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Arrastão: Os suspeitos do costume.

A política como distopia

Miguel Cardina, 25.03.12

 

Portugal também é isto. Com a taxa de desemprego galopante ("oportunidades para todos"), com o efeito terrível da precariedade ("flexibilidade laboral") na vida de tantos jovens e menos jovens, com uma crescente desigualdade económica ("empreendedorismo"), com a classe média a minguar, com 11% dos trabalhadores a receber salário mínimo (485 euros!) e o salário médio colocado entre os 700 e os 800 euros, com a criminalização do protesto, com a adopção de uma espiral austeritária de resultados claros ("novas soluções"), com os bancos salvos à custa do erário público, com a destruição do Estado social e com o efeito disso na vida dos mais vulneráveis, por um lado, e na própria ideia de coesão democrática, por outro, com tudo isto, uff..., temos também a JSD. Estes moços são o espelho do que nos espera e o rosto da política como distopia.

 

(A imagem desapareceu entretanto do facebook da JSD. Esta veio do facebook do Rui Bebiano. Fiquei também a saber, via Maria João Pires, que a imagem é a capa da moção da JSD ao congresso do PSD.)

As palavras são importantes

Daniel Oliveira, 03.02.08



Neste concurso, um espectador disse ao telefone que estava com pressa porque tinha de ir trabalhar. A apresentadora respondeu: «Arbeit Macht Frei» (O trabalho liberta), frase inscrita nas portas de vários campos de concentração nazis. E lançou uma gargalhada, perante o silêncio da sua colega. Quando voltou para o ar, pediu desculpas. Tarde demais. Foi despedida.

Isto é num país que leva a memória a sério. Cá, qualquer esboço de indignação com qualquer alarvidade que se diga conta imediatamente com a ira da brigada politicamente incorrecta. Cá somos todos porreiros e nada é para levar muito a sério. Nem memória, nem o que se diz.

Sou dos que defende que a liberdade de expressão é o mais importante de todos os valores democráticos. A lei não deve proibir que se diga nada. Somos nós, cidadãos, que devemos reagir com indignação aos que insultam a nossa memória. Porque a indignação também é um direito fundamental. E quando deixamos de nos indignar as maiores enormidades passam a ser ouvidas como se de coisas naturais se tratassem.

The stupid black watson

Daniel Oliveira, 11.12.07

É pá, não me interpretes mal, eu não sou nenhum Arroja

Daniel Oliveira, 07.12.07
«Na minha opinião, seria bom, assim, que os homossexuais portugueses permanecessem discretos e pouco afirmativos em público, que não desafiassem em excesso a cultura que tão bem os tem tratado, tornando-se visíveis em demasia, reivindincando explicitamente direitos, ou passeando-se pelo Chiado ou pela Avenida dos Aliados com o mesmo à-vontade que eu observei em S. Francisco. Nesse dia, a cultura portuguesa não vai abdicar da sua norma para os reconhecer e, ao mesmo tempo, meter num gueto. Vai ressenti-los profundamente e reagir indignadamente contra eles.»
Pedro Arroja

A obsessão de Pedro Arroja pelo tema faz-me suspeitar que estamos perante um mirone. Mas como não quero ser insultuoso com o senhor, como ele me acusa de ser, limito-me a repetir as suas palavras, que seguramente não são ofensivas para ninguém: na minha opinião, seria bom, assim, que os arrojas portugueses permanecessem discretos e pouco afirmativos em público, que não desafiassem em excesso a cultura que tão bem os tem tratado, tornando-se visíveis em demasia.

Porque dou tempo de antena a Pedro Arroja? Porque faz muito mais pelos direitos dos homossexuais do que eu. Exibindo-se de forma tão saudável, contribuiu para uma crescente auto-censura dos homofóbicos. Ninguém quer ser comparado com Arroja.

