar a cidade. Para reduzir, por uns dias, os calamitosos níveis de poluição, foram encerradas centenas de fábricas em Pequim, mandando, de um dia para o outro, milhares de trabalhadores para o desemprego. 300 mil câmaras foram espalhadas pelas ruas e 400 mil voluntários fiscalizam cada bairro para identificar qualquer sinal de distúrbio político. Quem foi expropriado das suas terras ou despejado das suas casas por causa dos Jogos Olímpicos e se atreve a protestar é exemplarmente reprimido.

A escolha de Pequim é a confirmação simbólica da nova potência do Capitalismo Global. Só que esta confirmação tem um preço: de cada vez que virmos um atleta a subir ao pódio saberemos que muitos pagaram bem caro cada medalha.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
O Comando Marítimo do Sul avançou com a possibilidade de proibir massagens nas praias. Diz o comandante que "toda a gente sabe como começa uma massagem, mas ninguém sabe como vai acabar". Já o presidente da Região de Turismo do Algarve defende que os massagistas têm de ser "pessoas devidamente credenciadas para o efeito". Não queremos entregar a viril fama latina às mãos de simples curiosos.

Mas ninguém pode acusar o comandante, com o adequado nome de Reis Ágoas, de falta de coerência. Esta semana continuou a sua cruzada e resolveu ir directo ao pecado original: proibiu a distribuição de maçãs nas praias, promovida por uma dissimulada Fundação Portuguesa de Cardiologia - o chifrudo esconde-se sempre atrás das melhores intenções. Ao contrário do que acontece com as massagens, sabemos, desde o início dos tempos, como começa e acaba esta história das maçãs.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008
por Daniel Oliveira
Tudo começou com uma decisão peculiar: poucos meses depois das eleições autárquicas e de um entendimento com António Costa, em Lisboa, o Bloco de Esquerda anunciava que não tencionava reeditar o acordo com os socialistas. Nenhuma avaliação do seu cumprimento ou do trabalho de José Sá Fernandes. A decisão veio a seco e sem grandes justificações.

A partir daí assistimos a uma situação inédita: o BE fazia exigências públicas ao seu próprio vereador e coro com a oposição (algumas vezes com razão, como foi o caso da Praça das Flores), mas era incapaz de capitalizar qualquer vitória. E foram algumas: a aprovação do Plano Verde, o início do processo de integração dos trabalhadores a recibo verde, o afastamento de José Miguel Júdice da administração da Frente Ribeirinha e o início da reestruturação da EPUL, que ficou aquém do possível mas nos termos definidos pelo acordo. Em todos os casos o Bloco não só não tentou recolher os créditos do trabalho realizado como assinalou cada imperfeição.

Como é natural, outros partidos tentaram embaraçar o BE por governar Lisboa com o PS enquanto lhe fazia oposição no país. Mas se recordarmos que o PCP esteve, durante doze anos, coligado com os socialistas de Lisboa sem que o estivesse a nível nacional percebemos o que vale esta acusação. A diferença é que o PCP queria a coligação que fez. O Bloco ficou sempre na defensiva e assim perdeu várias oportunidades. Perdeu a oportunidade de mostrar que, numa grande cidade, é capaz de assumir responsabilidades. Perdeu a oportunidade de mostrar que, para si, o poder local não está submetido às tácticas partidárias nacionais. Perdeu a oportunidade de mostrar que é capaz de trabalhar com independentes e não apenas de levá-los a eleições.

Estive e continuarei a estar com o BE no combate político nacional e na oposição a este Governo. Mas elegi um vereador em Lisboa. Só quando sentir que não cumpriu os seus compromissos com a cidade deixarei de o apoiar. E para isso terei de esperar para ver. A isto chamo lealdade e coerência. Sem elas a política não vale a pena.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

por Daniel Oliveira
Radovan Karadzic era um carniceiro impiedoso que teve a sua quota-parte de mortes na guerra dos Balcãs. Era. Nos últimos 13 anos foi uma outra coisa. Antes de mais, roubou duas identidades. O nome a Dragan Dabic, um camponês e operário da construção civil. E a aparência a Petar Glumac, um curandeiro residente na Voivodina sérvia.

