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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Se não aconteceu, irá certamente acontecer, ou eu morra aqui ceguinho

Sérgio Lavos, 16.01.13

 

Dizem os manuais de jornalismo que uma notícia deverá versar sobre o aconteceu, quando aconteceu e como aconteceu. No Diário de Notícias de ontem, tivemos outra espécie de jornalismo, uma invenção do outro mundo, a que poderíamos chamar jornalismo Maya - em homenagem à conhecida taróloga. 

 

Começamos pela capa, um fenómeno do Entroncamento. Elenca-se uma série de medidas de austeridade e escreve-se que essas medidas são "propostas que a OCDE deverá verter dentro de alguns meses num estudo sobre a reforma do Estado". É o Inimigo Público? Não, é a sério, acreditem. Recordemos: o estudo referido será aquele que o primeiro-ministro disse que tinha sido encomendado à OCDE há poucos dias, encomenda essa prontamente desmentida por uma fonte do organismo, que informou os jornais de que não tinha sido contactado pelo Governo. No dia seguinte a este desmentido, veio o Governo informar que o Carlos Moedas iria pedir até ao final da semana (passada) esse estudo que Passos Coelho afirmara solenemente em frente às câmaras já ter sido pedido. Não sabemos se Moedas já encomendou o tal estudo, mas que isto não sirva de entrave ao jornalista que redigiu a premonitória notícia do DN. A OCDE poderá ainda nem saber que o Governo precisa de um estudo (que confirme as suas opções ideológicas), mas as suas conclusões - a serem apresentadas "dentro de alguns meses" - já são conhecidas pelo jornal. E, surpresa das surpresas, irão apontar para cortes bastante próximos dos preconizados pelo Governo e pela turba de sicários que o defende nas televisões. 

 

A inovação jornalística é tanta que a notícia esmiuça ponto por ponto as tais propostas que a OCDE irá apresentar dentre "de 3 a 6 meses". Há inclusive uma série de citações de um relatório da organização datado de Julho passado que, maravilha das maravilhas, passa a pertencer ao relatório vindouro, o tal que será apresentado (daqui a 3 ou 6 meses, recorde-se) depois de uma visita dos técnicos a convite (ainda não oficial, recorde-se) do Governo. 

 

Tudo isto seria extraordinário, se não fosse profundamente patético e uma vergonha para o Diário de Notícias. Sabemos que há assessores no Governo que vieram do DN e sabemos que há jornalistas no DN que se limitam a veicular a propaganda que é soprada dos gabinetes ministeriais. Mas precisavam mesmo de colocar a sua credibilidade profissional em causa, expondo-se ao ridículo desta maneira?

 

(Outra opinião sobre este extraordinário fenómeno aqui.)

Morte ao mensageiro

Miguel Cardina, 19.02.12

Um dos problemas da democracia de hoje - que toda a gente repete até à exaustão - é o "divórcio entre os cidadãos e os seus representantes". E o que faz a UE quando por momentos é dado aos cidadãos um vislumbre do que se decide à porta fechada? Quando se tem um relance da falsidade do discurso do "não haverá novo empréstimo", "não somos a Grécia", "estamos no bom caminho e não haverá qualquer necessidade de reestruturar a dívida"? Faz o óbvio: suspende o repórter de imagem.

Foi você que pediu uma notícia encomendada?

Sérgio Lavos, 27.10.11

 

"Presidência da República no Paraguai com comitiva de peso.

 

Enquanto Passos Coelho se faz acompanhar de quatro pessoas, Cavaco Silva leva 23 para uma cimeira de dois dias.

 

