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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Um jogo perdido à partida

Daniel Oliveira, 25.03.08

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Para além da vitimização e do ressentimento, que marcam grande parte do texto de Pacheco Pereira, o articulista aflora uma das razões porque seria a favor da intervenção no Iraque.

«Na Administração americana surgiu a ideia de que, para combater a nova forma de guerra que é o terrorismo, não bastava erradicar as bases terroristas onde elas existiam (como no Afeganistão ou Sudão), o que era visto como um sintoma, mas ir à causa, à relação de forças que bloqueava todos os processos políticos que deveriam “distender” o Médio Oriente e permitir a resolução de conflitos antigos como o da Palestina. Esses conflitos não eram a causa do terrorismo da Al-Qaeda, de uma natureza diferente do Hezbollah ou do Hamas, mas, ao funcionarem como um irritante geral, bloqueavam as forças moderadas e moderadoras no mundo árabe-muçulmano e impediam a estabilização da região. A importância geoestratégica do Médio Oriente era crucial para o resto do mundo por causa da dependência do petróleo, líquido que tem a tendência natural para surgir só em sítios complicados.»
No entanto, parecia já então evidente que uma intervenção no Iraque limitar-se-ia a criar uma nova fonte irratibilidade e a dmininuir o espaço de manobra dos ditos "moderados" (um termo dúbio e quase sempre usado conforme as conveniências quando se chega ao Médio Oriente). Como se verificou: só em cinco anos, no Iraque, já houve mais bombistas suicidas do que em toda a história da Palestina. Na verdade, o Iraque transformou-se, para os muçulmanos, numa nova Palestina. Era de esperar. Se é verdade que, pela violência extrema de Zarqawi e por o facto da Al-Qaeda juntar sunitas radicais, houve da parte dos xiitas iraquianos uma oposição a esta rede terrorista (que não é nova), não é menos verdade que o Iraque se transformou em pasto fácil para o terrorismo, como uma nova frente de combate.

Mais: sabendo-se que, desde sempre, uma das razões para o crescimento da utilização de meios não convencionais de combate (terrorismo) é a desproporção das forças em confronto ("guerra assimétrica"), era mais do que previsível que uma intervenção em larga escala naquela parte do Mundo levasse terroristas a um território onde não se tinham ainda instalado.

Não sendo previsível que uma intervenção no Iraque facilitasse a vida na Palestina e muito menos no Afeganistão, a razão do apoio de Pacheco Pereira à guerra é dada num texto de sua autoria que ele próprio cita: «A administração Bush (...) resolveu fazer uma política activa de mudar brutalmente os dados da questão que implicava acções militares preventivas sobre os estados que ou apoiassem grupos terroristas ou fossem fautores de políticas de desestabilização regionais. Esta politica resultou parcialmente na Síria e na Líbia, mas a sua prova dos nove teria que ser o Iraque. Por várias razões, o Iraque era o único país que tinha os meios e os recursos para prosseguir as políticas anti-americanas mais agressivas na região. Era também um país que se sabia disposto a tudo e com tradição de beligerância, um pária internacional que violava as resoluções das Nações Unidas todos os dias.»
Pacheco Pereira apoiou a guerra pela pior razão (aquela que era evidente desde o primeiro momento que daria maus resultados): redesenhar o mapa político e geoestratégico do Médio Oriente. Na realidade, esta posição não tinha, ainda antes da intervenção, qualquer consistência. Mas havia quem achasse que baralhando as cartas talvez lhe saísse uma boa mão. Só que no Médio Oriente a complexidade de todos os conflitos é tal que quando se baralham as cartas fica-se sempre com pior do que se tinha.

Pacheco Pereira apoiou a guerra com o mesmo voluntarismo de todos neo-conservadores, também comum à extrema-esquerda (uma análise biográfica de muitos deles talvez ajude a compreender as semelhanças). O caso mais evidente, em Portugal, foi o de José Manuel Fernandes, que num artigo com o título “De Bagdad a Riad» (cito o título e a ideia de cor, já que não encontro o texto na Net), mostrava que genuinamente acreditava que os EUA poderiam querer mudar o regime na Arábia Saudita, principal fonte de financiamento do terrorismo. Só muita ingenuidade ou ignorância sobre as relações de poder no Golfo e no Médio Oriente podiam levar a acreditar em tamanho delírio. Só um absoluto desconhecimento da natureza da administração de George Bush podia alimentar este tipo de ilusões.

Abandonando qualquer consideração ética e moral (que Pacheco Pereira não gosta quando o atacam e usa para se defender), vamos à frieza dos resultados, apenas do ponto de vista dos interesses dos EUA.