Com o nome, a cara e a profissão usurpadas a outros, Karadzic ter sido o contrário de si próprio. O cavalheiro de barba e cabelo branco, a quem as criadas chamavam de Pai Natal, curava os enfermos, oferecia flores às senhoras e até protegia da morte as abelhas indefesas. Dizia o homem que matou milhares de muçulmanos bósnios que sendo seres vivos as abelhas eram sagradas. Do passado só ficara o carisma. E só as amostras de ADN retiradas a partir de um fio de cabelo seu o denunciaram. Fica a dúvida: o Dabic com cara de Glumac uma mentira ou apenas um outro lado do monstro? Se assim for, como provável, o inverso também ser verdadeiro e mais inquietante: por esse mundo fora haverá milhões de velhos simpáticos que transportam um Karadzic adormecido.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
A propósito da vergonha nacional em que se transformou o caso Maddie, que pôs a nu os métodos kafkianos da nossa justiça, o amadorismo da PJ e do Ministério Público e a anedota em que se transformou o segredo de justiça, tem-se apontado o dedo a muita gente. A comunicação social tem sido relativamente poupada. As informações que foram saindo na imprensa eram, ao que tudo indica, quase todas falsas. Sedentos de publicar qualquer coisa, confirmada ou não, muitos jornalistas foram, durante meses, um canal de intoxicação sem peneira. As pessoas queriam saber coisas e coisas eram ditas. Se era verdade ou mentira, isso não foi critério importante.

Há uns anos, Paulo Pedroso e Ferro Rodrigues passaram pela mesma experiência. E apesar de garantida a sua inocência nunca serão inocentes. Foram julgados e condenados pela irresponsabilidade de muitos jornalistas e pela histeria justiceira de muitos cidadãos que olham para a tragédia alheia como se de uma telenovela se tratasse.

Nada disto é apenas português. Apenas uma diferença: no Reino Unido a imprensa indemnizou Robert Murat, vítima do delírio noticioso. Aqui, Pedroso, Ferro, os pais de Madeleine McCann ou o próprio Murat podem esperar sentados. A regra portuguesa é simples: o bom nome de quem tem nome é sagrado, até aos limites da censura. Mas se alguém cai em desgraça e se torna protagonista de uma novela judicial perde logo o estatuto de cidadão. É para queimar.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Itália teve um sobressalto ao ver uma fotografia. Deitados na praia de Torregaveta, nos arredores de Nápoles, cobertos por toalhas, os cadáveres de duas crianças de 11 e 13 anos. Duas crianças ciganas que morreram afogadas. Ali ficaram durante uma hora. Indiferentes, os banhistas apanhavam sol, jogavam à bola, petiscavam no bar, a poucos metros dos corpos inanimados. "Estas são as imagens da nossa cidade que não queríamos ver", disse Crescenzo Sepe, o arcebispo de Nápoles. Pior do que as do lixo amontoado nas ruas. Pode ser que seja apenas indiferença perante a tragédia que não passa na televisão. Mas a Itália civilizada que ainda existe tem todas as dúvidas. Vieram logo à memória as imagens dos acampamentos de ciganos de Nápoles em chamas, há poucas semanas. Incendiados por cidadãos amantes da lei e da ordem, entre os quais foram reconhecidos alguns membros da camorra. E foram recordadas as leis de Berlusconi para um recenseamento com regras especiais para os ciganos, a fazer lembrar a estrela de David nas lapelas de judeus.

Auschwitz, campos de detenção de americanos de origem nipónica na Segunda Guerra, Bósnia, Ruanda, espancamento de imigrantes na África do Sul... Não foram extraterrestres que tornaram tudo isto possível. A bestialização do outro, a indiferença perante o seu sofrimento, o ódio de tribo são tão velhos como a humanidade. O monstro está em todos nós. Basta uma distracção, basta esquecermos o passado, basta darmos ouvidos aos populistas de cada momento e ele volta a acordar. Está sempre à espreita. Até os cadáveres de duas crianças serem como lixo que espera ser recolhido.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 28 de Julho de 2008
por Daniel Oliveira
Desconfia-se sempre da televisão. Faz o velho parecer novo. Vizinhos tratarem das suas desavenças à estalada e até ao tiro não é novidade. Era assim que se fazia nas aldeias deste país. Focos de violência entre diferentes comunidades também não. É assim desde que existe humanidade. Que a intolerância é a forma mais imediata de nos relacionarmos com quem é diferente é ainda menos novo. E não está escrito em lado nenhum que as vítimas da discriminação são imunes a sentimentos racistas. As proporções do que se passou na Quinta da Fonte é que são maiores do que o habitual.

