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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Bonito ajustamento

Sérgio Lavos, 11.06.13

O Governo grego decidiu encerrar temporariamente a estação pública de televisão e rádio (ERT), com efeitos imediatos a partir da meia-noite de hoje. Vão ser despedidos 2700 funcionários. A estação emite desde 1938. O único período em que interrompeu a sua actividade foi durante a ocupação nazi. Está tudo a correr bem, na Europa de Merkel, Barroso e Schaüble.

A encenação da realidade

Sérgio Lavos, 08.05.13

 

Se este Governo, mais do que qualquer outro, se especializou na mentira, na mistificação e na farsa mediática - o repugnante teatro encenado por Passos Coelho e Paulo Portas durante a última semana é demonstração de que o crime compensa -, não o poderia estar a conseguir fazer com êxito se não tivesse a prestimosa ajuda de uma clique de propagandistas a escrever em jornais e blogues, gente sem coluna, que não se importa de mentir com todos os dentes, manipular números e usar dados para servir a política de destruição que nos está a ser imposta. Dois exemplos, durante a última semana:

 

Helena Matos, na sua última crónica para o Diário Económico, ensaia uma catilinária - a enésima - contra o Ensino Público. Nada de novo, mas lendo com atenção o seu textículo, as marcas do costume saltam à vista. Começa por falar dos exames para o 4.º ano, surpreendendo-se com a "infantilização das crianças" (SIC) levada a cabo pelas associações de pais que protestaram contra o inenarrável exame introduzido por Nuno Crato. A sua opinião sobre a medida (que, de resto, nos equipara apenas a Malta no universo da UE), assim como sobre o termo de responsabilidade que as crianças tiveram de assinar, caracteriza o que Helena Matos é na perfeição, mas não deixa de ser uma opinião, tem direito a ela. Mas quando, para validar o que escreve, fala da qualidade do ensino que existe em Portugal e recorre à mentira, estamos noutro nível. A mesma Helena Matos que, em abnegada missão de denúncia, passa os dias a verificar tendências e subversões na imprensa portuguesa, encontra a raiz dos actuais problemas na reforma do ensino levada a cabo por Marcello Caetano, chegando à conclusão de que o nosso ensino é caro e tem resultados medíocres. Duas mentiras em apenas cinco palavras é obra. Não só a escola pública não é cara - os últimos dados conhecidos, de 2010, antes dos brutais cortes dos últimos dois anos, mostram que a percentagem de verbas para educação estavam abaixo da média da OCDE, tanto no que diz respeito ao gasto médio por aluno como na percentagem do PIB ou na percentagem da despesa pública. E repito, isto antes dos brutais cortes dos últimos três anos, os mais elevados feitos nos países sob resgate. E quanto a resultados? Como é público, Portugal subiu consistentemente, tanto no ranking dos testes PISA, como no recente TIMSS. Portanto, o investimento na educação, apesar de estar abaixo da média da OCDE, consegue resultados que nos colocam bastante acima da média, o que demonstra não só que as políticas prosseguidas têm sido bastante eficazes, como evidencia a competência dos profissionais do ensino, em geral maltratados pela opinião pública, e que conseguem fazer omeletes com poucos ovos. Isto é a realidade. Mas quando é o próprio ministro Crato que a desvaloriza, como poderemos nós esperar que Helena Matos, simples publicista, lhe dê o mínimo de atenção? E tenho a certeza de que não se trata de ignorância - que ainda poderia ter desculpa -, mas de má fé: a Helena Matos interessa passar a mensagem de que o nosso ensino é "caro e medíocre".

 

Na mesma linha, tivemos também esta semana Marques Mendes, de gráficos em punho, defendendo em prime time os cortes do seu Governo e intoxicando a opinião pública com manipulações grosseiras. A determinada altura, são mostrados dois gráficos. Um que indicava que, entre 1980 e 2010, perdemos 51% dos alunos do 1.º ciclo. E outro que mostrava que, durante o mesmo período, o número de professores tinha crescido 53%. A apresentação destes gráficos visava demonstrar como o número de professores é excessivo para os alunos que temos. O problema? Os gráficos referiam-se a realidades diferentes. O que mostrava a quebra do número de alunos referia-se apenas ao 1.º ciclo e o que representava a subida do número de professores referia-se a todos os níveis de ensino, excepto o Superior. O que se chama a isto? Manipulação, mentir em público para defender uma política. Na verdade, entre 1980 e 2010 houve uma quebra do número de professores do 1.º ciclo, passando de 39926 para 31293. 