Não faltou quem avisasse que intervir no Iraque sem ter em conta a “questão xiita” era um suicídio. E os resultados estão à vista. A tomada do poder pela maioria xiita no Iraque, maltratada durante décadas por Saddam Hussein, iria inevitavelmente mudar o mapa da região. E, do ponto de vista dos americanos, só podia mudar para pior. Se é verdade que poderia enfraquecer o terrorismo sunita da Al-Qaeda, só o conseguiria por criar uma competição e uma nova frente para os americanos. Fortaleceu o Irão (e isso era mais do que previsível), que deixou de estar sozinho como país maioritariamente xiita governado por xiitas, e fortaleceu assim todo o eixo xiita (com vantagens evidentes e comprovadas para Hezbollah no Libano - transformando-se mesmo numa ponte entre o Irão e o Hamas -, criando uma nova frente para Israel). E a nova frente israelita perturbaria a frente palestiniana, como aconteceu.

Para além de Israel, criava ainda problemas a dois dos principais aliados dos americanos na região: o fortalecimento do eixo xiita assustou os sauditas e a autonomia (quase independência) do Curdistão Iraquiano levou os turcos a intervir contra o novo aliado dos EUA (os curdos), dando ao Irão (também com uma minoria curda) mais razões para se envolver na vida iraquiana. Pior ainda: obrigando a um investimento militar, enfraquecia a posição dos EUA no Afeganistão com repercussões explosivas (mas ainda pouco definidas) no Paquistão.

Ou seja, mais do que enfraquecer o terrorismo, a intervenção no Iraque criava uma nova frente de combate, um novo território para a Al-Qaeda, fortalecia outro opositor, retirava forças do Afeganistão e aumentava a pressão sobre Israel e sobre todos os aliados dos EUA na região. Pior para os EUA era impossível.

Diz Pacheco Pereira: «Muito do que aconteceu no Iraque deve-se a erros cometidos depois da invasão, uns inevitáveis devido ao modo ingénuo, ignorante e incompetente como foi previsto o período da ocupação, outros perfeitamente evitáveis e que se devem a erros clamorosos da Administração Bush.»
É verdade. Acontece que muitos dos erros cometido partiram de erros de avaliação sobre situação iraquiana anteriores à guerra - para os quais contribuiu o afastado de todos os que soubessem qualquer coisa sobre o assunto, tal era a vontade de avançar a qualquer preço. Caso a avaliação tivesse sido a correcta o mais provável (e a única coisa sensata, mesmo do ponto de vista dos interesses americanos) era que os EUA se vissem obrigados a desistir da aventura iraquiana. Os erros não são um desvio de percurso, são a consequência de uma intervenção às cegas. Muitos dos erros fundamentais (outros não) resultam da má avaliação que levou à intervenção. E essa má avaliação está bem espelhada nas razões de apoio à guerra que são dadas por Pacheco Pereira.

O Médio Oriente (e a sua vizinhança) funciona com vasos comunicantes. Qualquer coisa que aconteça na Palestina tem consequências no Líbano, qualquer coisa que aconteça no Líbano tem consequências na Síria, qualquer coisa que aconteça no Iraque tem consequências no Irão, qualquer coisa que aconteça em qualquer território curdo tem consequências na Turquia, qualquer coisa que aconteça no Afeganistão tem consequência no Paquistão e por aí adiante. Decidir uma intervenção militar no Iraque apostando na sorte (e tendo como base informações dadas por opositores imigrados) só podia dar maus resultados. Uma intervenção militar nunca levaria a “distensão” da situação no Médio Oriente, mas à sua explosão.

Como muitíssimo bem resume um artigo de Jorge Almeida Fernandes, no Público de há uns dias (com o esclarecedor título «Bush fez uma revolução no Médio Oriente, mas exactamente ao contrário daquela que esperava»), «três analistas do liberal Cato Institute, Benjamin Friedman, Harvey Sapolski e Chistopher Preble, advertem contra a ilusão de atribuir a catástrofe aos “erros” de planeamento ou de ignorância cometidos no Iraque - e cuja lista é infinda e risível. O erro de Bush foi ignorar os limites do poderio americano. “A força militar dá-nos o poder de conquistar países estrangeiros, mas não o poder de os governar.” Noutras palavras: a imposição do poder militar americano no estrangeiro “tende a unificar os nossos inimigos e a enfraquecer os aliados ideológicos”.»

Hoje, o mapa do Médio Oriente é mais explosivo do que era há cinco anos, a Al-Qaeda só está enfraquecida porque foi ultrapassada por outros adversários dos EUA, o Irão está mais forte, Israel teve a primeira derrota militar séria da sua história, a situação na Palestina está mais instável e incontrolada, os sauditas estão assutados com o crescimento da força xiita e reactivos, os turcos temem o que se passa no Iraque, e, já agora, o «petróleo, líquido que tem a tendência natural para surgir só em sítios complicados» (ou os sítios ficam complicados quando ele aparece?) está muitíssimo mais caro (e o Iraque contribuiu para isso).