Podia acrescentar a tudo isto algumas considerações: que o estilo de vida dos ciganos foi destruído pelas novas realidades económicas e que eles ficaram sem lugar numa terra que é também sua e que há cinco séculos os trata com desconfiança; que as segundas e terceiras gerações de imigrantes (que se envolveram neste conflito) tendem a devolver em ressentimento o desrespeito com que a sociedade tratou os seus pais e os seus avós; que os bairros de realojamento erguidos nas periferias são uma bomba-relógio que acumula todos os problemas no mesmo lugar; que o que vimos na televisão é, em Portugal, a excepção e não a regra.

Mas não posso dizer nada disto. A ditadura do politicamente incorrecto que recentemente se abateu sobre o debate político tem uma lei sagrada: explicar é justificar. E como não se pode explicar, não se pode compreender. E como não se pode compreender, não se pode prevenir ou resolver. E assim nos orgulhamos da nossa ignorância e da boçalidade transformada em doutrina. O resultado do politicamente incorrecto está à vista na Itália de Berlusconi: a recolha de impressões digitais dos cidadãos ciganos, crianças incluídas - informação de que estão isentos os restantes italianos. A mesma Itália que enviou ciganos para Auschwitz esqueceu o seu passado. Porque também ela não quer ser refém do 'politicamente correcto'. Apesar deste ter sido, durante sessenta anos, uma eficaz barragem aos nossos piores fantasmas.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Omar Khadr é um cidadão canadiano e foi preso no Afeganistão quando tinha 15 anos. Vivia desde os 11 anos entre fundamentalistas e era menor quando foi acusado de matar com uma granada um soldado americano. Está há seis anos em Guantánamo e vimos agora um vídeo de um interrogatório que durou sete horas.

Tudo na história da sua prisão é uma aberração. É acusado de um crime de guerra por fazer o que na guerra se faz: matar. Coisa que, como é evidente, o homem que ele terá morto por ali andava a fazer. É acusado de um crime de guerra apesar de não ser um prisioneiro de guerra e por isso a ele não se aplicar a Convenção de Genebra. Não teve direito à defesa e às garantias que o Estado de direito dá a qualquer arguido, porque, apesar de não ser um prisioneiro de guerra, também não é um prisioneiro comum. Era um soldado-criança mas é tratado como um perigoso terrorista. Na realidade, está preso porque o seu pai era amigo de Bin Laden. A história de Omar, que já passou um quarto da sua vida numa prisão ilegal, é o legado desta Administração americana: sete anos de atropelos à lei internacional e aos direitos humanos. Num mundo com alguma noção de justiça, George Bush seria julgado. Com todas as garantias de defesa, claro.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Há um acordo no regime. Os piores ministros, depois de saírem do cargo, podem transitar para uma empresa pública ou privada ou para um organismo nacional ou internacional. Em troca, o país só lhes pede que se calem durante uns tempos. Infelizmente ninguém deu o que fazer a Isabel Pires de Lima e não há dia que a senhora não dê um ar da sua graça, atacando o que defendeu e propondo o que não fez. Agora quer um pólo da Cinemateca no Porto porque por lá se vêem poucos filmes antigos. Imagino que até Pires de Lima saiba que uma cinemateca não é uma sala de cinema. Mas o bairrismo, se vier com a devida vitimização perante a arrogância dos doutores de Lisboa, tem bilheteira garantida. É mesmo um clássico em exibição contínua.

