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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Greve (2)

Miguel Cardina, 21.03.12
Amanhã é dia de greve geral. O Portugal que trabalha e o que quer trabalhar vai mostrar que não aceita o roubo nos salários, a perda de direitos e a desigualdade crescente. Gesto difícil para muitos/as, para quem o salário de um dia pode fazer diferença, que trabalham sob a chantagem do despedimento fácil ou para quem a própria ideia de parar de trabalhar um dia é de difícil execução. Gesto fundamental, contudo, porque sem resistência a ofensiva austeritária continuará. E porque lutar, ao contrário do que nos dizem diariamente, dá resultados e a história está cheia de exemplos. Amanhã é greve mas é mais do que isso: é dia de indignação geral. No Porto prepara-se uma recepção a Passos Coelho. Em Lisboa haverá manifestação. No país todo é o dia em que podemos tomar um gesto que concretize o queixume de sofá, a insatisfação legítima, a raiva latente. É amanhã e diz respeito a cada um/a de nós. Calados/as teremos o mesmo destino que a nêspera do poeta. (com um agradecimento especial à Vera Santana que a este texto acrescentou a pequena mas fundamental dica do "quer trabalhar".)

A brutalidade policial na greve

Miguel Cardina, 28.11.11

A actuação da polícia na última greve geral merece repúdio veemente. Assobiarmos para o ar significa ignorarmos a lei e deixarmos todo o espaço à brutalidade policial. Há indícios muito fortes da presença de polícias à paisana procurando criar tumultos junto à escadaria da Assembleia. Com particular destaque para este agente encapuçado, agridiram violentamente um indíviduo com um bastão extensível. Uma das testemunhas do facto é a deputada Ana Drago, que aqui o refere. Apesar de afirmarem que um inquérito se encontra aberto, a polícia e o governo, através do MAI, têm ajudado mais a confundir do que a clarificar o que se passou. Vale a pena, por isso, ler as perguntas que a Shyznogud faz.

Mais depressa se apanha um mentiroso...

Sérgio Lavos, 25.11.11

 

Hoje de manhã, na Antena 1, Miguel Macedo, Ministro da Administração Interna, garantiu que não havia polícias inflitrados na manifestação de ontem. Mentiu. Para além dos relatos de pessoas que lá estiveram e viram elementos à paisana a proibir fotografias, há outros que afirmam haver elementos que estavam na manifestação apenas para provocar distúrbios. Há fortes suspeitas de que o incidente que se tornou a notícia principal dos telejornais tenha sido instigado por um infiltrado, alguém que, assim que foram derrubadas as barreiras, passou do lado dos manifestantes para o dos polícias fardados. E depois há este vídeo, de um outro infiltrado a sacar de um cassetete e a espancar brutalmente um manifestante que entretanto tinha sido preso por outros polícias à paisana. O polícia que acabou por ir parar ao hospital estava neste último grupo e tudo indica que terá sido ferido pelo seu próprio colega - vê-se isso no vídeo.

 

Os sinais são evidentes: o único ministério que viu o seu orçamento reforçado foi o da Administração Interna; regularmente, saem notícias para os jornais referindo "grupos anarquistas" que ninguém sabe quem são e que acabam, estranhamente, por nunca aparecer nestas manifestações; e começam a tornar-se regra hábitos de vigilância que Portugal não via desde o tempo da PIDE e dos seus bufos. Pior do que a mentira descarada do Governo, é o destino da nossa democracia. Os seis meses de suspensão pedidos por Manuela Ferreira Leite podem vir a tornar-se reais. E mais prolongados. Quem se preocupa?

 

Adenda: o vídeo original foi apagado do Vimeo. Não gosto de teorias da conspiração, mas que é muito estranho, é. Fica a versão que está no YouTube.

A Greve explicada às crianças e aos pobres de espírito

Sérgio Lavos, 24.11.11

 

O ministro da propaganda, o ominoso Relvas, reservou um lugarzinho para si no Telejornal da RTP1, logo a seguir às reportagens sobre a greve. Se isto não é uma espécie de "Conversas em Família", não sei o que possa ser. O pior é que mudamos para a SIC, controlada por uma das principais figuras do PSD, e ainda é pior: a cobertura feita na SIC-N foi vergonhosa, de uma parcialidade imbecil e perigosa. A quantidade de apartes engraçadinhos e despropositados que a principal repórter a acompanhar a manifestação ia fazendo às declarações das pessoas presentes deveria figurar num manual de mau jornalismo. Por outro lado, a histérica repórter da RTP, Rita Marrafa de Carvalho, andou a tarde toda a clamar por "tumultos", e quando finalmente aconteceram (provavelmente instigados por um infiltrado da PSP), fugiu escadarias da Assembleia acima gritando "tumultos! tumultos" e reclamando junto dos polícias por estes estarem a agredir jornalistas (e aconteceu, um fotógrafo está hospitalizado)*. A TVI acabou por fazer a cobertura mais professional e imparcial. 

 

Seja pública ou seja privada, a televisão e os seus funcionários já têm o discurso ensaiado: as medidas de austeridade são necessárias, e quem se opuser é um agitador criminoso. Os repórteres destacados para acompanhar estes acontecimentos levam o disco formatado e não conseguem sair do guião, até porque estão a ser observados pelo patrão. Entre o sensacionalismo, a incompetência e o preconceito, acabam por levar a água ao moinho de quem dirige as estações. A excepção da TVI (que tinha já acontecido em anteriores manifestações) atenua um pouco este estado de coisas. Mas o panorama geral é desolador.

 

*Eu vi em directo a polícia a dar bastonadas em tudo o que se mexia, incluindo quem não tinha nada a ver com a invasão das escadarias e jornalistas que por ali estavam. Na RTP. Curiosamente, essas imagens não passaram na reportagem do Telejornal, nem a agressão a jornalistas foi referida. Mas claro, o ministro da propaganda já estava no estúdio. Não iam querer fazer má figura, certo?

 

Adenda: a Fernanda Câncio, sem ter visto a cobertura da greve nem ter estado nas manifestações (imagino eu) indigna-se com a minha generalização sobre o trabalho dos jornalistas destacados para este tipo de reportagens. Fica-lhe bem a defesa da sua classe, mas prefiro nem sequer responder a tal indignação mal-educada. Eu sei o que vi, e posso imaginar o que está por detrás daquilo; não devemos ser ingénuos: a maioria dos repórteres que acompanhou a manifestação, de cada vez que falava com um dos manifestantes ou directamente para a câmara, espumava de ideias feitas sobre a greve e as intenções de quem ali estava. Um dos exemplos foi a repórter da SIC a insistir com um dos manifestantes, Avenida abaixo, sobre a legitimidade de estar ali e da greve, tendo em conta a situação económica do país. Mas enfim, lá está, só quem viu ontem os canais noticiosos e os telejornais é que pode saber do que eu estou a falar...