Pacheco Pereira garante que não apoiou a guerra por causa das mentiras que nos foram apresentadas: as relações de Saddam com a Al-Qaeda (vendida a ignorantes) e as ADM. Irrita-se quando lhe mostram os números de mortos (acusa que aos opositores da guerra «não lhes interessa Saddam, não lhes interessa a submissão dos xiitas, não lhes interessa a natureza de um regime que atacou aldeias curdas com armas químicas, não lhes interessa um ditador que provocou guerras, essas sim, com mais de um milhão de mortos, e que invadiu os países vizinhos» mas resume as centenas de milhar de mortos desta guerra a «números plásticos»). Fiquemos então pelos objectivos estratégicos. Eles aí estão e foram, mesmo do ponto de vista que Pacheco Pereira defende, uma catástrofe.

Pacheco Pereira defendeu a intervenção porque acredita na engenharia política por via militar no Médio Oriente. E esse caminho foi o maior derrotado desta guerra. É destes factos que Pacheco Pereira tem de tirar todas as conclusão. Esperemos pelo seu próximo artigo.

Vamos impedir que a opinião de Pacheco seja banida, agora que que só a podemos conhecer no Público, na Sábado, no Rádio Clube e na SIC

Daniel Oliveira, 24.03.08
«Existe em Portugal um delito de opinião para o qual uma pequena turba, que só parece grande porque é alimentada pelo silêncio de muitos, pede punição, censura, opróbrio, confissão pública do crime, rasgar de vestes. Esse delito de opinião é ter estado a favor da invasão do Iraque e é particularmente agravado nos casos raríssimos em que se continua a estar a favor, esses então de reincidência patológica que justificam prisão e banimento.»
De Pacheco Pereira, que anda há anos a monte, perseguido por uma turba que o quer levar para forca.
Quando lhe faltam argumentos Pacheco faz sempre o mesmo: atira-se para o chão num pranto, apontando o seu dedo de vítima perseguida a quem se atreva a critica-lo. O que, tendo em conta a sua violência verbal (bem presente no resto deste inenarrável post), é de um descaramento extraordinário.

Quem manda?

Daniel Oliveira, 31.01.08
No programa Quadratura do Circulo, Pacheco Pereira (cito de cor) responde que se a ministra resolvesse adiar o encerramento das urgências em Anadia à espera de uma melhor alternativa isso seria errado. Porque é simbólico. Porque as pessoas perceberiam que podem conquistar as coisas na rua. E sublinhou: mesmo que tenham razão. Ou seja, a razão das pessoas e a sua saúde não interessam para nada. Porque na política, para Pacheco Pereira, tudo se resume a uma encenação de autoridade. Mesmo que se esteja errado.

Adensa-se o debate ideológico no PSD

Daniel Oliveira, 07.01.08
«Nós sabemos, aliás, que ele [Pacheco Pereira] prefere a formação humana e académica e o percurso profissional, universitário e político, por exemplo, de Marques Mendes e de José Sócrates. Sabemos bem... Sabemos que prefere a imagem do Animal Feroz às imagens do Menino Guerreiro... Mas já agora fica ele, e ficam outros mais, a saber o seguinte: não fui eu que pedi ou encomendei esse vídeo. Outros mais próximos de si o trouxeram por fazerem parte da Direcção de campanha. Não o rejeito, pelo contrário, assumo-o, mas fica a saber que antes do primeiro comício de campanha, em Castelo Branco, em Fevereiro de 2005, dei ordem para não o passarem mais. Já tinha sido mostrado nas sessões de pré - campanha. Mas antes de ir para o Pavilhão, que já estava cheio, telefonaram-me para o hotel a dizer que as pessoas não paravam de pedir o tal vídeo. E pessoas mais próximas de si disseram que era melhor fazer - lhes a vontade...»
Pedro Santana Lopes

Calimero

Daniel Oliveira, 09.12.07


Lembram-se das queixas de Pacheco Pereira porque ninguém o linkava só para o tramar? Pois bem, o Paulo Querido fez as contas. Nos últimos seis meses JPP linkou outros blogues trinta miseráveis vezes. Nunca o fez tão pouco na história do seu Abrupto e não deve haver blogger de grande leitura com uma relação tão autista com o meio. Ficam os outros bloggers ressentidos? Parece que não: o Abrupto teve 4,538 links nos últimos seis meses. Nunca foi tanto. Perante estes números e este texto do Paulo Querido percebe-se como é infantil a birra de Calimero e o delírio das suas teorias da conspiração.

Na minha escola ainda andamos à caça aos gambozinos

Daniel Oliveira, 03.12.07


José Pacheco Pereira, na revista Sábado, a propósito das armas de destruição em massa no Iraque:
«Eu próprio não tinha dúvidas sobre a sua existência e certamente por não querer dar o braço a torcer, que não é a minha escola, ainda não estou inteiramente convencido sobre o que é que lhes aconteceu. Esta é uma história que permanece mal contada, quer pelos EUA, quer pelos próceres do regime iraquiano, quer pela Síria, Irão e companhia.»