Estou à vontade: reconhecendo o trabalho de Bénard da Costa, defendi, quando esse foi um debate, a saudável renovação dos cargos públicos, a que a cultura não deve estar imune. Não farei seguramente parte da "corte de Bénard". Mas tal não me chega para tolerar o triplo descaramento: que a mais incompetente titular da pasta da Cultura (que retirou a Santana um estatuto que parecia seguro) continue a massacrar o país com o seu ressentimento, em vez de prestar contas pelos crimes que cometeu no São Carlos ou no Teatro Nacional; que insista em insultar a nossa inteligência, falando do que não sabe ou fingindo que não sabe do que fala; e que transforme o debate sobre a política cultural em picardias regionais mais dignas do mundo da bola.

Por isso, doutora Isabel Pires de Lima, faça-se a si própria e a todos nós um enorme favor: fique na clandestinidade durante uns anos e dê-nos algum tempo para nos esquecermos da catástrofe do seu consulado. Se o fizer, e tendo este país memória curta, quase lhe posso garantir que voltará a ser ministra. Talvez da Agricultura.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Em Valpaços, o padre Manuel Alves andava aborrecido com as noites de perdição de um bar vizinho. Era o barulho, mas também uns supostos "desfiles de mulheres nuas". Sabemos que a Igreja Católica se comove com os descamisados, mas acima de tudo não tolera as descamisadas. Contra o ruído e a nudez o pároco fez greve de silêncio: enquanto não fechassem aquilo os sinos da igreja não tocariam. E do altar começou a sua cruzada. Não contra a fome no mundo ou as injustiças na terra, não pela paz entre os homens ou a salvação das almas. Queria era as senhoras vestidas e dormir descansado. De nada serviu a boa vontade do gerente: "no mês de Maria, na hora do terço, desligávamos sempre a música e a televisão". A família valpacense não tem horas marcadas para a virtude e prefere os sinos eclesiásticos ao deboche do café local. Gostos não se discutem. Conta o 'Jornal de Notícias' que a ASAE, sempre alerta no combate à colher de pau, ao pastel de bacalhau caseiro e a todos os vícios não regulamentados, tomou conta da ocorrência. Encontrou, claro, várias irregularidades e fechou o estabelecimento. A defesa da família tradicional e da culinária liofilizada deram as mãos e numa cidade deste país voltou-se a viver na paz da lei e do senhor. Em Valpaços já se ouvem os sinos.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
Assisti esta semana, em Nova Iorque, a uma Marcha do Orgulho Gay. Numa área metropolitana com mais de meio milhão de homossexuais, centenas de milhares de pessoas encheram Manhattan. Pastores de igrejas mais liberais; polícias e bombeiros que saíram fardados do armário; congressistas, um senador e o governador do Estado desceram, ao lado de travestis, a 5ª Avenida. Trata-se de uma luta por direitos cívicos. Ou se está de um lado ou do outro e não há espaço para conservadorismos envergonhados ou liberalismos inconsequentes, tão ao gosto português. Este é o país do Ku Klux Klan e de Malcom X, das feministas mais radicais e dos cristãos mais tresloucados, de São Francisco e de Salt Lake City.

"Para os americanos branco é branco, preto é preto (e a mulata não é a tal), bicha é bicha, macho é macho, mulher é mulher e dinheiro é dinheiro. E assim ganham-se, barganham-se, perdem-se concedem-se, conquistam-se direitos". São assim os americanos, nas palavras de Caetano Veloso. Ingénuos até à irresponsabilidade, francos até à crueldade, claros até ao fanatismo. Não há tempo para subtilezas. É tudo recente, é tudo urgente.

