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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Depois do adeus

Sérgio Lavos, 04.04.13

 

Em jeito de despedida e também esperando que o ex-Dr. Relvas recupere o ânimo que parece ter perdido (até porque o seu casamento está próximo e um homem sem ânimo na lua-de-mel é como uma passagem de ano sem champanhe ou uma primavera sem flores), deixo aqui uma homenagem em forma de canção (a outra senha de Abril, antes de "Grândola, vila morena") a uma das mais inacreditáveis figuras que já passaram pela política portuguesa. E tenho a certeza de que o Pedro e a Laura também apreciariam esta cançoneta. Boa sorte a bater punho. 

O homem novo

Sérgio Lavos, 03.04.13

 

A mais importante bandeira deste Governo no combate ao desemprego é o programa Impulso Jovem. Criado no início de 2012 pelo inefável Dr. Relvas (presumimos que com o conhecimento do ministro da Economia), o programa consiste sobretudo num incentivo à contratação de trabalhadores com menos de 30 anos. As empresas que se candidatarem têm um desconto de 75% na TSU se contratarem jovens precários e 100% se oferecerem um contrato efectivo. Como seria de esperar, o programa, uma genial criação, tem sido um retumbante sucesso. Inicialmente tinha um custo de 344 milhões de euros e pretendia chegar a 90 000 desempregados. Quase um ano depois, 8000 candidaturas tinham sido aceites e apenas 4500 jovens já tinham iniciado os seus estágios em empresas. Apenas alguém mal intencionado poderia ver os 5% do objectivo inicial como um falhanço. É certo que uma medida desta natureza deve colher muito pouco numa economia em profunda recessão, quando diariamente os empresários lutam para continuar a ter clientes e não com a falta de pessoas disponíveis para empregarem. Uma economia que precisa sobretudo de consumidores, e não de isenções fiscais na contratação. Não haverá ainda estudos sobre a aplicação da medida, mas não é preciso ser uma inteligência superior (do calibre do Dr. Relvas) para se perceber que quem está a beneficiar com esta medida são as empresas que exploram a mão-de-obra barata e a contratação sucessiva de pessoas com vínculo precário ou estágios, contratação essa que passou a ser financiada pelo Estado, isto é, por todos nós. Certamente que muitas empresas estarão a aproveitar a oportunidade para descartarem os trabalhadores com vencimentos mais elevados e a contratar estagiários, com o apoio nada discreto do licenciado por equivalência preferido da malta. Como deverá ser evidente, os empresários mais produtivos, os que pretendem ver as suas empresas a crescer e a dinamizar a economia, não precisam destes incentivos para continuarem a trazer mais valia para a economia. Quem valoriza os seus trabalhadores dispensa o apoio do Estado à contratação de mão-de-obra barata e pouco especializada. 

 

O brilhantismo do esquema não tem sido tão aliciante como o Dr. Relvas previra, portanto. Vai daí, mais um impulso à criação: depois de ter visto um vídeo no YouTube (todo um programa), o Dr. Relvas contratou como "embaixador" da iniciativa um desses patetas da moda que dão formação de "empreendedorismo" a quem estiver interessado em embarcar na maravilhosa barca do Portugal futuro. A criatura é um protótipo exemplar da loucura que parece ter tomado conta do país. O "homem novo" é um tipo que um dia viu a luz e desatou a empreender, e que acha que os estudantes universitários só têm de pagar 100 euros por mês para conseguirem estudar. Gaba-se de nunca ter enviado um currículo - o que nos leva a achar que terá recorrido à forma mais comum de empreendedorismo luso, a "cunha" -, não liga a política, acredita em "sonhos e super-heróis", quer "bater punho" (o que quer que seja que isso signifique) e promete levar o programa de combate ao desemprego a "todos os cantos do país". Ah, e afirma-se como um rapaz simples. Eu diria que é simplesmente simplório, um Tino de Rans* para os tempos modernos, mas quer-me parecer que ao lado do Dr. Relvas é bem capaz de fazer um brilharete. Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado? Não por muito tempo, esperemos. Pelo menos, sempre vai dando para rir um bocado. 