 

Esta gente perdeu toda a vergonha. Não se importam de fazer afirmações falsas, facilmente desmontáveis, porque sabem que o palanque onde ensaiam as mentiras tem sempre mais importância do que aquele onde essas mentiras são desmontadas. Marques Mendes fala para centenas de milhar de pessoas; a mentira foi denunciada na página do facebook de Santana Castilho. Este mundo de diferença é que vai permitindo que as maiores atrocidades vão sendo cometidas perante a passividade geral da população. Em muitos casos, a passividade geral é alimentada por ódios a determinadas classes, como os funcionários públicos, os professores ou os maquinistas. A máquina de propaganda é terrivelmente eficaz, não tenhamos dúvidas. Vive da mentira e da manipulação dos governantes, dos políticos que apoiam o Governo e dos opinion makers. Não precisam da realidade para nada, porque fabricam a sua própria realidade paralela, construída em folhas de excel com previsões irrealistas e na encenação permanente de factos e números, quase nunca desmontados por uma imprensa incompetente e colaboracionista. São perigosos, pois são. Têm de ser parados.

Ignorância é força

Sérgio Lavos, 03.05.13

 

A política adora eufemismos. Eufemismo é uma palavra que é, ela própria, um eufemismo, quando aplicada à política. Poderemos, sem esforço, considerar os eufemismos políticos como termos da novilíngua. Para quem não sabe, novilíngua é o glossário inventado pelo regime descrito por George Orwell em 1984, um conjunto de palavras que o estado totalitário usa para melhor espalhar a propaganda que faz passar aos cidadãos. O slogan "Guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força", multiplicado até ao infinito pelas máquinas de difusão do regime, é a cola que consegue manter calados todos os opositores.

 

Orwell compreendeu bem os perigos dos regimes totalitários, do nazismo ao comunismo. Mas não são apenas as ditaduras que recorrem à manipulação linguística com forma de controlo das massas. Qualquer regime, mesmo a mais liberal democracia, precisa de inventar um léxico para controlar, de algum modo, o que as pessoas pensam. A linguagem como meio de distorção de uma realidade sempre foi uma das principais preocupações dos políticos. Numa sociedade global, na qual a informação circula a velocidades estonteantes, o Estado já não precisa de controlar a informação e a sua circulação. A manipulação é mais subtil, mais difusa. Os Governos contratam agências de comunicação que gerem a cada minuto o que, quando e como os governantes dizem. Os meios de informação limitam-se a ser - e ainda mais, em tempo de crise gravíssima dos media - mais um canal por onde escorre a propaganda dos regimes. O excesso de ruído, de canais de informação e de informação produzida, produz o mesmo efeito que a censura produz nos regimes totalitários tradicionais: a ocultação da verdade. O que antes as pessoas não sabiam por causa da censura, agora sabe-se, mas a verdadeira informação está tão diluída no meio do lixo comunicacional, que passa quase sempre despercebida. Podemos ter acesso a mais fontes de informação, mas não temos os meios de distinguir o essencial do acessório, a verdade da manipulação, a realidade do mundo virtual onde vivemos. 

 

 

 

A canalha

Sérgio Lavos, 26.12.12

Curioso é também o êxtase pouco comedido da direita sabuja - que andava caladinha que nem ratos prestes a fugir do navio desde que os números da economia entraram em queda livre e sobretudo desde que a incompetência do impressionante Gaspar e o seu manga-de-alpaca Coelho se tornou demasiado evidente para continuar a parecer inteligente defender as medidas do Governo - e agora dá pulinhos de alegria com o número do intrujão Baptista da Silva - sim, sim, são os mesmos que defendem (ou pior, se calam com) a "licenciatura" do Dr. relvas - e rasgam as vestes pedindo a demissão de um jornalista íntegro como Nicolau Santos, que teve o pejo e a honra de admitir um erro - crasso - e pedir desculpa por isso.

 

José Manuel Fernandes, por exemplo, que, para quem não saiba, foi corrente de transmissão da* intentona das escutas de Belém (uma vergonha não só jornalística, mas sobretudo pessoal), tem sido dos mais activos na campanha. O Blasfémias e o Insurgente também ressurgiram das cinzas, jogando a cartada com toda a má fé e sem qualquer vergonha na cara.