Só que mesmo no conflito a América tem os seus consensos. Não eram só associações religiosas, cívicas ou étnicas que marchavam na 5ª Avenida. O acontecimento era patrocinado por muitas marcas e grande parte dos manifestantes vinha em nome das suas empresas e fazia-lhes publicidade agressiva. A imagem dos gays a manifestar-se com a T-shirt que lhes ofereceu o patrão e a distribuir os seus porta-chaves não podia ser mais americana. É-se livre de escolher um lado e ser-se de alguma coisa. Mas, seja do que se for, é no mercado que todas as liberdades se consumem e se consomem. Porque é no mercado que se cumpre o sonho de ser americano. Como diz Caetano: "dinheiro é dinheiro".
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
A biografia autorizada de José Sócrates foi finalmente lançada. O país esperava por este panegírico. Nada mais empolgante do que revisitar a vida de um homem sem passado e conhecer as reflexões de um líder a quem nunca ninguém conheceu uma ideia política. Para atestar das qualidades do biografado foram buscar os melhores padrinhos: Dias Loureiro e António Vitorino. E eles encontraram-lhe extraordinárias qualidades. Loureiro entusiasmou-se: "o optimismo de Sócrates faz muito bem a Portugal". Não se sente o caro leitor contagiado pela onda de esperança que o nosso primeiro espalhou do Minho ao Algarve? Temos Obama.

A escolha de Loureiro e Vitorino foi uma excelente metáfora. Os dois representam o centrão mais profundo: o dos políticos que depois de se retirarem saltitam por empresas; o dos consultores e administradores que se movem nos corredores do poder como se estivessem em casa; o dos comentadores que estão na política sem nunca lá estarem. São os homens que nunca estão em lado nenhum mas andam sempre por aí, num limbo em que não se sabe onde acabam os negócios e começa a política. Aí estão para abençoar o seu menino de ouro.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 7 de Julho de 2008
por Daniel Oliveira
A Europa é uma excelente ideia, os europeus é que estragam tudo. Já fora assim em França e na Holanda, voltou a ser assim na Irlanda. Para contornar estes inconvenientes cidadãos já se tentou de tudo: fazer o mesmo tratado com outro nome, mandar repetir o voto, proibir os estados de consultar os eleitores ou recorrer à ameaça, dando a entender que é condição para estar na União não ter opinião. Só não se tentou o mais difícil: perceber os sinais e repensar o conteúdo e o método.

A União Europeia é um projecto absolutamente original na história. Ao adoptar uma moeda própria deu um salto sem precedentes. Mas ficou a meio. Falta-lhe unidade política e social e mais legitimidade democrática. E este é o passo difícil. Porque as identidades nacionais, os interesses contraditórios e os conflitos ideológicos não são uma invenção populista, como julga o impaciente Barroso. São tão reais como a longa e sangrenta história europeia. Por isso, só conheço duas formas de resolver o impasse: ser mais cauteloso, optando por um tratado menos ambicioso para garantir que as opiniões públicas de todos os estados o aceitam; ou ser mais arrojado, elegendo nas próximas eleições um Parlamento que decida, com legitimidade democrática, o caminho a seguir a partir daqui. Continuar a chantagear os europeus ou a procurar atalhos é que não vai resultar. Porque os europeus não estão dispostos a desistir de uma soberania democrática em troca de um poder supranacional que se recusa a ouvir a sua voz. Não é nacionalismo. É bom senso.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
O grande debate nos EUA volta a ser o financiamento das campanhas. E por uma razão inesperada: Obama recusou dinheiros públicos. Com esta decisão deixa de estar limitado nos montantes que pode gastar. Mas atira por terra as reformas propostas há anos pelos democratas, que querem diminuir o peso do financiamento privado na política. As razões dos democratas são simples: os republicanos costumam contar com maior generosidade das corporações. As razões de Obama também: desta vez um democrata conseguiu angariar mais dinheiro do que o seu oponente republicano. Através da Internet, dois terços das contribuições para a sua campanha foram inferiores a mil dólares, o que acontece com apenas um terço das contribuições para McCain. Mesmo assim, por mero calculismo conjuntural, Obama poderá ter comprometido a mais urgente reforma na vida política americana: libertar os candidatos da dependência dos interesses privados.