 

*Adenda: diga-se que este Miguel Gonçalves é de outra cepa, muito mais venenosa do que Tino de Rans, o calceteiro do Porto, homem verdadeiramente simples e honesto. Para dizer a verdade, vale mais um Tino de Rans do que mil Miguéis, sejam eles Relvas ou Carvalho. 

Uma questão de tempo

Sérgio Lavos, 20.02.13

Não surpreende que o PSD e os seus avençados mediáticos tenham escolhido a via da vitimização para tratar o caso do inimputável Dr. Relvas. Os piores crápulas gostam sempre de fingir indignação quando são despidos em público. O que surpreende é a reacção de algumas pessoas de esquerda e uma ou outra luminária do regime que já veio botar faladura sobre o assunto.

 

Vamos lá ver as coisas como elas são: esta gente saberá o que é censura? O que é liberdade de expressão? Não saberão que a censura é sempre um acto de poder exercido pelo mais forte sobre o mais fraco? Uma limitação de expressão que visa calar opiniões contrárias, prévia ou posteriormente? Ontem, quando o Dr. Relvas entrou no ISCTE, rodeado de seguranças, e subiu para um palanque posto à disposição pela estação com mais audiências do país, quem detinha o poder? O ministro dos Assuntos Parlamentares, que tutela a comunicação social e decide os destinos do país, que tem o controle directo sobre os instrumentos que podem exercer a violência de Estado (a polícia e as forças armadas), ou um grupo de estudantes que diariamente sofre as consequências das políticas implementadas pelo Governo a que o Dr. Relvas pertence?

 

É de facto inacreditável que haja quem esteja, por ignorância ou pura má fé, a confundir censura com o que aconteceu ontem. Durante três minutos, os assobios, os insultos e os apupos ao Dr. Miguel Relvas sobrepuseram-se à propaganda ministerial. Os outros quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos do ano são usados pelo Dr. Relvas para sobrepujar, humilhar e empobrecer os estudantes que ontem não o deixaram falar e deram voz à raiva e à humilhação sentida por milhões de portugueses. Confundir um direito em democracia - o direito à manifestação - com um instrumento das ditaduras - a censura - não é, não pode ser, sério.

 

O que muita gente parece não perceber é que a democracia não são aqueles breves dois segundos quando depositamos o nosso voto na urna. Os quatro anos (dois milhões, cento e dois mil e quatrocentos minutos) a que cada Governo tem direito não são um cheque em branco. Cada minuto passado no poder por cada um dos governantes tem de ser um minuto a prestar contas, não só ao seu eleitorado mas a todos os cidadãos. Um mandato de quatro anos não é uma ditadura provisória, durante a qual tudo pode ser legítimo, mesmo (e sobretudo) quando todas as promessas eleitorais ou o que está no programa do Governo não é cumprido.

 

O que o Dr. Relvas sentiu ontem foi a consequência imediata de um ano e meio de desvario, prepotência e desrespeito pelo povo que ele era suposto servir. Três minutos em que a democracia se sobrepôs à ditadura de quatro anos, que parece ser o modo como este Governo olha para o seu mandato. Não se perceber isto é não se perceber nada de nada. Um regime que ataca um grupo de estudantes contestatários (e não-violentos) para defender uma figura sinistra como o Dr. Relvas precisa urgentemente de repensar a sua natureza e existência. 

Entre um Tino e um Relvas

Sérgio Lavos, 19.02.13

 

A questão como ela tem de ser colocada. Pelo Manuel Jorge Marmelo:

"Longe das câmaras de televisão, diante das quais já fez quase tudo (talvez até já tenha cantado a Grândola sem desafinar), Tino de Rans é um humilde calceteiro da Câmara do Porto. Tenho-o encontrado amiúde pelas ruas da cidade e, hoje, está a trabalhar à minha porta, empurrando carrinhos de mão cheios de cimento com um impermeável fluorescente, com a cabeça baixa, meditando lá nas suas coisas. Ao contrário de um certo sujeito seboso que também aparece muito na televisão, o Tino não precisa de afirmar sobre si mesmo que é impoluto e sério, nem que a vida dele é transparente. A vida dele, do Tino, é passada diante dos transeuntes do Porto. Nunca ninguém o viu a untar a barriga com protector solar à beira da piscina do Copacabana Palace (sem que se saiba onde embolsou coroas para luxos daqueles) e também não se conhece que tenha aprovado subsídios para projectos dos amigalhaços que hão-de ser primeiros-ministros. É um português que, muito provavelmente, conhece outros portugueses que estão desempregados e, por causa disso, não precisa de fazer demagogia com assuntos sérios para passar nos telejornais. Ao contrário do outro nojento, até teve um Neca que o aconselhasse a não se meter na política, se calhar num tempo e num lugar onde não passava pela cabeça das pessoas que se fosse para a política para enganar e enriquecer. Entre um Tino e um Relvas, eu, se me fosse perguntado o que acho, preferia mil vezes um país governado por um tipo amalucado com calos nas mãos."

Quem se mete com o Relvas, suja-se

Sérgio Lavos, 04.09.12

 

Na semana em que Paulo Portas ousou questionar as movimentações de Miguel Relvas à volta da RTP, começa a emergir uma catadupa de notícias sobre o caso dos submarinos, através dos sempre fiáveis Diário de Notícias (pelo menos, parte dele) e Correio da Manhã. Ainda bem. Assim temos oportunidade de saber que foram por exemplo transferidos 19 milhões de euros pelo BES para uma conta off-shore na mesma altura em foram feitos os famosos depósitos em cash numa conta do CDS-PP num balcão desse banco. O DCIAP investiga dados de que "resultam suspeitas que parte do dinheiro pago pelo GSC à ESCOM, relativo ao contrato de prestação de serviços, tenha sido utilizado para pagamentos indevidos e como contrapartidas a decisores e grupos políticos envolvidos nas negociações". Tudo coincidências, certamente, que serão explicadas em seu devido tempo pelo ministro de Estado Paulo Portas. Até porque, como sabiamente disse numa iniciativa partidária do PSD a procuradora Cândida Almeida - escusado pensar naquela chatice da independência do poder judicial perante o poder político, foi apenas um mero encontro de escuteiros onde Cândida esteve presente -, os nossos políticos não são corruptos. Vai ser uma história com final feliz, assim o espero.

"Uma espessa trapalhada de chumbo"

Sérgio Lavos, 02.09.12

Bom texto de Viriato Soromenho-Marques sobre o Rei Midas ao contrário, Miguel Relvas, a absoluta falta de noção de interesse nacional deste Governo:

"O ministro Relvas é o contrário do Rei Midas. Em vez de ouro, tudo aquilo em que ele toca fica transformado numa espessa trapalhada cor de chumbo. A privatização, aliás "concessão", da RTP deixou de ser um assunto sério para descer ao nível rasteiro das coisas venais. Como nenhum dos decisores parece interessado em falar na questão do interesse público, permitam-me que recorde duas das principais razões para a sua manutenção e aperfeiçoamento. Portugal precisa de um serviço público de rádio e televisão, em primeiro lugar, porque um povo tem o direito de reinventar e alimentar permanentemente uma narrativa identitária, plural, que não fique à mercê das forças de mercado e dos interesses de fação. Em segundo lugar, o serviço público é indispensável para estar à altura da herança transmitida pelos nossos antepassados. Portugal é a única pequena potência que criou uma "língua imperial", que é idioma oficial em amplas e descontínuas áreas geográficas. O alemão e o russo, embora línguas importantes, não correspondem à característica "imperial". As numerosas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo têm direito a um serviço público de radiotelevisão que não deixe apenas à iniciativa dos nossos irmãos brasileiros a defesa e progresso da nossa diversificada língua comum. É natural que, no longo prazo, a hegemonia do Brasil seja esmagadora, também no plano linguístico. Mas a vontade política de um país que não abdica do exercício do seu poder cultural, sobretudo quando a sua soberania está tutelada, deveria ir no sentido de retardar ou contrariar esse processo "natural". Mas em Lisboa parece que o interesse nacional e a visão estratégica se transformaram em coisas bizarras e bizantinas."