Se a importância que os nossos governantes dão aos países que lhes cabe visitar se medisse pela dimensão da comitiva que os acompanha, ficaríamos a saber que a 21.a Cimeira Ibero-Americana, que decorre entre os dias 27 e 28 de Outubro, em Assunção, no Paraguai, é muito mais importante para o Presidente da República que para o primeiro-ministro ou para o chefe da diplomacia, Paulo Portas. Enquanto Pedro Passos Coelho leva consigo quatro pessoas, incluindo segurança, Aníbal Cavaco Silva arrasta atrás dele um séquito de 23, no qual se incluem mordomo e médico pessoal. O Presidente, que se eternizou na célebre frase “Ninguém está imune aos sacrifícios”, já tinha suscitado consternação aquando da visita aos Açores em Setembro, por se ter feito acompanhar de uma comitiva de 30 pessoas, entre as quais estavam o chefe da casa civil e sua esposa, quatro assessores, dois consultores, um médico pessoal, uma enfermeira, dois bagageiros, dois fotógrafos oficiais, um mordomo e 12 agentes de segurança. Numa altura em que os portugueses são diariamente chamados a acreditar nas garantias consoladoras de dificuldades justamente partilhadas e convidados a aceitar cortes, inevitável emagrecimento e até empobrecimento, eis que o chefe de Estado português aterra no Paraguai amanhã, depois de uma escala no Brasil, com o equivalente a duas equipas de futebol, com custos que, contabilizados ao nível do cidadão comum, e só no que diz respeito ao preço dos voos, são de 7500 euros por pessoa para um bilhete de ida e volta em classe executiva e 1870 euros em classe económica. A participação na Cimeira Ibero-Americana foi acordada aquando da passagem por Lisboa do secretário-geral ibero-americano, Enrique Iglesias, que na altura disse estar empenhado em garantir que Portugal se fazia representar em Assunção pelo Presidente da República Portuguesa, pelo chefe do executivo e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros. Antes de aterrar no Paraguai, Cavaco Silva e Passos Coelho farão uma escala de menos de 24 horas no Brasil, onde, porém, não chegarão a cruzar-se. O objectivo: impulsionar os investimentos entre Portugal e o Brasil. (...)"

Resto da notícia no jornal I. Que jornalismo é este, que decide ventilar o que os assessores do Governo escrevinham? Tudo o que está a vermelho não é notícia; é pura opinião, ao nível rasteiro do taxista ou do comentador anónimo de blogues. Independentemente do despesismo de Cavaco ou da poupança de Passos Coelho. E não nos esqueçamos de que estas guerras entre os gabinetes do Governo e os da Presidência também são pagas por nós. A peso de ouro, recebido pelas dezenas de assessores que gravitam na órbitra do poder. 

 

(Via Câmara Corporativa). 

Histórias que ajudam a crescer

Sérgio Lavos, 21.11.10

A reportagem que hoje vem no Público sobre a manifestação de ontem contra a cimeira da Nato, assinada por Paulo Moura, é um belo exemplo de várias coisas, nenhuma delas recomendável. Moura, o jornalista que gostava de ser a Alexandra Lucas Coelho, decide ir salpicando o texto com os pozinhos de "sensação" e "história", ensaiando um tom de reportagem que tem tanto de subjectivo como, essencialmente, preconceituoso. Daqui, da minha subjectividade bloguística, posso dizer que fiquei especialmente tocado ao longo do trabalho, especialmente quando o jornalista se põe a tecer considerações sobre o empenho da causa dos manifestantes afectos ao PCP, ora construindo adversativas que opõem o desabafo e revolta "contra a guerra" ao facto da pessoa que profere estes desabafos vir a todas as manifestações convocadas pela CGTP ou o PCP, ora diminuindo a causa anti-Nato ao citar um, sublinho, um, manifestante que também era contra a guerra colonial. Trabalhinho feito - esvaziar de importância a presença dos manifestantes que encabeçavam o desfile, o enfastiado Moura avança pelo grupo do Bloco de Esquerda, destacando, curiosamente, o colorido do colectivo Panteras Rosa, e passando à frente sem se deter durante demasiado tempo. Chegado à terceira manifestação, o destemido Moura, cercado pelo cordão policial que separou estes manifestantes do resto do desfie, impressiona-se com "as raparigas de cabeleira (sic, imagino que as raparigas em questão deveriam estar a usar perucas, ou assim) azul, com os tambores, as pandeiretas, as barbas e os cabelos desgrenhados, as roupas esfarrapados. Perante tal clima de horror, só poderemos estar perante (até porque há "mais estrangeiros do que portugueses") a praga anunciada, os perigosos anarquistas e, pior, terroristas, que tinham dito vir pôr a cidade de pantanas. Disseram? Mas claro, andaram a última semana a anunciar, desde o senhor do avental, José Manuel Anes, até à primogénita preferida do jornalismo histérico de vão de escada, Sandra Felgueiras; estava tudo feito, os bárbaros vinham aí, e era preciso pará-los. E fizeram-no, suspendendo um bocadinho a democracia, e nem custou nada ao resto dos portugueses. Para além do mais, os cães desta gente, segundo o arguto Moura, são a prova provada de que não são flor que se cheire - de que outro modo se explica a referência aos canídeos? Os "poucos mais de 100" (palavras do tal especialista americano que anda a contar cabeças em manifestações não se sabe a soldo de quem), no entanto, são a principal ameaça, tanto para os polícias que quase os ultrapassam em número como para o mediúnico Moura, que de repente vê em tal grupo minoritário intenções claras "de facto provocar a violência". A esta afirmação, perfeitamente objectiva e baseada em factos, segue-se uma descrição pormenorizada dos pensamentos dos elementos perigosos: "O plano era espalharem-se na multidão e começarem a provocar os polícias, na esperança de que estes ripostassem indiscriminadamente contra a manifestação". O super-herói Moura, certamente dono de um duplo que se infiltrou nos meios frequentados por estes elementos, ainda acrescenta, com visível gozo e auto-indulgência: "Um cenário de a polícia a carregar sobre os velhos militantes do PCP era provavelmente o sonho mais selvagem dos elementos anarquistas". Descalçados os tamancos usados pela língua portuguesa do Moura, chegámos ao corolário desta reportagem jornalística, esta sim, de sonho. Rigor, objectividade, isenção, profissionalismo - tudo o que Paulo Moura sonhou ter um dia. Mas deu nisto.