A realidade portuguesa é bem diferente e as recentes mudanças na lei melhoraram a situação. Mas no momento em que surgiram novas regras logo se abriu um novo buraco negro: sem legislação para as directas nos partidos nada sabemos sobre o financiamento dos candidatos. Poderá ser nesse momento que os políticos nacionais hipotecam a sua independência. A solução é simples: nas directas, o financiamento tem de ser dado pelo partido; nas eleições ele deve ser público. Incomportável para o Estado? Só na aparência. Aqui como nos EUA, os favores aos financiadores acabam por sair bem mais caros aos contribuintes.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
O Parlamento Europeu aprovou esta semana uma nova legislação contra a imigração. Uma directiva que alarga para um ano e meio o período de detenção dos imigrantes sem papéis que estejam à espera de expulsão. Os imigrantes, que não cometeram qualquer crime, podem ficar, caso não haja alternativa, em prisões comuns. A possibilidade de expulsão aplica-se a todos, incluindo aos que vivam na Europa há anos e estejam em fase de renovação de documentos. Crianças não acompanhadas também podem ser detidas. Mas a directiva, no seu espírito humanista, define que os pequenos prisioneiros podem participar em actividades de lazer. Bons corações!

Resumindo: os imigrantes são, desde tenra idade, tratados como criminosos. Le Pen pode finalmente reformar-se. A Europa de Sarkozy e Berlusconi, com a conivência abstencionista de parte dos socialistas europeus, já assumiu a sua agenda.

Esta é a mesma Europa que viu sair hordas de irlandeses, polacos, portugueses, turcos, gregos, judeus, italianos, galegos, holandeses e alemães em fuga da fome e da guerra para construir grandes nações na América do Sul e do Norte. Agora prende quem lhe entra em casa. Esta Europa tem medo dos imigrantes, medo dos negócios chineses, medo de enfrentar os americanos, medo do voto dos seus próprios cidadãos. Medo da sua própria sombra. Fez a guerra e a paz, reconstruiu-se e uniu-se, colonizou e descolonizou, emigrou e recebeu imigrantes. Tem um longo passado. Mas tem demasiado medo para ter futuro. Não aprendeu nada com os que partiram.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

por Daniel Oliveira
Del Martin tem 87 anos. Phyllis Lyon tem 83. Duas senhoras de idade respeitável que vivem juntas há mais de 50 anos, muito mais do que a maioria dos casamentos aguenta. Queriam casar e a lei dizia que não eram dignas para tanto. Dizia mas já não diz. O Supremo Tribunal da Califórnia declarou esta discriminação inconstitucional. E elas foram das primeiras a chegar à Câmara Municipal de São Francisco para dar finalmente o nó.

Devo dizer que, dos que se opõem a esta mudança na lei, os que mais irritam são os supostos 'progressistas'. Dizem eles: num momento em que o casamento perde importância é anacrónico que os homossexuais façam dele o seu cavalo de batalha. No fundo, acham que os homossexuais, já que são homossexuais, deviam estar na vanguarda de uma suposta 'dissolução dos costumes'. Não podem ser como os outros. Não podem querer bolo de noiva, despedida de solteiro e lua-de-mel. Se o quiserem não passarão de uma cópia ridícula dos casais a sério. Perdem a função decorativa e tão pitoresca nas noites das grandes metrópoles.

O que está em debate não é o casamento. Essa é uma escolha de cada um. Casar, não casar, ser virgem até à noite de núpcias ou viver sem pouso nem parceiro certo. O que está em causa é muito mais importante. É a igualdade perante a lei. É o direito a não querer casar. Porque não se quer, não porque é proibido. Com mais de oitenta anos, Del e Phyllis quiseram. Até que a morte as separe.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
De quatro em quatro anos Portugal calça as chuteiras e enche-se de orgulho pátrio. As bandeiras de Scolari voltam às varandas e o hino da selecção sai tonitruante das emocionadas gargantas nacionais. Não, os portugueses não têm orgulho no seu país. Afinal de contas, como canta Sérgio Godinho, só neste país é que se diz "só neste país!". E diz-se com aquele desprezo esmagador: no mundo nada deve ser tão mau como isto. Muito arrogante esta nossa interminável depressão.

Mas depois lá volta o Europeu. E só neste país é que se joga à bola assim. E só neste país se é tão grande, tão genial, capaz de tanto. E quem não vibra com a selecção está abaixo de Vasconcelos. Com o entusiasmo, até alguns imigrantes ganham direito à nacionalidade, mesmos que os outros, os que não jogam à bola e vivem neste país, nem a um papel que diga que existem tenham direito.