 

Compreendamos o desespero: desde a estrondosa derrota da TSU que esta gente andava mansa que nem cordeiro. Aparecer um tipo mitómano que por acaso diz o que neste momento é quase unânime (o problema, claro, não é o que Baptista da Silva disse, mas as suas falsas credenciais e a falta de rigor dos media que lhe deram voz) é uma oportunidade de ouro para tentar descredibilizar a mensagem anti-austeridade. Não interessa que economistas de esquerda e direita sejam praticamente consensuais nas suas opiniões, não interessa que o FMI, a Comissão Europeia e o BCE tenham uma posição neste momento muito mais moderada em relação à austeridade na Europa, não interessa que até Merkel esteja a ceder na Grécia, na Espanha, na Irlanda. O que interessa a estes sabujos é continuarem a ladrar em defesa do Governo e da sua política de destruição do país, uma política cada vez mais isolada no seio da Europa, de um Governo que se recusa a ter uma palavra sequer de defesa do país nos organismos europeus e se preocupa apenas em fazer os seus negócios para o pós-eleições. Um presentinho de Natal para a canalha, um êxtase precoce de gente sem espinha e sem carácter. Bom proveito.

 

*Alterado. José Manuel Fernandes não foi arquitecto da intentona, mas sim Fernando Lima, assessor que acabou por ser afastado por Cavaco Silva. O seu a seu dono. JMF (em conjunto com Luciano Alvarez) limitou-se a ser veículo para um dos episódios mais vergonhosos do jornalismo em democracia.

Um futuro radioso

Sérgio Lavos, 07.12.12

 

Toda a gente se recorda da triste figura que Mário Crespo fez no parlamento. Toda a gente se lembra também de Marques Mendes falar da "asfixia democrática" e da direita andar excitada com a claustrofobia democrática no tempo de Sócrates. Toda a gente se recorda do rasgar de vestes e do clamor que se levantou contra o afastamento de Manuela Moura Guedes da TVI. Toda a gente se lembra da manifestação em frente à Assembleia, promovida pela blogosfera de direita e apoiada por alguns blogues de esquerda (o Arrastão demarcou-se do happening) a favor da liberdade de expressão e de imprensa. Bem, eram outros tempos. Agora, cada personagem que se atravesse no caminho do Dr. Relvas acaba afastada do cargo que ocupa. Sobretudo se for jornalista. O rasto que vai sendo deixado é tenebroso: Pedro Rosa Mendes, Raquel Freire, o conselho de redacção do Público, Maria José Oliveira, o director da Lusófona do Porto, etc. etc. Um registo digno de um Dr. Goebbels de quinta categoria. Agora, Nuno Santos. Numa manobra que o próprio não se exime de classificar como "saneamento político". Primeiro a demissão, quando se viu encurralado pelas manobras de Luís Marinho e de Alberto da Ponte, e agora, depois do depoimento na Assembleia da República, o processo disciplinar e o afastamento das instalações da RTP. Um processo célere, na sombra, com poucas ou nenhumas hipóteses de remissão. Nuno Santos era uma pedra na engrenagem de uma RTP que mantinha alguma equidistância em relação ao poder político. Já foi. Entretanto, o presidente da administração negoceia, sem qualquer pudor, como se fosse um caixeiro-viajante, a venda da estação pública com o interessado angolano. Isto quando publicamente apenas se conhece o interesse de uma empresa portuguesa, a Cofina. E a maioria PSD/CDS volta a chumbar o projecto de lei que visa a transparência sobre os titulares do órgãos de comunicação. Alguma coisa mudou, neste ano e meio: o que era feito na sombra (Ongoing, Público) é agora feito às claras. O Dr. Relvas, dobrado o cabo das tormentas que representou a licenciatura por equivalência, está no seu melhor, em campo aberto. Não fala muito mas conseguiu pôr os seus homens de mão no terreno. Passou o limiar da vergonha, aquele que qualquer pessoa decente não ousaria ultrapassar no seu lugar. Se o Dr. Relvas continua na sua cadeira, apesar da Ongoing, do Público, da Antena 1, da Lusófona e de todas as "reformas" que ainda não concluiu, então já nada o fará cair. Sabemos porquê: os crápulas não tem vergonha na cara; e o seu destino está intrinsecamente unido ao de Passos Coelho. Os dois cairão no mesmo passo.

