Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Arrastão: Os suspeitos do costume.

Invenções

Miguel Cardina, 16.10.11

 

Comentadores e blogues de direita andam entusiasmados com a ideia de Passos Coelho de criminalizar ex-governantes e gestores públicos. Percebe-se. A proposta legitima o actual discurso governamental que busca justificar inteiramente as duríssimas medidas de austeridade do OE2012 com o legado Sócrates. O homem que parece possuir também a tal relação difícil com a verdade galga assim as piores pulsões da imensa massa que anda chateada com o estado de coisas. Basicamente, convoca nesta proposta a velha ideia de que os políticos são uma classe à parte - todos igualmente egoístas e preocupados com a própria “vidinha” - e que as opções políticas não são efectivamente opções, mas um mero acto de gestão técnica. Ou seja: a austeridade realmente existente, tal qual foi agora anunciada, é uma consequência inevitável de um “desvio colossal”. Portanto, basta detectar o desvio, indicar os agentes da monstruosa curvatura e tudo volta aos eixos. Como se a “crise da dívida” fosse apenas portuguesa e se explicasse dessa forma. Como se um Estado magro e de défice zero fosse virtuoso. Como se a política se resumisse a contas de mercearia.

 

Claro está que a responsabilização de políticos e gestores é fundamental. Parece até que já existem leis a esse respeito. Ainda recentemente foi aprovada na AR uma lei que criminaliza o enriquecimento ilícito. Talvez agora falte dar um outro passo: efectuar uma auditoria às contas públicas, a partir da sociedade civil, que avalie compromissos assumidos pelo sector público e seus impactos. Deste modo se poderiam detectar eventuais responsabilidades como adiantar caminho para uma reestruturação que mais tarde ou mais cedo o país terá de empreender. Tudo o resto é folclore populista vindo de um partido que fez crescer à sua sombra um banco cuja falência mandou um “rombo colossal” no erário público. E que está coligado no governo com um outro partido cujo líder mandou duvidosamente comprar dois submarinos que custaram mais do que o governo espera arrecadar com os cortes nos subsídios de Natal e de férias. No fundo, é todo um novo desporto que acabou de ser inventado: cuspir para o ar e esperar que o brinde caía apenas na testa do vizinho de trás. Geralmente corre mal.

 

Publicado também no Portugal Uncut

Convergências e escolhas

Miguel Cardina, 25.03.11

Ao contrário do que já li por aí, este governo não caiu de podre. Caiu de manha, como alguns jogadores que pressentem o adversário por trás e simulam a queda na grande área. Do timing ao modo como foi preparada a apresentação do PEC 4, tudo foi feito para impossibilitar a sua aprovação pelo PSD, o parceiro habitual do PS nesta sucessão de medidas austeritárias. O PS procurou assim libertar-se do fardo de ter de ir receber à porta o FMI e abriu campo a um discurso de vitimização. Quanto ao PSD, empurrado pelas circunstâncias e pela fome de poder, lançou-se de imediato numa tentativa de demarcação política, que já levou Passos Coelho a um estranho exercício de faltar às promessas eleitorais antes mesmo de poder ser eleito. Como já estamos em clima pré-eleitoral, entraremos num período de crispação retórica que tenderá a encobrir as convergências de fundo entre a direita neo-liberal e a “esquerda-merkel”, como convenientemente lhe chamou Zé Neves. Por isso mesmo é muito interessante o quadro elaborado pelo Público sobre a “repartição dos sacrifícios” constantes nos PECs e a análise que o Nuno Serra faz dele, mostrando a sua intrínseca injustiça. Alguém consegue dizer-se de esquerda e manter a imperturbabilidade diante desse programa do bloco central tácito?

Ainda se fosse um cartoon...

Pedro Sales, 17.09.08
Na mesma semana em que se soube que uma comediante italiana poderá vir a ter que responder em tribunal por ter feito uma piada com o Papa Bento XVI, atitude que lhe pode valer uma pena de prisão até 5 anos, tornou-se público que a polícia alemã está a assegurar a protecção a um padre protestante que tem recebido ameaças à sua vida desde que escreveu uma canção criticando Bento XVI. Ao contrário dos célebres cartoons com Maomé, e será certamente por distracção, ambos os casos não têm merecido a indignação dos exaltados de serviço quando a intolerância religiosa e ataques à liberdade de expressão vêm de outras latitudes.