Ainda é cedo

Daniel Oliveira, 30.11.07

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«Andamos vigiados. Precisamos de contar anedotas sobre brancos, pretos, judeus, muçulmanos, gays, machos, mulheres, loiras, morenas, católicos, papas, padres, rabinos, alentejanos, açorianos, portuenses, lisboetas, o que for. Para ver se somos gente normal. Ou se só copiamos os estereótipos politicamente correctos.»Francisco José Viegas, a propósito do anúncio da Tagus
Parece a nova obsessão: o espartilho do “politicamente correcto”. E sempre que leio estas coisas fico com a sensação que devo viver num país diferente. No país de muitos colunistas, comentadores e bloggers vive-se no pânico de ferir susceptibilidades. Vive-se vigiado por uma polícia dos bons costumes em defesa das minorias. No país que eu conheço, que deve ser outro, os gays são chamados de paneleiros e ninguém pensa cinco segundos antes contar, para gáudio geral, piadas sobre os “maricas” (o termo mais carinhoso que se conhece). No país que eu conheço as “bichas” são histéricas e quem não se diverte com a sua triste condição ou é hipócrita ou é um deles. No país que eu conheço a maioria dos homossexuais esconde dos pais, dos irmãos, dos amigos e dos colegas a sua orientação. No país que eu conheço quem se cala, quem é patrulhado, vigiando e condicionado e quem tem receio das reacções alheias são os homossexuais e não a brigada suicida do "politicamente incorrecto". Com essa, quase ninguém se rala. E, apesar de menos generalizado, no país que eu conheço fala-se dos “pretos” como parasitas e criminosos e das mulheres como galinhas descerebradas, gastadoras do dinheiro dos maridos e fúteis bibelots. No país que eu conheço a «gente normal» dedica-se ao activismo proposto por Francisco José Viegas todos os dias. Se o seu apelo fosse ouvido não sei se alguém daria pela diferença. Novidade, talvez apenas nas anedotas sobre brancos e machos. Mas temo que não venham a ter grande sucesso.

A ver se nos entendemos: não tenho nenhum problema com anedotas de coisa nenhuma. Digo piadas sobre tudo em privado. Porque sou, de facto, «uma pessoa normal». Não faço de cada momento da minha vida um statement. Reservo-me o direito à incoerência, sem a qual qualquer pessoa se torna ou doida ou insuportável. Mas no domínio da vida pública não sou «uma pessoa normal». Por duas razões: porque isso não existe. A «normalidade» exige intimidade. Em público ela é tão fabricada com qualquer outra coisa. E porque não me acho suficientemete importante para que os outros queiram a minha «normalidade».

Por isso distingo, como qualquer pessoa civilizada (Francisco José Viegas incluido), o público e o privado. Porque o humor (como muitas outras coisas) depende dessa distinção. Em privado, com pessoas que conheço, há a cumplicidade do “não dito”. As pessoas que me ouvem sabem que não sou racista, não sou machista, não sou homofóbico. E eu, para além de saber o que elas sabem sobre mim, sei algumas coisas sobre elas. Sei como interpretam e reagem ao que digo. Tenho a certeza que Viegas não contaria uma anedota sobre judeus a um nazi. A razão é simples: falta a cumplicidade. O que para ele seria uma auto-ironia em relação às suas convicções (e aí reside parte da piada dos gays contarem anedotas sobre gays) seria ouvido pelo nazi de uma forma completamente inversa. E essa é uma das razões porque o humor em privado e em público são diferentes. Quando falamos para todos não sabemos como somos ouvidos.

O humor é a tragédia mais a distância, disse não sei quem. E esse é o meu segundo ponto. Uns dias depois do 11 de Setembro um comediante americano de Nova Iorque tentou fazer humor com o assunto num encontro com outros humoristas. Da plateia ouviu-se uma frase: “ainda é cedo!” Da mesma maneira, uma anedota sobre Auschwitz pode ser um insulto se contada na presença de um sobrevivente ou a um familiar. Para eles ainda é cedo. Está lá a tragédia, falta a distância. Vamos medindo até sabermos que já é possível. Para quem vive diariamente o segredo da sua homossexualidade, ou o olhar de esguelha no emprego, ou a incompatibilidade com a família e tem de aturar, todos os dias, a todo o momento, na televisão, no teatro de revista, no restaurante, no escritório, piadas inocentes sobre “paneleiros”, também é cedo. Não será, talvez, se for um amigo, alguém com quem tenha a tal cumplicidade. É se for um desconhecido ou alguém que essa pessoa sabe que despreza a sua opção. Faz diferença. Além de que, como se sabe, o que é demais enjoa.