(Ler também o
post de Zé Neves, no Vias de Facto).

Sinais

Sérgio Lavos, 04.11.10
Mais um indício: por que razão as notícias de manifestações, greves e protestos contra as medidas de austeridade em vários países da União Europeia não são notícia, ou quando são não passam dos rodapés dos noticiários da SIC Notícias, ou menos do que isso? Quantos portugueses saberão, por exemplo, que os trabalhadores do Metro de Londres fizeram greve durante as últimas vinte e quatro horas e levaram o caos à capital (e esta é a terceira grave em pouco tempo)? Nem Público, nem DN, nem I. Nas televisões, que raramente espreito, imagino que o silêncio deve ter sido ainda mais - se for possível - pesado. Razões? (Vamos fingir que eu não sei quais são).

(Tive conhecimento do facto relatado, imagine-se, num blogue. No Cinco Dias. Estamos bem.)

A verdade e as notícias

Sérgio Lavos, 03.11.10

Depois de ter visto a notícia de ontem à noite e ter postado esta
entrada, fiquei a pensar no circuito que a informação percorreu até chegar à página do Público, do I e do DN; e hoje, pelo menos à edição impressa do primeiro. Ora bem, parece que um comentador deste blogue viu - não pude confirmar - José Manuel Fernandes a falar, em directo na TVI, da tal frase de Cavaco Silva (ou de alguém do seu séquito). Soube da actualização como? Sendo seguidor do twitter de Cavaco? O mais provável, e assim sendo não é de excluir que algum jornalista tenha decidido tornar notícia um facto que me parece de reduzida ou nula importância e que deveria ter-se mantido no universo desse meio restrito. Mas, pormenor importante, o facto noticioso foi criado aludindo a uma leitura subtil da declaração. Recorde-se: Cavaco Silva vê “com muita apreensão o desprestígio da classe política e a impaciência com que os cidadãos assistem a alguns debates”. O mesmo tom vago, hermético e alusivo, que conhecemos de comunicações anteriores. O estilo leva, quem sabe se por influência de "fontes próximas" do presidente, a interpretações que acabam, estranhamente, por conduzir, em qualquer das versões publicadas da notícia, ao mesmo: a frase era uma alfinetada ao debate ocorrido ontem no Parlamento. Prestando atenção a todo o processo, torna-se bastante evidente que aconteceu uma de duas coisas: ou os jornalistas que redigiram a notícia em vários jornais tiveram uma epifania simultânea, atribuindo um sentido único a uma frase que é tudo menos cristalina; ou a frase surgiu miraculosamente em todas as redacções já com o sentido das palavras apenso. Seja como for - e não quero perder-me em especulações improfícuas -, o que aconteceu ontem não foi jornalismo, foi apenas uma mediação, pelos jornais, de um "sentir" do presidente. Não existiu um facto, um acontecimento significativo, uma conferência de imprensa, uma entrevista, nada. Eu sei que isto é o pão nosso de cada dia. Mas há casos que são tão óbvios que não podem ser deixados passar em claro.

