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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Portugal 61

Miguel Cardina, 30.08.11

 

Leio Angola 61. Guerra Colonial: Causas e Consequências. O 4 de Fevereiro e o 15 de Março, da autoria de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus. É um impressionante documento centrado nos momentos que dão corpo ao início da guerra naquele território: o 4 de Fevereiro e o 15 de Março, mas também a revolta camponesa na Baixa de Cassange. Assumindo o colonialismo como forma genérica de inferiorização - o que lhes permite um olhar bastante agudo sobre algumas dimensões do fenómeno - os autores também efectuam uma análise de como a experiência da guerra se entrelaçou com o estertor do regime. O uso cuidado das fontes, recorrendo a vários arquivos e a depoimentos escritos e orais sobre os episódios, não os inibe de guardar as últimas linhas para uma curiosa interpelação de outra índole. Pergunta-se então: como teria sido a descolonização se em vez da guerra se tivesse optado pela negociação? Como seria hoje o país se não tivéssemos embarcado numa via que delapidou tantas vidas (só do lado português, mais de 8.000 mortos, 30.000 feridos e um número não contabilizado de gente afectada psicologicamente) e recursos materiais (com os gastos de guerra a assumirem 40% das despesas do Estado)? Perguntas que ficam sem resposta porque a função do livro é outra. Mas que de repente nos lembram a importância destes exercícios de imaginação histórica e de como estamos tão pouco habituados a fazê-los. Infelizmente.

Bifurcação

Miguel Cardina, 06.07.11

 

Tem graça: depois de ter sido eleito um governo que não só promete cumprir o programa da "troika" mas "ir mais longe", depois de nos terem dito que o melhor era não apontar as críticas aos mercados e às agências de rating porque isso escalava o nervosismo, depois disso tudo e de mais umas quantas frases de antologia, Portugal chega ao patamar do "lixo". Ainda esta semana pude ver o Inside Job e dá bem para perceber como os critérios de cotação das agências de ratings são, no mínimo, duvidosos - e no máximo, criminosos. E é assim que cada vez mais temos pela frente um caminho que se bifurca: ou aceitamos a austeridade do modo como está ser imposta na Grécia ou dizemos, como se escreveu num manifesto há uns meses atrás, que "o inevitável é inviável".

A esfinge de areia

Sérgio Lavos, 30.12.10

 

Cavaco Silva, o presidente que cedeu ao frete de ser candidato, perdeu claramente os quatro debates para as presidenciais. Se por acaso as televisões tivessem convidado José Manuel Coelho para a festa, também teria grandes probabilidades de perder. Alguém que não conhecesse o panorama nacional e o visse ontem frente a Manuel Alegre com o som do televisor em baixo poderia jurar estar perante um homem com um longo caminho a percorrer nas sondagens, alguém crispado, lutando furiosamente para se manter à tona de água no combate eleitoral. Alegre, em contraste, exibiu à vontade e uma calma surpreendente, soberana. Cavaco, o estadista lusitano, o homem da providência nacional, foi empurrando para o canto do ringue sucessivamente por Francisco Lopes, Fernando Nobre e, humilhação suprema, Defensor Moura. Manuel Alegre limitou-se a gerir os pontos fracos: os amigos no BPN e as acções que aqueles lhe venderam, o devaneio das escutas-fantasma, a tibieza perante chefes-de-estado de países com uma economia emergente. Alegre poderia, inclusive, ter ido muito mais longe: a insistência numa pose acima da sujeira da política é a principal característica de Cavaco, e é não por ter escolhido deliberadamente essa pose, mas por ser obrigado a isso, por não poder ser de outro modo. São evidentes as dificuldades na oratória, na exposição de ideias, na coerência do discurso. Poderíamos discutir a pertinência destas qualidades, se pensarmos no modelo do político moderno, brilhante na imagem e vazio nas ideias (Tony Blair será um dos melhores exemplos). O problema é que esta ausência de qualidades de tribuno nada esconde, nem o brilhantismo do técnico esforçado nem a competência do ordeiro burocrata; este brilhantismo é uma ilusão, uma crença infundada das almas torturadas dos seus apoiantes. O tempo que passou à frente do governo do país é a prova: um consulado de dez anos em que se limitou a aplicar o rio de fundos europeus em áreas de reduzida importância estratégica, a agravar o peso do Estado até se tornar incomportável para a dimensão do país, a lançar as raízes das dificuldades estruturais que temos sentido nos últimos anos. Cavaco Silva é o espelho da nossa alma: baço, aplicado mas sem rasgos, calando-se perante poderes mais fortes, um clone enfraquecido ou uma memória distante do português provinciano e poupadinho que tomou conta dos destinos do país durante quarenta anos, o Salazar do descontentamento da pátria e da alegria triste de muitos dos mais fervorosos adeptos desta pálida cópia. O silêncio de Cavaco, tantas vezes elogiado pelos seus apaniguados, não oculta uma qualquer sabedoria salvífica - nem os poderes do presidente lhe permitiriam isso, ao contrário do que ele nos quer fazer crer; o silêncio de Cavaco é uma máscara que cobre o vazio de ideias de quem nada tem de original para dizer. E basta um qualquer Defensor Moura (e escrevo isto com todo o respeito) para o expor. Mas sim, ele lidera as sondagens. E a única maneira de evitar uma maioria de direita, uma hidra bicéfala Passos Coelho/Cavaco, é não votar nele. Nós não o merecemos; muito mais, merecemos muito mais.