Claro que Francisco José Viegas pode contar as anedotas que entender. E pode acusar muita gente de falta de sentido de humor por não achar grande graça. Eu digo aqui a única razão porque não acho: porque acho fácil. Viegas estaria apenas a procurar a simpatia da maioria sem beliscar as suas convicções. O que para ele seria visto como uma provocação seria, na realidade, ouvido, pela esmagadora maioria, como uma evidência. O humor sobre as minorias é tão legítimo como qualquer outro (não há humor ilegítimo e as minorias costumam ser o principal tema). É só mais cobarde. E pelo menos a mim a cobardia dá-me pouca vontade de rir. Em Portugal, prefiro piadas sobre católicos. É mais dificil e aí sim, como pode testemunhar Herman José, a censura pode fazer-se sentir.

Para acabar, uma notícia: Adolescente homossexual canadiano, de 14 anos, suicida-se depois de ter sido intimidado pelos seus colegas. O sofrimento extremo das vítimas do preconceito é muito mais comum do que algumas pessoas pensam, quando olham com bonomia para a homofobia. “Ainda é cedo”, digo eu da panteia. Quando isto for memória talvez tenha mais graça. Não tenciono ser polícia de ninguém. Apenas reservo para mim o mesmo direito que dou aos outros: o de achar ou não achar graça a qualquer piada. Um exemplo: achei muita a isto. Talvez porque tenha a auto-ironia de que falava. Ou talvez apenas porque tenha mesmo graça e eu não seja o campeão da coerência.

Direito à crítica nos dois sentidos

Daniel Oliveira, 06.11.07
Helena Matos pergunta se existe o direito de criticar este cartaz do Festival Internacional de Cinema Gay e Lésbico de Barcelona. E mostra-se indignada pelas críticas que são feitas aos críticos do cartaz.
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Sim, existe o direito de criticar este cartaz.
Como existe o direito de criticar este livro:

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Como existe o direito de criticar os críticos deste cartaz e deste livro.
Parece que apologistas do Novo Politicamente Correcto (NPC), que é uma recuperação do Politicamente Correcto do passado, acham que a crítica é livre, mas só se for num sentido. Se vier de volta é um ataque inominável à liberdade de expressão. À deles, claro, que é a que conta.

Reconhecendo que os pais autorizaram o uso da imagem do seu filho, Helena Matos não acha adequado «que se use o rosto duma criança para promover um festival de cinema gay, lésbico ou heterossexual». Só não explicou porquê e preferiu atirar-se para o chão e queixar-se da resposta. Eu percebo a estratégia: chorar contra a censura sem ter de abrir a boca, dando a entender que são os críticos e não os autores do cartaz que estão a ser moralmente condenados.

E gostava mesmo de perceber as suas razões. Tendo em conta que, suponho, nada tem contra a utilização de actores-criança em filmes de terror ou filmes de guerra, em publicidade variada e campanhas políticas. Se tem, então entramos noutro debate mais interessante sobre a utilização da imagem de crianças em coisas que não são para a sua idade. E eu retiro já a referência ao "Lolita" (que por sinal é um dos meus livros de sempre). Mas se assim for, o cartaz deste festival é apenas mais um episódio e até com muito menos impacto do que tantos outros. Mas se não for o caso, fica a pergunta: o que é que este festival tem que é diferente dos outros?

Hoje é dia deles serem relativista

Daniel Oliveira, 23.10.07
Sobre o movimento de defesa do Doutor James eu-sei-que-os-pretos-são-burros-porque-fiz-testes-à-minha-mulher-a-dias Watson, Pedro Sales escreve este excelente post. Parece que se for politicamente incorrecto um cientista pode dizer as barbaridades científicas que quiser sem que isso belisque a sua credibilidade.