 

Toda a gente se lembra das manobras do tempo de Sócrates? Não. Os que na altura mais protestaram agora sentam-se nos gabinetes ministeriais e trabalham a soldo do Dr. Relvas. Os que não conseguiram lá chegar calam-se. E assistem de um lugar privilegiado ao maior assalto à liberdade de imprensa que este país já assistiu. As peças movimentam-se no terreno, e se nada acontecer entretanto, dentro de um ano teremos uma estação de televisão controlada por uma empresa cujos capitais têm origem num regime cleptocrata e autoritário, sem qualquer respeito pela liberdade de expressão e de imprensa. Estação essa que se juntará aos media que já estão nas mãos do regime angolano, directa (através de Isabel dos Santos) ou indirectamente. Miguel Relvas sorri o sorriso dos imbecis que conseguem levar a água ao seu moinho. E Mário Crespo luta diariamente a luta dos sabujos, na esperança que um dia o Dr. Relvas lhe ofereça um lugar de correspondente em Nova Iorque na nova estação para os novos tempos. Tudo está bem quando acaba bem. Para o país, suspeito, isto não vai acabar nada bem.

A cilada dos relvistas para controlar a informação

Sérgio Lavos, 25.11.12

 

O ministro da propaganda, Miguel Relvas, e o golpe que levou à demissão de Nuno Santos, um director de informação que nunca deixou de mostrar independência face ao poder político. Por Eduardo Cintra Torres, um homem acima de qualquer suspeita, apoiante do Governo que chegou a fazer parte da comissão para avaliar o conceito de serviço público.

 

Todos os canais de poder começam a ser tomados. Relvas é o cancro que alastra na vida pública, controlando, manobrando, dispondo os seus homens de mão no terreno. A sua maior força? A imagem de idiota provinciano, de chico-esperto deslumbrado pelo poder, que leva a que a sua influência seja desvalorizada pela elite que formata a opinião pública e pelos adversários políticos. A cada piada ele fica mais fortalecido, a cada episódio degradante o seu poder se torna mais vincado. Ele apenas cairá quando o Governo cair, porque gente como ele sente-se bem a chafurdar na lama; gente como ele não tem um pingo de decência na cara nem uma réstia de ética no pensamento. Um perigo para a democracia:

 

"O segundo caso é este: Nuno Santos foi vítima de uma cilada para colocar a Direcção de Informação (DI) da RTP ao serviço do governo. O assunto ficara esclarecido com o Conselho de Redacção, a Comissão de Trabalhadores e o "director-geral" Luís Marinho (entre aspas porque o cargo continua ilegal), e, através deste, com a administração.

 

Apesar disso, o caso foi reavivado três dias depois pelo "director-geral" e pela administração. Porquê? A meu ver, o "director-geral", o ministro Relvas, e o seu homem na administração, Alberto da Ponte, aproveitaram o caso para desgastar Santos, que vinha a desenvolver uma informação mais independente do poder político, desagradando a Relvas e relvistas na RTP. Apesar de esclarecido o assunto, os relvistas, pensando melhor, concluíram que podiam explorar o caso. Santos, percebendo a cilada, demitiu-se. Foi uma cabala própria dos mais ruins regimes de propaganda, autoritarismo e desinformação. O resto é fumaça, como o inquérito sumário e pré-decidido, tipo pré-25 de Abril, que Ponte mandou fazer. Ponte, cuja capacidade de gestão ainda não se viu, politicamente provou a sua submissão ao ministro Relvas.

 

Resultado? A administração de Relvas indica Marinho para DI. É escandaloso, em termos institucionais, que um antigo administrador da RTP regresse à DI. Ainda por cima, ele, o principal responsável pela informação, não só ficou de fora das acusações da administração, como é nomeado para DI. Se for aceite pela ERC, será um dos mais graves atentados à ética do jornalismo e da informação em Portugal nos últimos anos. E, jornalisticamente, é ainda mais escandaloso, conhecendo-se o tipo de relacionamento de Marinho com os governos (Sócrates e Relvas).

 

A tomada do poder da informação pelo relvistas inscreve-se na história: o poder político considera a RTP como sua, não como do Estado para servir os portugueses. Não há meio de sair deste ciclo infernal criado por PS e PSD; a independência das DI é uma excepção na habitual submissão.

 

Para se defender os cidadãos, teria de começar-se pelos afastamentos de Relvas do governo, de Ponte da presidência da RTP, de Marinho de um cargo ilegal e do controle da informação. Que fará Passos Coelho com a RTP?"

