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Arrastão: Os suspeitos do costume.

O exemplo

Sérgio Lavos, 07.08.12

O Insurgente, que nada tem a dizer sobre as pressões e a intromissão na soberania da Grécia ensaiadas pela Alemanha, a Áustria, a Finlândia e a Holanda, acha mal que Hollande pressione a Itália a aceitar o resgaste da UE. Parece-me natural. No fim de contas, François Hollande está a fazer tudo o que prometeu em campanha e a economia de França rapidamente respondeu de forma positiva. E a receita do presidente gaulês inclui medidas inomináveis, entre elas um imposto sobre os mais ricos que vai incidir no património e nos rendimentos, um corte de 30% nos salários dos membros do Governo, o fim de várias benesses dos governantes (carro pago pelo contribuinte, ajudas de custo, etc.) e a alocação das verbas poupadas em programas de estímulo ao emprego de jovens licenciados. Inconcebível, um Governo que se preocupa em dar o exemplo nos cortes de despesa preocupando-se ao mesmo tempo em injectar esse dinheiro em sectores da economia dependentes do Estado. Um Governo preocupado em fazer incidir a austeridade sobretudo sobre os mais ricos.

 

Ainda bem que o nosso Governo PSD/CDS não está a fazer nada disto - os carros dos governantes continuam a ser topo de gama, os salários não baixaram (e Pedro Passos Coelho até acha que os políticos não são bem pagos) e os boys continuam a entrar nos ministérios e nos institutos públicos ganhando os dois subsídios que o resto da Função Pública perdeu. Abençoado Governo de direita, que não segue a receita completamente alucinada dos franceses...

E em França

Miguel Cardina, 22.04.12

Hollande bate Sarkozy por pouca margem. Mais à esquerda, Jean-Luc Mélenchon, que fez uma campanha marcante, obtém um resultado positivo (entre 10,8 e 12%). Ainda assim, permanece aquém de algumas sondagens mais optimistas e vê o seu resultado ficar assombrado pela preocupante ascensão da extrema-direita de Marine Le Pen, que andará entre os 18%-20%. Lendo alguma coisa sobre as tendências de voto dos eleitores das candidaturas que não vão à segunda volta - e ouvindo já os apelos de Eva Joly e Mélenchon para que a 6 de Maio se derrote o "sarkozysmo" - não me parece claro que o actual presidente tenha a reeleição assegurada. Já seria uma pequena vitória. A juntar ao facto destas eleições terem visto emergir uma candidatura ampla de esquerda que soube resgatar um discurso como o que se pode ler nesta mensagem de agradecimento de Mélenchon:

 

Merci à tous ; chacun a donné le meilleur de lui-même dans cette campagne populaire. Et nous sommes fiers. Tous. Fiers d'avoir ouvert une brèche d'espoir dans cette Europe austéritaire qui méprise les peuples, fiers d'avoir relevé le drapeau du partage ! Les prémisses d'une grande et belle révolution citoyenne sont posées. L'insurrection civique ne fait que commencer ; tenez-le vous pour dit.

On lâche rien. Résistance.

Por vezes, o crime não compensa

Sérgio Lavos, 26.08.10
Parece que a jogada de Nicholas Sarkozy - o anúncio veraneante de dureza no combate à criminalidade, o que, descontado o jargão político, significa perseguir ainda mais as minorias empobrecidas que vivem no país - não resultou, e ele vai caindo a pique nas sondagens. Vai daí, abdica-se da dureza - e do namoro com a falange lepenista - e pede-se moderação nas deportações. Expulsá-los, mas com jeitinho, não vá o eleitorado flutuante de extrema-direita recém conquistado assustar os outros votantes na UMP. Foi você que falou em ideologia e princípios?

Lei virgem

Daniel Oliveira, 01.06.08

A decisão do tribunal francês de anular um casamento entre muçulmanos porque a mulher não era virgem, ao contrário do que dissera ao marido, é um absurdo e nada tem a ver com "multiculturalismo", uma palavra que parece querer dizer tudo e coisa nenhuma. A exigência da virgindade feminina até ao casamento era normal nas sociedades cristãs até há muito poucas décadas (e ainda o é em alguns meios muito conservadores). Não se trata assim de um idiossincrasia de uma determinada cultura. A libertação sexual das mulheres foi uma conquista das sociedades modernas. E foi uma conquista cultural e política contra muitos dos que hoje fazem dos direitos das mulheres um cavalo de batalha para um choque de civilizações. E que conseguem manter um discurso completamente esquizofrénico conforme falam dos "outros" ou de "nós".

Se a decisão tivesse partido, como já aconteceu num caso diferente na Alemanha, de algum tipo de respeito por diferenças culturais seria, apesar de tudo, mais grave. Porque significaria o abastardamento da ideia de tolerância, usando as mulheres muçulmanas para, na realidade, recuar nas liberdades que as mulheres aqui foram (sem consensos) conquistando. Retardar a liberdade das muçulmanas para recuar na liberdade das europeias. Mas não foi assim: a decisão deveu-se apenas a um fundamentalismo jurídico muito comum em magistrados e advogados. Como se a lei e a vida não tivessem de ter qualquer relação.

Esta decisão parte de um princípio: que sendo o casamento um contrato, mentir na celebração desse contrato é razão para a sua nulidade. Argumenta o marido: agiu "movido por um erro objectivo" que para ele "era determinante para seu consentimento".

Na realidade, e com as devidas diferenças, ter a infidelidade como razão de culpa num divórcio não está longe deste princípio. É a ideia de que a lei pode e deve ser guardiã das condições pré-estabelecidas no casamento mesmo que estas sejam do domínio do que mais privado possa haver na vida das pessoas. Que a lei pode regular os afectos como se regula qualquer contrato. Como se vê por esta decisão, não bate certo com qualquer ideia de justiça, na relação que ela tem de ter com o senso comum.

Diz o promotor de Lille que o problema da virgindade centrou um pouco o debate mas que a questão central é o facto da jovem ter mentido. Na sua cegueira jurídica o magistrado não vê a evidência: que a mulher e o homem não estavam em pé de igualdade naquele contrato. Que ela não podia pedir o mesmo ao seu noivo. E a razão porque não o podia fazer nem é religiosa. O islão exige virgindade antes do casamento à mulher e ao homem. A razão é sempre a mesma: desigualdade objectiva entre as duas partes. Se a mentira, nos afectos, é um assunto que só às duas pessoas envolvidas pode dizer respeito, quando há um tamanho desequilíbrio de poder ela pode mesmo ser a única forma reequilibrar as forças.

A lei deve sempre proteger, antes de tudo, quem está mais desprotegido. E não deve ser um instrumento de institucionalização de desigualdades, mesmo que elas, em determinado momento e em determinados contextos, sejam aceites como naturais. Este é um bom caso para o recordar e fazer tocar alguns sinos em algumas cabeças.