Ideias Perigosas para Portugal

Sérgio Lavos, 28.12.10

 

O livro Ideias Perigosas para Portugal, organizado por João Caraça e Gustavo Cardoso e publicado pela Tinta-da-China, é um excelente exemplo de como a sociedade civil pode contribuir para o debate público. Para que se possa fugir ao discurso mediático, dominado por um pensamento que permite poucas nuances e se funda num discurso que espelha quase sempre ideias dos partidos políticos. As 60 personalidades convidadas a escrever para o volume tiveram de propor uma ideia perigosa para Portugal - perigosa no sentido de ser revolucionária, mas não só - propostas de mudança que podem ter tanto de original como de visionário. Na revista Alice, podemos conhecer melhor o conceito do livro e espreitar o debate ocorrido na livraria Bulhosa de Campo de Ourique entre João Caraça e Nuno Artur Silva, um dos convidados.

Notícias do interior do mundo

Miguel Cardina, 12.12.10

Dizem-nos que não devemos querer saber disto. Que isto perturba a ordem das coisas. Que nos devemos apenas preocupar com o caroço, a fuligem dos dias, a democracia da urna a horas certas. Que podemos dormir descansados enquanto eles tratam das questões verdadeiramente importantes. Que sair da caverna é uma impertinência e uma insensatez. Que não devemos dar crédito a isto, porque neste caso dar crédito é pactuar com o roubo. E o roubo, já dizia um velho francês de barbas, é a designação que alguns atribuem à propriedade. Ler as palavras do poder é ser um comunista primitivo ou um anarquista australiano.

De derrota em derrota

Sérgio Lavos, 22.11.10

O desconforto breve trazido pela cimeira da Nato tornou-se passado em dois dias, e o que acabou por sair mais prejudicado foi uma certa ideia de esquerda solidária e unida em torno de causas essenciais e indubitáveis. Nem valerá muito a pena discorrer sobre a sucessão de textos e comentários em blogues de esquerda sobre o aconteceu no dia da manifestação da Avenida da Liberdade, a tal que, por vontade dos organizadores - o movimento Paz Sim, Nato Não - decidiu reservar o direito de admissão apenas a militantes e simpatizantes do PCP, com uma certa incompreensível conivência de quem vinha logo atrás, o Bloco de Esquerda. Não é especulação, o cruzamento de relatos confirma o sucedido, e a força policial que esteve presente para isolar quem não estava incluído nestes dois grupos (diga-se, numa relação de forças de três polícias para cada um dos activistas segregados) acabou por confirmar, para as televisões, que houve uma vontade expressa por parte dos organizadores de separar a frente da manifestação da cauda. Este ponto não será discutível; parece que, depois da manifestação de Julho e da longa espera para uma greve geral a dois dias da votação do Orçamento, o braço sindical do PCP, a CGTP, se tornou a central sindical do regime, institucionalizada e pronta a pegar em armas de forma controlada e ordeira, quais cordeiros arrebanhados pela força das circunstâncias. A presença de dezenas de bandeiras de Portugal na manifestação de sábado confirma a institucionalização da luta do PCP: uma esquerda ideologicamente ortodoxa, sim, mas esclerosadamente patriótica e pronta a fazer o jogo dos partidos do centro, mantendo a ordem nestas situações, respeitando sem demasiado estrépito o discurso de responsabilidade que tem sido imposto, com a ajuda de uma máquina de propaganda mediática imbatível, ao povo que cala e consente.