Resumo da noite

Sérgio Lavos, 16.10.12

 

Dois burgueses anafados do mesmo lado da barricada, perorando na RTP1 sobre nada enquanto tudo arde. E nos canais noticiosos, bola para o povo. Nem a SIC, nem a TVI, nem a RTP Informação passaram em directo as imagens do cerco ao parlamento. Apenas um canal as mostrou, a TVE. Vergonha.

 

O estranho caso da realidade que não respeita a ficção escrita pela polícia

Sérgio Lavos, 21.06.12

 

Rui Rio, conhecido como "O Entaipador Implacável da Ribeira", decidiu uma vez mais enviar os gorilas da polícia municipal para vandalizarem um projecto cidadão que tinha ocupado um espaço público deixado ao abandono, no caso a biblioteca infantil Ivo Cruz. Não devemos duvidar: Rui Rio prefere o vazio à cultura, a violência institucional à participação cidadã na construção da cidade do Porto. Como vi escrito no Facebook, assim que Rio ouve falar em cultura, saca dos tapumes. Modos de vida. Mas não é isso o mais intrigante neste caso de assoberbamento cro-magnon do presidente da câmara portuense.

 

No dia em que a biblioteca foi assaltada pela polícia, o Diário de Notícias noticiou o caso. O bizarro da situação é que o jornal saiu para as bancas cerca de três horas antes do caso ter acontecido. A notícia - sem assinatura - falava em "injúrias e agressões a agentes", quantifica o número de pessoas identificadas e especula sobre a origem dos ocupantes do espaço. Este extraordinário exercício da adivinhação dado à estampa no Diário de Notícias teve pouca repercussão na realidade; a efectiva vandalização do espaço pela polícia, acontecida três horas depois desta notícia ter começado a ser lida, acabou por decorrer sem "injúrias e agressões" nem outros fenómenos paranormais de monta.

 

Contactado pela associação que ocupara o espaço, o provedor do DN defendeu o jornal dizendo que a notíciaa tinha sido escrita com base num comunicado da polícia enviado na noite anterior. Fantástico país, este, em que membros da polícia se dedicam a escrever notícias que depois enviam aos jornais, e ainda por cima notícias sobre o futuro, sobre o que ainda está para acontecer. Fabulosa nação, também, aquela em que um jornal - por sinal, o mais antigo publicado em Portugal - recebe notícias redigidas pela polícia e as publica como sendo suas e verdadeiras.

 

Contado não se acredita, dirão. Mas eu acrescento: a verdade e a realidade, tudo vão, tudo ilusório. Acreditamos no que queremos acreditar, mesmo que seja má ficção escrita por um péssimo polícia.

 

Adenda: o provedor do jornal, Óscar Mascarenhas, deixou na caixa de comentários um esclarecimento sobre a sua actuação que julgo ser premente deixar aqui. Diga-se que nunca duvidei da competência de Óscar Mascarenhas, que tem mostrado, em outras situações ocorridas no DN - por exemplo, o caso da contra-notícia enviada pelo Governo para a redacção no dia de uma greve de transportes - bastante competência e sobretudo independência nas suas análises, nunca se furtando a criticar e a melhorar os procedimentos do jornal para o qual trabalha.  Aqui fia então, com um pedido de desculpas pelo equívoco cometido:

"Caro Sérgio Lavos:
Não fui contactado pela associação nem defendi coisa nenhuma. Já esclareci no blogue respetivo e repito-o aqui:
Pretendo retificar aqui um equívoco. "O provedor do leitor deste jornal foi contactado, e defendeu que aquela peça foi baseada num comunicado da polícia enviado na noite anterior". Esta afirmação não corresponde à verdade. A Sra. Patrícia Dias da Silva contactou-me (sem me dizer se representa ou não mais alguém, mas isso é indiferente) e respondi-lhe: "Já recebi uma reclamação anterior sobre esta notícia e pedi esclarecimentos urgentes à Direção do DN, sendo certo que a notícia parece sustentar-se em informações fornecidas por forças policiais.
Obrigado pelo alerta." Não "defendi" coisa nenhuma, prometi averiguar e bem dispensava que a minha resposta fosse tão completamente deturpada. A análise do que aconteceu sairá na edição de amanhã, dia 23, do DN. Oscar Mascarenhas (Provedor do Leitor do DN).