Snifar gasolina

Miguel Cardina, 28.08.12

 

Acho que foi o Ricardo Araújo Pereira que um dia disse que a melhor altura para os humoristas em Portugal foi durante o governo de Santana Lopes, uma vez que aí os textos se escreviam sozinhos. Parece que agora voltámos a esses tempos aúreos. Hoje, em visita a Timor-Leste, e depois de ter perdido o discurso que lhe escreveram à saída do avião, Miguel Relvas assegurou: "a língua é o petróleo desta relação, é o que nos dá força, é o combustível desta relação e nós temos de continuar nesse caminho”.

O Dr. Miguel Relvas já pode pedir uma equivalência à Universidade de Palermo

Sérgio Lavos, 24.08.12

Estrela Serrano explica:

"A estratégia é conhecida por “balão de ensaio” e tem vários níveis de sofisticação. É delineada nas altas esferas e é geralmente aplicada através de “fugas” de informação dirigidas a certos jornais “próximos” por intermédio de  jornalistas “de confiança”.

 

Esta estratégia, tudo o indica,  foi agora utilizada pelo Governo, a propósito da RTP, com algum grau de sofisticação. Mas há sempre alguma coisa que escapa ao controle e ajuda a perceber  mais do que aquilo que se diz.

 

Neste caso, importa analisar todos os pormenores do que veio a público e do que é possível perceber do que não veio,  porque eles fornecem sinais sobre o que verdadeiramente se prepara para a RTP. Vejamos:

 

- A notícia sobre a “hipótese em cima da mesa”, de concessão do serviço público a um privado e encerramento da RTP2, foi dada em primeira mão ao jornal Sol que a anunciou na sua edição electrónica ao fim do dia de ontem, antes de ser divulgada pela TVI no Jornal das 8 e hoje pela edição papel do jornal. 

 

- O Sol é  detido em 96,96% pela Newshold, grupo angolano cuja estrutura accionista é constituída por Pineview Overseas, S.A. (Sociedade Anónima sedeada na República do Panamá) e em 5% pela TWK – SGPS, Lda. (Sociedade por Quotas).

 

- A Newshold, dona do SOL, segundo notícias vindas a público  está a preparar a sua candidatura à privatização de uma frequência da RTP, tendo para isso criado uma nova empresa e começado a contratar colaboradores para a elaboração do projecto.  

 

- A notícia do SOL é assinada exclusivamente pelo vogal do conselho de administração do jornal, José António Lima, e não por  jornalistas que geralmente cobrem os temas televisão e media, o que sugere ter o assunto sido tratado apenas ao mais alto nível no seio do jornal por alguém em posição de deter e poder controlar a divulgação da informação conveniente.

 

- Do lado do Governo, o escolhido para a execução da estratégia não foi, desta vez, um assessor ou um dos comentadores televisivos a quem o Governo costuma dar “cachas”- Marcelo ou Marques Mendes. O governo subiu a parada e entregou o serviço ao seu conselheiro e ministro-sombra com o pelouro das privatizações, António Borges, que nada tem a perder e tudo tem a ganhar em fazer o papel do “balão” que não se importa de ser desmentido se o “ensaio” não der o resultado esperado.

 

- E é aqui que entra a TVI. Seria coincidência a mais que a TVI se lembrasse de entrevistar António Borges no dia em que a notícia do dia  era o buraco orçamental. Mas era preciso que António Borges – o escolhido pelo Governo para dar a cara - fosse a uma televisão fazer o spin, prevenindo a eventualidade de a notícia do Sol não corresponder ao que o Governo queria que fosse dito. A RTP estava fora de questão, a SIC ainda mais pelos motivos conhecidos: Balsemão é frontalmente contra a estratégia do Governo para a RTP. Então, quem melhor do que Judite de Sousa para conseguir entrevistar  em cima da hora uma figura de proa ligada ao Governo como António Borges?

 

E assim o “balão de ensaio” fez o seu caminho…

 

Veremos se o serviço público de televisão acaba concessionado a uma entidade de seu nome Pineview Overseas, S.A., com sede na cidade do Panamá, República do Panamá… de cujos “testas de ferro” não foi até hoje possível conhecer os nomes."