Marcar território, de pernas abertas e empurrando todos em volta: eis o único e exclusivo objectivo da organização que convocou a manifestação de sábado. Desde aí, tem-se confirmado a opção, em caixas de comentários de blogues ou actualizações do Facebook, e quem marcou o território tem vindo a reforçar a ideia de que, daqui para a frente, existe apenas uma luta pura, fragilizando o movimento de contestação às medidas de austeridade. Luta de galos, no fundo, e um vergonhoso espectáculo para quem está de fora, sobretudo a direita, que bem pode rir a bom rir. Não se compreende como, num momento tão grave e importante como este, a atitude de grande parte da esquerda se funda num sectarismo cada vez mais radical, e portanto cada vez mais afastado da luta dos trabalhadores e de quem tem vindo a ficar realmente excluído do sistema. O momento aconselhava, exigia, um esforço de união e uma só voz. Em vez disso, questões laterais, rasgar de vestes, absurdos. Depois venham-se queixar quando tudo estiver terminado. Ou serei ingénuo a ponto de não achar que estes retrocessos serão necessários para poderem vir a acontecer avanços? A dialéctica marxista pode ser uma espada de dois gumes.

Adenda: Ler o
relato dos acontecimentos feito pelo Ricardo Noronha. Esclarecedor.

O luxo da lentidão

Sérgio Lavos, 23.01.10

É uma curta coluna no caderno Actual, do Expresso, e, julgo, nem sequer está disponível em linha. Textos compactos, densos, inteligentes como quase nada do que se escreve nos jornais portugueses. Chama-se Ao Pé da Letra, o espaço ocupado pelo crítico literário António Guerreiro; e vale sempre, mas sempre, a pena lê-lo. Esta semana, fala de "um ministro" que anseia pelo TGV para Lisboa se tornar a praia de Madrid. Tão certeira dissecação do provincianismo dos nossos políticos é um prazer que deveria ser obrigatório:

Sobre a alta velocidade e a pequena burguesia
Quando um ministro diz que, graças ao TGV, Lisboa pode tornar-se a praia de Madrid, as suas palavras têm o poder de nos fazer lembrar três figuras que um filósofo italiano, comentando a teoria do carisma de Max Weber, eleva a categorias: o demagogo, o imbecil instintivo e o palhaço carismático. Mas mais importante do que projectar tais palavras em quaisquer categorias é percebermos que a política pertence hoje inteiramente àqueles que se convencem daquilo que dizem. É  aí que reside todo o segredo do discurso político. Mas as palavras deste ministro ilustram também outra coisa: que, no horizonte dos governantes, o único modelo de classe que existe (ou em que todos se devem transformar) é precisamente uma classe que não chega a sê-lo: a pequena burguesia universal, cujas bases materiais de existência assentam num modelo de vida que se manifesta em duas dimensões: o consumo e o tempo livre. Lisboa como praia de Madrid, Caparica como praia de Lisboa: trata-se sempre do mesmo tropismo - marítimo e litoral - que define o movimento a alta velocidade de uma massa que nunca gozará do luxo da lentidão.

Fado, futebol e frango assado

Daniel Oliveira, 30.12.07
Ao ver na sexta-feira, na RTP 2, um episódio de um documentário sobre Chico Buarque (em que este se encontra com Ronaldinho Gaúcho em Barcelona, como dois génios se encontram para se admirarem mutuamente) e fala durante quase uma hora de futebol, não pude deixar de sentir esta superioridade do Novo Mundo, onde futebol, samba e poesia se misturam. E de sentir pena pelo tempo perdido por cá, em que intelectuais hiper-politizados desprezaram durante anos, com algum nojo, futebol, fado e toda a cultura popular que não fosse estritamente etnográfica. Em Portugal continua a não faltar quem pense que o "povo" está irremediavelmente alienado e embrutecido. Provinciana é a nossa elite. Felizmente, vai-se sentindo que alguma coisa está a mudar.