Talvez demasiado excitado com este patriotismo sazonal, o Presidente teve mais um lapso dos muitos que pontuam a sua carreira: julgou que no dia 10 de Junho ainda se celebrava o "dia da raça". Numa terra de vira-latas arraçados supõe-se que o termo tenha pouco a ver com a cor da pele. Cavaco Silva usou a expressão que a sua memória sem memória política retém de outros tempos. Sem se aperceber que essa era a terminologia usada no tempo de outro professor que, sendo também economista, só presidia ao Conselho. Não deixa de ser curioso que o mesmo homem que ainda há dois meses se lamentava do escandaloso desconhecimento histórico exibido pelos jovens deixe de tal forma claro que com ele não aprenderiam muito. E como não sou mais do que os outros, sou obrigado a dar razão aos meus compatriotas. O melhor é mesmo a selecção. Quanto ao resto, a começar pelo nosso Chefe de Estado, parece tudo tão mau que só mesmo neste país!
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

por Daniel Oliveira
A greve dos camionistas não foi, na realidade, uma greve. Foi um "lock out", proibido pela lei portuguesa. As empresas não podem fazer greve ou obrigar os seus trabalhadores a fazê-la em seu nome. No entanto, ao contrário do que acontece quando uma população bloqueia uma estrada ou quando um piquete de greve encerra uma fábrica, as autoridades foram, durante dias, de uma infinita compreensão. Nas greves de transportes públicos exigem-se serviços mínimos que correspondem à proibição da greve. Mas quando um grupo de empresários encerra estradas e obriga outras transportadoras a fazer-lhe companhia logo a linguagem se torna mais doce.

Compreendo que, tal como o resto dos portugueses, os donos das transportadoras, algumas delas empresas familiares, estejam desesperados com o preço dos combustíveis. Até compreendo que queiram custos em gasolina iguais aos dos espanhóis. Mas, quando os preços eram aproximados, estiveram disponíveis para ter as mesmas despesas com a mão-de-obra? Querem condições iguais ou apenas a parte fácil dos seus vizinhos? A ver se estes empresários percebem as regras do jogo: ou ficam com as vantagens e com as dificuldades, ou ficamos nós todos com o seu risco, mas também queremos os seus lucros. Não podem é querer ser empresas privadas quando tudo corre bem e do Estado quando a coisa dá para o torto.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar

Segunda-feira, 16 de Junho de 2008
por Daniel Oliveira
O PS e o Governo não estão a dormir e à espera que Mário Soares faça um aviso". Assim respondeu Mário Lino ao artigo do ex-presidente sobre a pobreza. Na sua inocência, não percebe que o eleitorado socialista é capaz de não apreciar que um cristão-novo fale de alto com o seu fundador. Já Vitalino Canas acusou Manuel Alegre de falta de lealdade por andar em comícios mal frequentados. Deveria saber Vitalino que lealdade e obediência não são bem a mesma coisa. A muita gente é capaz de parecer traição bem mais grave ver um porta-voz do PS como provedor de empresas de trabalho temporário.

O problema de Manuel Alegre não é falta de lealdade. É ainda não ter dado um passo consequente com as suas posições e manter-se agarrado a uma retórica autocontemplativa da esquerda. Só que o PS, entregue a um cabide sem alma, sem currículo e sem memória que vive cercado de gnomos políticos, dá os sinais de autismo típicos do fim de um ciclo. Quanto maior o isolamento e a irritação do seu próprio eleitorado maior a arrogância e mais palco para figuras de vigésima linha. Do cavaquismo ao barrosismo, foi sempre assim no fim de todos os consulados. É por isso natural que o ministro mais trapalhão deste Governo e o provedor Vitalino valorizem a lealdade ao chefe. Não existem para lá dela, não existirão depois dela.
tags:

por Daniel Oliveira
link do post | comentar | partilhar


pesquisa
 
TV Arrastão
Inquérito
Outras leituras
Outras leituras
Subscrever


RSSPosts via RSS Sapo

RSSPosts via feedburner (temp/ indisponível)

RSSComentários

arquivos
2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


Contador