José Vítor Malheiros

Sérgio Lavos, 27.10.10
José Vítor Malheiros é, há algum tempo e a par com Manuel António Pina no JN e Rui Tavares também no Público, o meu colunista preferido nos jornais portugueses (se exceptuarmos MEC, claro). Inteligente, escrita límpida, lucidez desarmante e, sobretudo, independência. A crónica de ontem é exemplar. Fica aqui, na íntegra (on line apenas está disponível para assinantes):

Memórias de uma imprensa bem comportada

Os jornalistas realizam diferentes tarefas e preenchem diferentes funções sociais. Uma dessas tarefas consiste em produzir e difundir notícias. Outra função consiste em alimentar o debate de ideias no seio da sociedade.

Porém, aquilo que, aos meus olhos, é a função essencial do jornalista é o que se chama vulgarmente a "fiscalização dos poderes" e a que os anglo-saxónicos chamam de forma mais colorida a função de watchdog - servir de cão de guarda das liberdades cívicas, revelar todas as actividades de todos os poderes e de todos os poderosos e denunciar abusos.

Esta é a função que só os media levam a cabo de forma independente e constitui o coração do ethos jornalístico. Isto não quer dizer que não possa haver uma organização não-mediática que funcione dessa forma, mas a prossecução desse objectivo de forma independente - sem qualquer agenda predefinida, sem defender interesses particulares - é a marca de água da actividade jornalística.

Tivemos há dias um exemplo de grande impacto do que pode ser essa fiscalização dos poderes com a publicação pelo site WikiLeaks de milhares de casos de abusos perpetrados pelas tropas americanas e iraquianas no Iraque.

Curiosamente, o líder do WikiLeaks, Julian Assange, não só não se considera um jornalista como recusa com veemência o rótulo, que considera "ofensivo". Porquê? Porque Assange pensa que a esmagadora maioria da imprensa, premeditadamente ou não, não só não fiscaliza os poderes como colabora activamente com eles, escamoteando ou maquilhando as suas práticas mais criticáveis. Um exagero? Talvez. Mas vale a pena, no actual panorama de crise e recessão, quando todos os portugueses têm uma lista de perguntas que gostariam de ver respondidas pelo Governo (sobre as empresas que não pagam impostos, sobre os impostos da banca, sobre a nacionalização do BPN, a política fiscal, o real funcionamento da economia, as razões para o optimismo com que nos regalaram nos últimos dois anos) podemos perguntar-nos a quantas dessas perguntas os media conseguiram responder. Ou quantos nomes foram responsabilizados. Ou quais foram as denúncias que vimos nas páginas dos jornais e nos ecrãs dos noticiários. Existem pequenas excepções singulares, mas contam-se pelos dedos de uma mão. No geral, a imprensa limita-se a reproduzir os discursos existentes na cena política ou económica. Claro que isso significa citar o Governo e a oposição, os patrões e (esporadicamente) os sindicatos, mas a verdade é que isso é dramaticamente insuficiente.

Mais do que saber qual é a mensagem que os protagonistas querem transmitir, o que os cidadãos gostariam de ter é um retrato fiel da situação. Esta crise seria uma ocasião excelente para os media provarem a sua utilidade - para além do consabido "este disse, aquele disse". Todos gostaríamos de saber o que de facto aconteceu com o PEC I e II. Quais as contas reais do país. O que está a acontecer com as parcerias público-privadas (os factos, e não as leituras ideológicas). Com as empresas que não pagam impostos. Com o off-shore da madeira, com as mil e tal fundações privadas que recebem dinheiro dos nossos impostos, com os privilegiados que acumulam pensões e salários, etc. A verdade é que a maioria dos media se encontra ou acantonada num confortável comodismo ou numa quase paralisia imposta por uma draconiana redução de despesas, que impede qualquer investigação. Só que, sem essa investigação, sem essa função irreverente de watchdog, os media apenas repetem as versões que interessam aos poderes. Sobrevivem, mas isso não é vida. A crise que os media estão a atravessar não é alheia a esta situação. Os media parecem empenhados em provar a sua irrelevância, sem perceberem que é esse o caminho que os está a levar à cova.